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abril 2000



DO SÉCULO 16 À ÉPOCA CONTEMPORÂNEA

Entusiasmo pela utopia

Uma exposição organizada pela Biblioteca Nacional da França, apresenta, de forma ousada, todas as formas daquilo que foi chamado de utopia. A riqueza dos documentos impressiona


Lionel Richard

O que é utopia? O termo, que significa "em lugar nenhum", foi inventado em 1516 por Thomas More. Em 1532, esse jurista, magistrado e chanceler da Inglaterra, foi condenado à morte por seu rei Henrique VIII porque se recusava a renunciar à sua fé, o catolicismo. Em uma obra publicada em latim em Louvain, Utopia, ele descreve a ilha do Lugar Algum, uma ilha com 54 cidades, numa referência à Inglaterra, que na época era dividida em 54 condados. Humanista, amigo de Erasmo, partidário da tolerância religiosa, Thomas More leva seus contemporâneos à reflexão quando imagina a vida sob outro sistema político. Ele lhes propõe imaginar "uma forma melhor de governo".

Um contraponto às sociedades reais

Antes mesmo do fim do século XVI, o livro de Thomas More inaugura, graças a sua repercussão na Europa, um gênero literário: o romance utópico. Seu esquema é simples. Ponto de partida, um espaço geográfico. Nesse espaço, geralmente isolado de tudo, vivem seus habitantes, com um modo particular de organização. A descrição de suas instituições constrói implicitamente uma crítica às sociedades conhecidas. A sociedade descrita por Thomas More surge assim como um contraponto à sociedade inglesa da época. Enquanto numa os ricos esmagam os pobres, na outra reina a igualdade entre os cidadãos e uma justa divisão da riqueza.

No século XVIII, com Jean-Jacques Rousseau e seu mito do "bom selvagem", a literatura utópica foi retomada, o que teve continuidade no entusiasmo romântico das revoluções de 1848 e, pouco a pouco, no desenvolvimento das idéias socialistas, com a luta do proletariado por sua emancipação. Entre as obras particularmente representativas encontra-se Nouvelles de nulle part. Seu autor é o britânico William Morris, pai do movimento de renovação das artes aplicadas na Europa a partir de 1890.

Quanto à palavra utopia, seu uso revelou-se de uma vitalidade incomparável desde o Renascimento. A ela somaram-se várias derivações de toda natureza. O primeiro mérito da exposição organizada pela Biblioteca Nacional da França é de apresentar de modo ousado, com a preocupação de abarcar cinco séculos, todas as formas daquilo que foi chamado, com ou sem razão, de utopia. O panorama, pelos documentos apresentados, é de uma riqueza excepcional.

Das origens à salvação da humanidade pela Ciência

O suporte da utopia, abstração nascida do imaginário, foi inicialmente escrito. Mas os textos deram lugar quase imediatamente a abundantes ilustrações. As sociedades imaginadas tomaram cor e forma. De Platão a Saint Simon, Fourier ou Cabet, o objetivo é sempre a procura de uma outra Cidade para o Homem. Essa busca por uma sociedade ideal, por um mundo melhor, pura construção do espírito, só pode atrair os pintores, escultores e arquitetos.

A exposição em questão mostra-o perfeitamente. Ela parte das origens da utopia, da herança da cultura antiga, para desembocar na tradição judaico-cristã, com a iconografia do Paraíso. Segunda etapa, a descoberta do Novo Mundo e todo o imaginário derivado dela. Em seguida, a utopia na história, do século XVII à primeira guerra mundial. Depois vêm as revoluções americana e francesa, os socialismos românticos, o tema da República Universal preconizada pela geração de 48 e a Comuna de Paris. Finalmente a utopia da salvação da humanidade pela Ciência, e o esboço da ficção científica como gênero literário. A parte mais bonita, no entanto, talvez seja a do século XX com suas vanguardas: maquetes de Lissitzky para um projeto de encenação de uma ópera de Malevitch em 1923, Victoire sur le Soleil; apresentação de um robô usado no filme Metropolis, de Fritz Lang; modelo reduzido do famoso monumento nunca construído de Vladimir Tatlin para a sede da Terceira Internacional. A orientação é clara e pedagogicamente eficaz.

Uma utopia chamada "anarco-capitalismo"

O risco, porém, era grande. A noção de utopia tornou-se de fato um quarto de despejo quando nos perguntamos se, afinal, ela não está presente em tudo na vida. Cristianismo, capitalismo, comunismo, feminismo. Hoje podemos falar também em ecologia e reivindicações homossexuais. Comunidades de todo tipo surgiram nas Américas desde o século XVIII e principalmente a partir de 1848: místicos, teosóficos, comunistas, anarquistas. O catálogo nos mostra que existe até nos Estados Unidos uma utopia reivindicada pelos partidários de um pretenso "anarco-capitalismo". Seriam eles que teriam lançado a carreira política de Ronald Reagan, grande utopista, como se sabe.

A entrada da era eletrônica não teria trazido uma força nova à utopia? Grupos de cibernautas, como sempre nos Estados Unidos, militam por uma comunidade universal democrática, para além das barreiras de idade, sexo, raça, condição social, distâncias geográficas. Uma utopia a mais, certamente, fadada a perder-se em meio a uma padronização em massa.

A exposição obriga a pensar

Os textos do catálogo são, em geral, admiravelmente documentados. Alguns, no entanto, cultivam a confusão. Evidentemente, o tema se presta a isso. Quando, por exemplo, sob pretexto de provar a união natural entre utopia e "totalitarismo", Robespierre, Stalin, Mao e Hitler são arbitrária e abusivamente reunidos sob denominadores comuns em certas citações, a mistura é tendenciosa. O mais choquante é ver atribuída a Robespierre a paternidade de um conceito como o de "Estado total", invenção de Mussolini, ou ver creditada a Hitler a busca por uma "humanidade virtuosa e regenerada", aproximando-o dos revolucionários de 1789. Essas páginas, bastante incômodas, são ilustradas por terríveis imagens inspiradas em Zoran Music, devido à sua prisão no campo de Dachau!

Resumindo, a exposição e seu catálogo levam não apenas aos sonhos: obrigam a pensar. Questionam as classificações e categorias que pode haver na cabeça de cada um. Mas sonho e pensamento, antes de mais nada, podem ser dissociados? O sonho pertence à história da humanidade. Se o milenarismo cristão, que anuncia o evento na terra de uma felicidade de mil anos não possui mais adeptos e, se o Eldorado não seduz mais quase ninguém, Roland Schaer tem razão em afirmar que "somos obrigatoriamente levados à utopia". É ela que permite nos distanciarmos do real. Muitas vezes a utopia não passou de antecipação, um pensamento adiantado no tempo histórico. Precisamos portanto nos resignarmos: ela faz parte do nosso futuro.

Traduzido por Denise Lotito.