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março 2007



DIVERSIDADE CULTURAL

A descoberta das literaturas indianas

Cada vez mais conhecidos no Ocidente, os escritores indianos contemporâneos são homenageados no Salão do Livro de Paris. Vale conhecer a tradição literária milenar de que fazem parte: um universo vibrante em que sobressaem crítica social, erotismo e transgressão


Tirthankar Chanda

Em Sakuntala [1], a peça mais conhecida do grande poeta dramático da Índia clássica, Kalidasa (século 4), o caminho do rei Dushyanta cruza com o da filha de um eremita durante uma caçada. A paixão é recíproca. Casam-se em segredo, mas o rei vai embora depois da noite de núpcias. Preso aos afazeres do reino, ele esquece sua nova conquista, que o aguarda. O drama ameaça eclodir. Mas como não existe a tragédia no teatro indiano, o rei reencontra sua memória e volta para a bela Sakuntala. Essa história, que entusiasmou a intelligentsia ocidental, em sua primeira tradução para o inglês, no século 18, parece significativa das complexas relações de amor e esquecimento, que o Ocidente mantém há muito tempo com as literaturas indianas.

Atualmente, o período é propício à aproximação de imaginários, como atesta a extraordinária simpatia de que usufruem os escritores indianos de língua inglesa. Contudo, os indianos escrevem, contam e criam em quase vinte línguas, sendo que algumas têm tradições milenares. Essas obras em hindu, bengalês, sânscrito, tâmil, ou uma das outras catorze línguas oficiais do país, merecem ser conhecidas por sua riqueza estética, imaginativa ou filosófica. Além da essência religiosa, a literatura indiana foi fértil: dos Vedas (3.500 a.C.) ao Ramayana [2] e o Mahabharata [3] (séculos IV e V d.C.), sem esquecer Kathasaritsagar (século 9) ou os Bhakti.

A corrente moderna nas letras indianas nasceu na virada do século 19, por meio do contato com a Europa, seus pensadores e livros. Ele pode ser encontrado, em primeiro lugar, na literatura bengalesa, cujos autores foram expostos muito cedo à influência ocidental. Bengala fora escolhida pelos ingleses como o centro administrativo de seu império. Fundada em 1690 por um empregado da East India Company e, depois, capital da Índia Britânica (até 1912), Calcutá irá se tornar o centro nevrálgico da vida intelectual indiana. Em parte graças à descoberta, pelos estudiosos de sânscrito europeus, de inegáveis tesouros da literatura clássica indiana; também devido à criação dos primeiros estabelecimentos universitários (Fort William College em 1800 e Hindu College em 1817) que ofereciam ensino ocidental. Os jovens bengaleses formaram uma nova elite da qual precedem os escritores que irão renovar a literatura. Injetaram-lhe novas idéias e importaram formas como a ode, o soneto, o verso livre e, sobretudo, o romance e a novela.

Desde Bengala, espalham-se o romance e a contestação

Sob impulso do escritor Bankim Chandra Chatterjee, a ficção romanesca irá se enraizar. Autor de catorze romances, Bankim trata de temas nacionalistas, intrigas românticas e históricas à moda de Walter Scott. Muito popular em Bengala, assim como em outras regiões do país onde suas obras foram traduzidas rapidamente, ele é, unanimamente, considerado o “pai do romance indiano”. No final do século 19, Bengala já possuía uma literatura de primeira linha com seus romancistas, novelistas e poetas. Eles domesticaram as formas ocidentais e deram o suporte eloqüente à efervescência social e intelectual que vivenciaram, enquanto o país se conectava com as forças da modernidade. Laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 1913, a obra multidimensional de Rabindrabath Tagore, situa-se na confluência entre a Índia e o Ocidente, o secular e o espiritual. É o resultado emblemático dessa empreitada de renovação intelectual chamada “renascimento bengalês”.

Essa corrente modernista é rapidamente propagada em outros centros culturais e intelectuais, constituindo um estímulo decisivo à criação literária nas grandes línguas regionais indianas. Os primeiros romances em hindu, urdu, telugu, tâmil, malayâlam, goujerati ou oriya datam da segunda metade do século 19. A novela conheceu um destino extraordinário em todas as literaturas vernáculas. Sob influência de Tagore, que a tomou emprestada do francês e popularizou em Bengala, os escritores indianos se apoderaram desta forma de narração breve antes mesmo que o gênero se impusesse na Inglaterra. Opondo-se aos sopros longos do discurso indiano, eles adaptaram a novela às urgências da reforma social e da resistência nacional contra o colonizador. Essas foram as duas principais fontes de inspiração durante a primeira metade do século 20.

