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maio 2000



SUBMISSÃO CHIQUE

A estranha ética dos jornalistas

Tendo internalizado a lógica do capitalismo, a maior parte dos profissionais da imprensa adere livremente às suas exigências. Agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem. Sua identidade de inspiração torna desnecessária a conspiração


Alain Accardo

O observador dos meios de comunicações deveria partir da premissa de que os jornalistas, em sua grande maioria, não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro dos acionistas das empresas em que trabalham, em particular, e dos capitalistas, em geral. Se agem como "condicionadores" daqueles a quem se dirigem, é menos pelo desejo expresso de condicioná-los que por serem eles próprios condicionados, num grau insuspeitado pela maioria. Fazendo — ou não fazendo — espontaneamente o que quer, cada qual põe-se espontaneamente de acordo com todos os demais. Pode-se dizer, com o poeta Robert Desnos, que obedecem à lógica do pelicano: "O pelicano bota um ovo bem branquinho/De onde sai, inevitavelmente/Um outro que faz tudo igualzinho".

De modo geral, os financistas e comerciantes que se apropriaram de uma parte substancial da mídia não têm necessidade de ditar aos jornalistas o que eles devem dizer ou mostrar. Não precisam violentar suas consciências, nem transformá-los em propagandistas. O senso de dignidade jornalística jamais o aceitaria. Para garantir uma informação fiel ao melhor dos mundos capitalistas, nada melhor (salvo circunstâncias e casos particulares) que deixar os jornalistas trabalharem livremente ou, para ser mais exato, deixá-los acreditar que seu trabalho não obedece a nenhum outro imperativo, a nenhum outro limite, senão os impostos pelas regras específicas do jogo jornalístico, aceitas por todos. Deve-se confiar na "consciência profissional".

Uma cooptação aberta ou dissimulada

Para tanto, basta entregar as rédeas do poder jornalístico nas redações aos homens e mulheres geralmente qualificados como "excelentes profissionais", o que significa que nunca deixaram de dar provas de sua adesão a uma visão de mundo cujas crenças fundamentais compartilham, explícita ou implicitamente, com seus patrões. Com profissionais ideologicamente confiáveis nos postos de comando, o mecanismo de cooptação, aberta ou dissimulada, garante, aí como em toda parte, um recrutamento destinado a impedir a entrada de raposas no galinheiro ou de hereges na missa. Esse mecanismo começa a funcionar nos cursos de jornalismo e continua permanentemente em ação nas redações dos jornais. Portanto, os meios de comunicação são solidamente dominados por uma rede à qual basta trabalhar "como se sente" para trabalhar "como se deve", isto é, em defesa das normas e valores do modelo dominante — modelo esse onde se produziu o consenso entre uma direita em pane de idéias e uma esquerda em crise de ideais.

Mas se há um ponto sobre o qual se deve insistir é que a eficácia de tal sistema repousa fundamentalmente sobre a sinceridade e espontaneidade dos que nela investem a si próprios, mesmo que este investimento implique numa certa dose de auto-mistificação. A informação jornalística, tal como é praticada, é passível de muitas críticas e recriminações bem fundamentadas, inclusive a de enclausurar os espíritos na problemática dominante e mesmo no pensamento único. Há algo, porém, que não se pode censurar nos jornalistas, salvo, é claro, casos particulares: a boa fé com que realizam seu trabalho. Tendo internalizado perfeitamente a lógica do sistema, aderem livremente às suas exigências. Agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem. Sua identidade de inspiração torna desnecessária a conspiração.

Uma mescla de lucidez e ceticismo

Se tivéssemos que resumir em poucas palavras sua crença fundamental, diríamos que eles acreditam sinceramente, no fim das contas, no saldo positivo de um capitalismo com face humana — e acreditam firmemente que essa crença não tem nada de ideológico, nem de ultrapassado.

É lógico que, como ocorre com todos os atores de todos os campos sociais, sua visão das coisas se caracteriza por uma mescla, em doses variadas — segundo a posição no campo —, de lucidez e ceticismo, de visto e de não-visto, ou de entrevisto.

Conseguem ver claramente, por exemplo, as várias manifestações de desumanidade da ordem capitalista onde quer que esteja instaurada; mas se recusam a ver nelas um traço consubstancial, inerente à própria essência do capitalismo, transformando-a num simples acidente. Falam de "disfunções", de "desvios", de "rebarbas", de "excesso", de "ovelhas negras", condenáveis, é claro, mas que de modo algum comprometem o princípio mesmo do sistema que tendem a defender espontaneamente.

