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maio 2001



LIVROS

Camponeses do Brasil e o FMI

Chega-se a suspeitar que Maurice Lemoine inventa vocábulos para melhor descrever os camponeses pobres, as mulheres médiuns, os grandes proprietários de terra e seus capangas, os pistoleiros, que povoam o seu romance


Ramón Chao

O texto evolui em frases tranqüilas, com longas pausas, e um discurso cheio de imagens e invenções verbais: é o linguajar do povo pobre da Amazônia

O título — La dette (A dívida) — sugere um ensaio de economia, mas o autor o escreve como um romance. Também poderia ter igualmente usado a forma de uma notícia trágica na editoria de polícia, já que a realidade e a ficção se emaranham ao longo do texto. Do realismo mais direto, Maurice Lemoine passa às mais sutis transformações fantasmagóricas.

A qualidade do texto ajuda, sem dúvida a separar dois níveis. Num deles, o ritmo é lento, como nas grandes narrativas. Começando pelo modo de falar das pessoas. Uma linguagem que evolui em frases tranqüilas, com longas pausas, e um discurso cheio de imagens e de invenções verbais inesperadas. É desse linguajar do povo pobre da Amazônia que Maurice Lemoine se apoderou, como de uma matéria bruta, uma espécie de argila petrificada, para criar uma obra literária. Ao regionalismo da Amazônia ele acrescenta termos em português, em espanhol e em outras línguas. E, como se isso não bastasse, chega-se a ter a suspeita de que ele inventa vocábulos, quebrando deliberadamente o fluir de uma frase para melhor descrever os camponeses pobres, as mulheres médiuns, os grandes proprietários de terra e seus capangas, os pistoleiros, que povoam o seu romance.

Resistindo à expropriação

A outra faceta do romance é o fundo épico que percorre o seu discurso através da visão que proporciona a literatura de cordel

À medida que vai formigando uma multidão de personagens, variadas tonalidades vão interferindo, diversos gêneros narrativos que se diria serem incompatíveis de poderem coexistir. E encontramos a outra faceta de seu texto: o fundo épico percorre o seu discurso através da visão que proporciona a literatura de cordel, os pequenos folhetos mimeografados, amarrados por um barbante, que se vendiam nas feiras livres do interior do país. Resumindo: Maurice Lemoine revela-se um autêntico contador de histórias.

Estamos no coração da Amazônia, no Norte do Brasil. Um narrador (Rapaz) lembra acontecimentos que ali ocorreram, tornando-se a voz coletiva da aldeia. Os moradores de Riacho dos Mendigos tentam resistir a uma expropriação — ilegal, como não param de repetir: pois a lei garante que, mesmo sem um título de propriedade, uma vez que um pedaço de terra tenha sido ocupado e cultivado durante um ano e um dia, os camponeses se tornam posseiros. E eles já ali se encontravam há mais de cinco anos — haviam chegado montando mulas, através da floresta aberta por uma estrada de mais de dois mil quilômetros que atravessa o inferno verde.

Uma narrativa social e política

Com o apoio de jagunços e da polícia militar, os grandes proprietários decidem expulsar as famílias camponesas, queimando suas casas e suas plantações

Com o apoio de jagunços e da polícia militar, os grandes proprietários decidem expulsar pela violência essas famílias camponesas, queimando suas casas e suas plantações, envenenando suas colheitas de cereais e mandando-as para a cadeia, ou assassinando-as. E por trás disso... Quem seria esse misterioso senhor F. Emmy que, num dia nefasto, emprestou sem hesitação ao "coronel" cem mil dólares para desenvolver a aldeia?

O que interessa Maurice Lemoine não é apenas a narrativa propriamente dita — por mais trágica que ela seja —, mas o contexto social e político no qual ela se insere. Dois textos breves, no final do livro, traçam o quadro em que se encontra o campesinato brasileiro e a dívida dos países da América Latina. Além deles, uma bibliografia dos livros que abordam essas questões.

La dette (roman de la paysannerie brésilienne), de Maurice Lemoine, ed. L’Atalante, coleção "Comme un accordéon", Nantes, 2001.
(Trad. Jô Amado)