No entanto, serão os escritores da escola progressista como Premchand (de língua hindu), Manto (de língua urdu) ou Ismat Chutghai (de língua urdu) que dominarão a cena literária até a independência, em 1947. Com temas como a miséria social e a opressão das mulheres, a novela atingiu um pico de perfeição e de expressividade nunca mais visto.

Depois da independência, as literaturas das principais línguas vernáculas (bhasa) conheceram um desenvolvimento que revitalizou todos os gêneros. A poesia bengalesa foi modernizada e urbanizada, distanciando-se do idealismo romântico e do culto do belo que caracterizavam a poesia de Tagore e seus herdeiros imediatos, como Jibanananda Das ou Sukanto Bhattacharya. Sob a pena de poetas às vezes reunidos em cenáculos [4], ela se tornou mais popular, transgressora, ousada e grosseira — sem dúvida para estar em maior harmonia com as ruas, sua principal fonte de inspiração. Nas regiões do sul, a novela se impôs como a forma de maior consonância ao apelo popular, correntemente publicada pelos jornais.

Focar indivíduo rebelde. Derrotar a ordem hindu pelo verbo

As grandes figuras destas literaturas vernáculas pós-independência são: Mahasweta Devi, Nirmal Verma, Ananthamurthy, O.V. Vijayan [5]. Escritores resolutadamente individualistas, nos quais a sensibilidade pessoal dá o tom sobre as escolhas estéticas da comunidade. Paralelamente, vemos um formidável movimento de democratização e de “desburguesamento”. Confirmam isso a chegada das mulheres e a irrupção dos autores dalits ou “oprimidos” - - termo pelo qual os escritores de casta inferior (ou "intocável") gostam se designar normalmente. A subversão entra na literatura.

"Nasci quando o sol enfraqueceu / E lentamente se apagou / No abraço da noite./ Nasci numa viela/ Num trapo velho/ Cresci como alguém com um parafuso a menos/ Comi fezes e cresci./ Me dá cinco centavos, me dá cinco centavos/ E pegue cinco palavrões em troca/ Estou a caminho do santuário", escreveu o grande poeta Namdeo Dhasal, resumindo em algumas palavras o isolamento e a crueldade sofridas por sua comunidade. Representando 24% da população, os "intocáveis" estão na base da hierarquia social das castas que reinam na Índia desde a antigüidade. A poesia dalit nasceu desse sofrimento e das lutas obstinadas para conscientizar as populações, lideradas por personalidades como Mahatma Jyotiba Phule ou Bhim Rao Ambedkar [6]. Ela emergiu nos anos 1960, no estado ocidental indiano de Mahrashtra, pátria de Ambedkar. Fala da humilhação no cotidiano, que toca a essência da vida. Em um poema sobre a água, Dhasal acusa: “Nós ensinamos mesmo à água a prejulgar a casta”. “Mesmo o sol deverá mudar”, escreveu Arjun Dangle, um outro poeta do Mahrashtra.

Para eles, escrever não é apenas uma prática estética mas também um ato político. Seu objetivo é derrotar a ordem hindu da sociedade pela força do verbo. Inspirados na rebelião dos poetas negros norte-americanos de Harlem Renassaince, fundam em 1973 o movimento Panteras Dalits. Aliam a prática poética a um ativismo político radical. Fundador desse movimento, Dhasal conhece a notoriedade com sua primeira coletânea de poemas intitulada Golpitha. Seus poemas chocaram o establishment literário pela crueza de linguagem, pelas evocações ousadas, onde se misturam a sexualidade, o desprezível e a revolta. Naipaul, que reencontra esse poeta rebelde nos anos 80, pinta com admiração um retrato do personagem em sua narrativa de viagem Inde, um million de revoltes: “A grande originalidade de Namdeo [Dhasal] está em ter escrito num estilo natural, utilizando as palavras e as expressões que serviam unicamente aos dalits (...). Seu primeiro livro de poemas foi escrito, especificamente, no idioma dos bairros de bordel em Mumbai. Foi isso que criou essa sensação”.

Nos anos 70, a literatura dos dalits e o obsceno rebelde

As narrativas autobiográficas marcaram igualmente as letras dalits. Ma vie d’intouchable de Daya Pawar e Oupra de Lakshman Mané [7] são as obras-primas do gênero, marcadas tanto pela economia e eficácia de sua escrita quanto por seu valor de testemunho. São, sobretudo, as narrativas de vida que melhor permitem dar conta do absurdo e desumano das tradições e crenças.