Fazendo o faz-de-conta-que-não-faz

Fazem uma crítica sincera, por exemplo, dos abomináveis "excessos" no que se refere à pesquisa e ao tratamento da informação-mercadoria, motivados pela concorrência, pela obrigação de rentabilidade, pelo ibope, em suma, pela lógica do mercado. Mas o fato de essa mesma lógica provocar um aumento maciço do trabalho precário nas redações — com um contingente cada vez maior de jovens jornalistas sub-remunerados(as) e descartáveis, vergonhosamente explorados(as) por seus patrões — não levou até agora a nenhuma mobilização da categoria comparável àquela que se fez em defesa dos 30% de redução fiscal. Não deixa de ser significativo, também, que durante a greve geral que, em 1999, afetou as redes públicas (grandes consumidoras do trabalho precário), nada tenha sido dito publicamente a esse respeito.

O campo jornalístico, como muitos outros, só pode funcionar graças a algo que, objetivamente, só pode ser chamado de impostura, uma vez que ele só pode fazer o que faz — ou seja, contribuir para a manutenção da ordem simbólica — fazendo de conta que não o faz, como se não tivesse outro princípio além da utilidade pública e do bem comum, da verdade e da justiça. Hipocrisia ou mau-caratismo? Nem uma coisa nem outra. Nenhum sistema pode funcionar maciça e deliberadamente baseado na impostura intencional e permanente. É necessário que as pessoas acreditem no que estão fazendo e que adiram pessoalmente a uma ideologia socialmente aceita que não se pode resumir, no caso, a proclamar cinicamente "viva o reino do dinheiro, abaixo o humanismo arcaico, vamos ficar ricos e os pobres que se danem!", mas consiste em acreditar, com a maior boa-fé, que a felicidade da espécie humana exige obrigatoriamente que continuemos no seio da Igreja Liberal, fora da qual não existe salvação possível.

Um "materialismo" medonho

Para que a lógica econômica se torne hegemônica deve transformar-se, no coração e na mente das pessoas, em uma ideologia filosófica, ética, política, jurídica, estética etc., relativamente autônoma, sem o que elas sentiriam o peso da economia em suas vidas como uma pressão exterior insuportável, desprovida de toda legitimidade, um "materialismo" medonho. Na verdade, é próprio de qualquer sistema não permanecer fora dos agentes mas penetrar neles para moldá-los a partir de dentro, sob a forma de um conjunto estruturado de inclinações pessoais. E, por último, sua vitalidade repousa muito mais sobre a predisposição de seus membros quanto aos costumes, à sua relação com o saber, o poder, o trabalho, o tempo, e sobre suas simpatias e antipatias, relativas a práticas culturais, domésticas, educativas, esportivas etc., do que sobre suas opções e opiniões expressamente políticas. Espíritos bem condicionados são, antes de tudo e principalmente, variantes integradas ao "espírito do tempo". E este pretende estar acima de divisões políticas e consultas eleitorais.

Dessa forma, muito felizmente para os donos do Dinheiro, eles podem povoar os meios de comunicação que compraram com pessoas inteligentes, competentes e sinceras, pessoalmente condicionadas a travestir a lei da selva do capitalismo em condições permissivas e postulados indiscutíveis daquilo que chamam de "modernidade" ou "democracia de mercado".

O papel da nova pequena-burguesia

As conclusões válidas para os meios de comunicação valem também para segmentos inteiros da estrutura social. O microcosmo jornalístico é, nesse sentido, um espaço privilegiado para a observação in vivo do que ocorre nos campos da produção e da difusão de bens simbólicos, cuja população profissional pertence, na sua quase totalidade, às classes médias (atividades intelectuais relacionadas ao ensino, à informação, ao serviço social, à consultoria e ao recrutamento, à apresentação e à representação,etc). Foi sobretudo essa nova pequena burguesia que, entregando-se de corpo e alma a esse sistema, injetou nele a dose de humanidade, inteligência, imaginação, tolerância, psicologia, em suma, o suplemento moral necessário para que ele pudesse passar da exploração selvagem do trabalho assalariado — que ainda grassava antes da segunda guerra mundial — a formas aparentemente mais civilizadas compatíveis com o aumento das aspirações democráticas.

