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fevereiro 2000



DOSSIÊ INTERNET — "NOVA ECONOMIA" & TRABALHO

Os cibercondenados

A vida é dura para os funcionários da Amazon. Telefone fixo no crânio, olhos grudados na tela e rua, para quem não responder doze mensagens por hora


Serge Halimi

Não é certo que a "nova economia" tenha dado à luz essa nova raça de empresários e assalariados cantada em prosa e verso pelos jornalistas de (ciber)mercado. Seria mais fácil imaginar homens novos (porque são quase sempre homens), divertidos, flexíveis, amistosos, prazerosos, "libertários", tais como artistas boêmios que, reunidos numa garagem ou num apartamento conjugado sala-e-quarto, rabiscam no verso de um velho envelope a idéia de gênio que os irá projetar da pobreza para as primeiras filas dos ciber-megamilionários. Tudo isso, é claro, graças ao mercado financeiro, igualmente lúdico, bonachão, prazeroso, desregulamentado, demolidor de classes e de privilégios. Senão, vejamos. Há algumas semanas, a revista Management Today pesquisou as origens dos empresários das vinte e cinco principais start-ups britânicas. Teriam eles passado de maltrapilhos a homens ricos? Parece que não: "Sua única característica mais ou menos comum é o fato de seus pais pertencerem a uma classe média alta, residente no bairro de Notting Hill, em Londres [1]." O qual não é propriamente uma favela.

Quem ainda acredita na capacidade da "nova economia" em revolucionar um novo tipo de relações sociais e internacionais deve ler o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, publicado em julho de 1999. O planeta Internet liga um mundo de ilhotas à Notting Hill do mundo ocidental. Com apenas 19% da população mundial, os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) contam com 91% dos usuários da Internet, enquanto é baixa a proporção dos que têm voz entre os condenados da Terra: os internautas representam entre 0,04% e 0,2% dos habitantes do Sul da Ásia, da África subsaariana e dos países árabes [2].

Já os empregados do cibernegócio vão tornar-se cibercondenados. Embora essa expressão seja inédita, a realidade não é. É possível encontrá-la na própria empresa-símbolo da "nova economia", Amazon, que, fundada em 1995, já tem um valor superior ao de todas as cadeias de livrarias norte-americanas reunidas. Jeff Bezos, dono e fundador da empresa, possui uma fortuna de mais de quatro bilhões de dólares. O trabalho dos empregados da Amazon é menos lucrativo. E infinitamente menos criativo.

Os "peões eletrônicos"

Quase sempre jovens, solteiros e com alguma instrução, centenas deles trabalham nos edifícios de Seattle, em gigantescos espaços divididos em "aquários" minúsculos, alguns individuais, outros compartilhados. Capacete com telefone fixo no crânio e olhos grudados na tela, eles atendem, a cada ano, milhões de mensagens eletrônicas com pedidos de livros.

Alguns dos funcionários "amazonianos" de maior responsabilidade chamam "peões eletrônicos" a esses trabalhadores. Isso porque, quando têm um cliente na linha, não lhes cabe fazer uso de seus eventuais conhecimentos literários. Nos tempos de hoje, o que conta é o rendimento: doze mensagens eletrônicas por hora e demissão para quem tiver produtividade inferior a sete mensagens e meia [3]. Em se tratando de telefone, uma conversa de mais de quatro minutos que não seja numa voz "suficientemente audível para o cliente e não demasiado ruidosa para os colegas de trabalho" custa uma advertência ao culpado. Vice-presidente do serviço de atendimento aos clientes, Bill Price afirma, entretanto, que seus empregados "podem dedicar o tempo que for necessário para que o cliente saia satisfeito". Mais da metade dos ditos empregados, porém, parecem ser terrivelmente impacientes: saem da empresa em menos de um ano...

"É como na China de Mao", explica um dos trabalhadores de linha de montagem da "nova economia". "Não páram de nos pedir para ajudar o coletivo. Senão, você vai prejudicar a família". A intenção é extremamente maldosa, já que se trata de uma empresa que se preocupa em organizar freqüentes eventos para os seus empregados — ou fiéis. Em setembro de 1999, por exemplo, foi o caso de um "teclado de loucuras à meia-noite", curiosamente anunciado por uma mensagem eletrônica intitulada "Você dormirá quando estiver morto". O jogo, irresistível, consistia em ir trabalhar de noite e tentar responder a um máximo de pedidos pacientemente. O vencedor descolou um prêmio de... 100 dólares. É lógico que o jogo tinha caráter obrigatório: a ciber-economia, acima de tudo, é lúdica.

Mas há sempre aqueles que reclamam. E são eles que estão pretendendo recorrer a uma arma completamente arcaica: o sindicato. A diretoria não acha a proposta sedutora: "Corre-se o risco de tornar o ritmo mais lento. Ocorre que estamos num lugar onde as coisas acontecem com muita rapidez e onde trabalham pessoas ambiciosas e muito motivadas." Ex-funcionário, Richard Howard escreveu um artigo intitulado "Como escapei do culto à Amazon" para o Seattle Weekly. Ele põe em dúvida o caráter inédito das relações sociais na "nova economia": "Não param de falar do papel revolucionário desempenhado pela Internet na condução dos negócios. Porém, o que nós fazemos é basicamente um trabalho repetitivo com alguém permanentemente às nossas costas. O que é que há de revolucionário nisso? A única diferença é que um número considerável dos nossos supervisores usa brinco na orelha e se veste com roupas de couro [4]."

Traduzido por Jô Amado

[1] Cf. John Davidson, "Internet ’whizzkids’ backed by rich parents", The Independent, 8 de janeiro de 2000.

[2] Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Rapport mondial sur le développement humain 1999, Tableau 2.4 ("Internet, une toute petite planète").

[3] Cf. no que se refere a estas informações sobre a Amazon, Mark Leibovich, "Service Without a Smile", The Washington Post National Weekly Edition, 13 de dezembro de 1999.

[4] The Washington Post National Weekly Edition, op. cit.