Hoje, pode-se falar de um corpus realmente nacional da literatura dalit, com a entrada em cena dos escritores de língua tâmile, goujerati ou punjabi. Segundo Bama, a grande voz da literatura tâmile, cujo no romance autobiográfico Sangati [8] (A assembléia), “a literatura dalit é a única verdadeira literatura de libertação na Índia”.

Menos combativa mas também subversiva, a corrente dos “digambara kavulu” (poetas nus) — na qual a poesia erótica de língua telugu, rica em imagens sexuais e ritmos de vocábulos obscenos — abalou intensamente, na virada dos anos 1970, o elitismo da Índia profunda. Os poetas digambara eram tão provocativos que deixavam a promoção de suas primeiras obras a cargo de puxadores de riquixá, lavadores de pratos em restaurantes de beira de estrada e prostitutas. Os brâmanes, obviamente, ainda não se recuperaram disso.

Ja a literatura em língua inglesa alcançou, desde há alguns anos, uma visibilidade da qual não se beneficiaram outras literaturas indianas. Fruto de cerca de duzentos anos de colonização britânica, a anglofonia indian conhece hoje um de seus períodos mais faustos - graças à fecundidade e ao talento admirável de romancistas como Salman Rushdie, Tarun Tejpal ou Arundhati Roy, para citar os nomes mais midiatizados. Essa geração de escritores –- chamada “Filhos da meia-noite”, em referência ao título de um romance de Salman Rushdie -– mostra como o inglês, longe de ser vestígio de um passado de subjugação, tornou-se a ferramenta privilegiada para explorar a realidade contemporânea indiana em toda a sua complexidade.

O escritor anglófono sai em busca da Índia profunda

Ansiosa por consolidar do país, por meio da formação de uma elite anglófona, suscetível de agir como intermediária junto às massas indianas, a administração britânica desejou constituir, desde o século 19, o que o historiador britânico e poeta Thomas Babington Macaulay chama de “uma classe de indivíduos indianos pelo sangue e pela cor da pele, mas ingleses por seus gostos, suas opiniões, sua moral e sua capacidade intelectual" [9]. Em 1835, fez votar uma lei impondo o estudo do inglês nos ensinos secundário e superior.

O primeiro romance indiano em inglês data de 1854. Mas, o gênero conheceu seu verdadeiro desenvolvimento a partir dos anos 1930, com a geração de R.K. Narayan, Mulk Raj Anand e Raja Rao. Eles deram vida a uma literatura original. Esses pioneiros das letras indo-inglesas fizeram história, porque foram os primeiros a compreender que o uso do inglês no contexto indiano não era natural, e que era preciso escrever tendo em mente o status problemático desta língua e do escritor anglófono na India.No prefácio de seu romance Kanthapura [10] (1938), cuja mensagem se mantém atual, Raha Rao escreveu: "Nós somos condenados a exprimir essa alma, que é a nossa, com palavras vindas de fora. E é difícil dar-se conta das nuances de nosso pensamento e dos silêncios que ocupam o processo de reflexão devido a essa incapacidade que sentimos de nos exprimir em uma língua estrangeira”.

Mas pode-se dizer que o inglês é uma língua estrangeira para os indianos? Para Salman Rushdie e seus colegas, que por volta dos anos 80 vão tomar de assalto a passiva cena anglófona indiana, a resposta é evidentemente negativa. Vindos da elite, praticamente todos eles etudaram em escolas nas quais o inglês era a língua principal. Viveram dentro das premissas do Ocidente, com os privilégios deste ambiente plurilingüístico, sobre o qual fala o escritor U.R. Ananthamurthy: “Seja em que parte da Índia estivermos, vivemos numa ambivalência de línguas e múltiplas influências. Isso é particularmente verdadeiro se moramos em uma cidade provincial. Falar uma língua em casa, outra na rua e uma terceira no trabalho parece algo bastante habitual e natural”. Salman Rushdie renovou profundamente a literatura anglo-indiana ao explorar com brilhantismo e inventividade o potencial romanesco desse “ambiente de línguas”, em Os filhos da meia-noite. Publicado em 1981, esse romance — que fala dos dilemas e prazeres da Índia pós-colonial, vistos pelos olhos de crianças nascidas na hora fatídica da meia-noite do dia 15 de agosto de 1947, quando a Índia alcança a independência -– recebeu o Booker Prize, na Inglaterra. Adaptando os recursos da criatividade indiana à tradição romanesca européia, Os filhos da meia-noite abriu caminho para uma anglofonia assumida.