Poderíamos então dizer que a modernização do capitalismo consistiu em desenvolver métodos de "gestão dos recursos humanos" e de comunicação visando a apresentar os abusos patronais por meio de eufemismos e a envolver psicologicamente os assalariados na sua própria exploração. Tal colaboração acarreta, sem dúvida, diversos ganhos materiais e morais, sendo o primeiro deles a garantia da subsistência dos interessados e o segundo o sentimento de uma certa importância e utilidade para seus semelhantes. O que não é pouco. Mas acontece que, por uma dessas artimanhas objetivas de que a história está cheia, seu trabalho acaba sendo muito mais útil ao sistema e aos feudos que o dominam e que, pensando servir a Deus, servem também, e às vezes principalmente, ao diabo. Mas fazem isso sub specie boni, com a consciência tranqüila, porque quase tudo que possa pesar na consciência é automaticamente auto-censurado ou transfigurado. Eles têm em si, como diria Pascal, "uma vontade de crer que supera suas razões para duvidar".

Uma auto-encenação constante

É possível que, pelo fato de os jornalistas dominarem profissionalmente as tecnologias do fazer-ver e do fazer-saber, a vivência no seu meio lhes permita ver que a impostura objetiva das classes médias — que consiste em nunca ser nem nunca fazer por completo o que elas mesmas pensam que são e fazem — se traduz numa constante auto-encenação, destinada a oferecer a si mesma embora oferecendo-a aos outros, a representação mais valiosa da sua importância.

Se é verdade que nenhum jogo social pode desenvolver-se sem que os atores aceitem, bem ou mal, "contar histórias", iludir a si mesmos e aos outros, temos de admitir que as classes médias têm uma tendência especial a "fazer cena" ou a "fazer fita". Essa propensão à dramatização de sua existência, antes de tudo narcisista, está ligada à sua inserção num espaço social intermediário, entre os dois pólos, o dominante e o dominado, do poder social.

Todos os traços característicos da pequena burguesia resultam fundamentalmente dessa posição instável entre o muito pouco e o demasiado, entre o ser e o não-ser, num mundo em que o valor socialmente reconhecido tornou-se diretamente proporcional ao grau de acumulação do capital, em geral, e do econômico em particular. "Os mais desfavorecidos", como se diz pudicamente, têm muito pouco para se preocupar em valorizar o que têm e o que são. Os mais privilegiados têm demasiado para precisar afirmar-se, oferecendo-se como espetáculo.

A síndrome de Emma Bovary e Julien Sorel

Mas o resultado dessa busca interminável de afirmação poucas vezes é totalmente satisfatório. Os pequenos burgueses, por sua posição intermédia, são em geral mais sensíveis à distância das posições superiores que às vantagens intrínsecas da posição ocupada. Como já notava Stendhal, "a grande aspiração é ascender à classe superior à sua, que faz de tudo para impedir essa ascensão".

Encontra-se aí uma fonte de frustração e ressentimento, uma espécie de foco patológico do reconhecimento social, que está na origem de vários casos de sofrimento existencial que poderiam ser reunidos sob o nome de síndrome de Emma Bovary e de Julien Sorel. Sofrimento tanto mais difícil de aplacar por ser estruturalmente programado, e portanto refratário a qualquer terapia. Uma pesquisa sobre o jornalismo de base fornece eloqüentes exemplos da sua relação ambígua com a posição que ocupam, ao mesmo tempo deslumbrada e exasperada, amorosa e despeitada, arrogante e dolorosa, dos dominantes-dominados, do entremeio social.

O sonho das ascensão social

Temos o direito de pensar que o único remédio possível consistiria em romper com a lógica do sistema. Uma tarefa difícil porque impossível de se realizar sem questionar tudo o que cada indivíduo internalizou de mais profundo, todos os elos mais entranhados, todas as adesões carnais pelas quais as pessoas interagem com um sistema que os engendrou e condicionou a fazer, de livre e espontânea vontade — e às vezes alegremente —, o que espera que façam. Por exemplo, enfrentarem-se impiedosamente, numa competição implacável, por objetivos ilusórios e risíveis, cuja perseguição e conquista, no final das contas, não prova nada, salvo que se está muitíssimo bem condicionado.

Até agora os membros das classes médias, por estarem condicionados — inclusive pela sua socialização —, trataram de cultivar com perseverança, em sua grande maioria, seu sonho de ascensão social e suas esperanças de vitória pessoal num universo cujas carências, contradições e iniqüidades são denunciadas por muitos deles. Mas essas opiniões críticas, por se restringirem ao registro político (muitas vezes politiqueiro), e o voto "à esquerda" a que costumam estar associadas, longe de por em risco a lógica dominante, têm o efeito de otimizar o funcionamento de um sistema que, além de reproduzir-se no essencial, também pode vangloriar-se de manter, nos meios de comunicação interpostos, um verborrágico debate público que quase nunca toca o essencial.

Traduzido por Rúbia Prates.