Nos novos, a chama da profundidade, invenção e coragem

Na primeira leva de escritores que foram revelados em seguida a Rushdie, devemos citar Amitav Ghosh, Shashi Tharoor, Vikram Seth, Rohinton Mistry, Upamanyu Chatterjee, Amit Chaudhuri, Bharati Mukherjee, Shauna Singh Baldwin, Githa Hariharan. Estando a maioria estabelecida no exterior, esses autores exploraram a Índia e seus abismos por meio da nostalgia ou da paródia. Recriaram, para citar Rushdie, “as pátrias imaginárias, invisíveis, Índias do espírito”, arrancadas pela distância e o esquecimento. Em 1997, Arundhati Roy publica O Deus das pequenas coisas, [11]que é agraciado com o Booker Prize e torna-se um grande sucesso nacional e internacional de livraria. A obra marca a entrada em cena da segunda leva de escritores indianos anglófonos, a maior parte dos quais vive na Índia. Estão entre eles Tarun Tejpal, Rana Dasgupta, Indrajit Hazra, Ruchir Joshi, Radhika Jha e Raj Kamal Jha em Nova Délhi; Anita Nair e Lavanya Sankaran em Bangalore; Allan Sealy em Dehradun. O exílio não coloriu a percepção de sua temática. Com freqüência, foram mais lúcidos que seus predecessores. No entanto, suas afiliações literárias e estéticas não são menos cosmopolitas, como comprova em testemunho o sutil romance-conto de Rana Dasgupta, Tokyo: vol annulé (Buchet-Chastel, 2005), na tradição do Decamerão, de Giovanni Boccaccio (1348) e dos Canterbury Tales, do inglês Geoffrey Chaucer (século 14).

Em seu último romance, publicado em francês com o título Le jardin des délices terrestres [12], Indrajit Hazra explora, por sua vez, as complexas relações da escrita e da mentira, por meio de uma fantasmagoria que faz o leitor viajar entre uma Calcutá inesperada e surreal e uma Praga fria e descarnada. Enfim, Fireproof, de Raj Kamal Jha [13] — que tinha escrito há alguns anos um romance intimista de grande intensidade — retoma, numa história estruturada com inteligência e alocada em diversos níveis, a série de pogrons anti-muçulmanos que se desencadeou em 2002 na Índia, sob o olhar cúmplice dos poderes da época. É um romance forte, catártico, que se apóia sobre a imagem central de um feto desmembrado. Convida o leitor a descer às profundezas de uma memória coletiva desesperadora, e a se perguntar acerca da nossa precária humanidade e sobre a barbárie que ameaça a civilização.

Este questionamento crítico lancinante sobre as misérias sociais, que os jovens anglófonos parecem hoje expressar, é sem dúvida um dos elementos que os liga ao corpus literário vasto e milenar da Índia. O engajamento social é fio vermelho que o conduz.

Tradução: Elisa Andrade Buzzo
elisabuzzo@gmail.com

Mais, nesta edição: "Dos Vedas ao Kama Sutra"

[1] Kalidasa. Recognition of Sakuntala. Coleção: Oxford World’s Classics. Oxford, Londres

[2] Valmili, Ramayana. Penguin Books

[3] Jobin, Argeo e Serodo, Andre. Mahabharata. Editora : MADRAS

[4] Por exemplo, no cenáculo criado em torno da revista Krittivas, em 1953, que reunia a nova geração de poetas, e que foi contestado nos anos 1970 pelos modernistas do grupo Hungry "Famintos")

[5] Ler Shashi D. Chintamani, “Réalisme magique au Kerala”, Le Monde diplomatique, edição francesa, outubro de 2004.

[6] O primeiro (1827-1890) foi um militante brâmane contra o sistema de castas; o segundo (1891-1956) era um advogado dalit e foi o pai da Constituição indiana depois da independência em 1947.

[7] Daya Pawar, Ma vie d’intouchable, La Découverte, Paris, 2007; e Laxman Mané, Oupra, Maren sell, Paris, 1987

[8] Edition de l’Aube, 2002

[9] Minute on English Education, 1835

[10] RAO, Raja. Kanthapura. ed: WW Norton

[11] Editado no Brasil pela Companhia das Letras em 1998, com tradução de José Rubens Siqueira.

[12] The Garden of Earthly Delights (English). Editor: Phaidon

[13] Picador, Londres, 2007