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setembro 2000



GUERRA DA ARGÉLIA

O direito à insubmissão

Eis o texto do Manifesto dos 121 intelectuais franceses contra a Guerra da Argélia


"Um movimento muito importante cresce, na França, e é necessário que a opinião pública francesa e internacional sejam melhor informadas neste momento em que a nova reviravolta na guerra da Argélia nos deve levar a ver, e não a esquecer, a profundidade da crise iniciada há seis anos.

"Em cada vez maior número, franceses são perseguidos, presos e condenados por se recusarem a participar desta guerra ou por terem ajudado os combatentes argelinos. Desprezados por seus adversários, mas também adulados por aqueles que teriam o dever de os defender, seus motivos são incompreendidos, de maneira geral. E no entanto, é pouco dizer que sua resistência aos poderes públicos é respeitável. Protesto de homens atingidos em sua honra e na idéia justa que fazem da verdade, essa resistência tem um significado que ultrapassa as circunstâncias nas quais se afirmou — e que é importante retomar, seja qual for o resultado dos atuais acontecimentos.

"Para os argelinos, a luta que se trava, seja ela por meios militares ou diplomáticos, não implica em qualquer equívoco. É uma guerra de independência nacional. Mas, para os franceses, qual a natureza dessa guerra? Não é uma guerra estrangeira. O território da França jamais esteve ameaçado. E mais: é uma guerra conduzida contra homens que o Estado finge considerar franceses, embora eles lutem precisamente para deixar de sê-lo. Não bastaria dizer que se trata de uma guerra de conquista, guerra imperialista, acompanhada, além disso, de racismo. Isso existe em qualquer guerra — e o equívoco persiste.

"Na verdade, baseando-se numa decisão que constitui um abuso fundamental, o Estado começou por mobilizar enormes contingentes de cidadãos com o objetivo único de conseguir aquilo que ele próprio denominou uma tarefa de polícia contra uma população oprimida, a qual somente se revoltou por uma preocupação básica com a dignidade, já que ela exige o direito de ser reconhecida como comunidade independente.

"Nem guerra de conquista, nem guerra de "defesa nacional", nem guerra civil, a guerra da Argélia tornou-se, pouco a pouco, uma ação particular do exército e de uma casta que se recusam a ceder diante de uma sublevação da qual até o poder civil — diante do colapso geral dos impérios coloniais — parece capaz de reconhecer as razões.

"Pode-se dizer que hoje é principalmente a vontade do exército que mantém este combate criminoso e absurdo, exército que, devido ao papel que vários de seus principais dirigentes o fazem desempenhar — agindo aberta e violentamente à margem de qualquer legalidade, traindo os objetivos que o conjunto do país lhe confia —, compromete e corre o risco de perverter a própria nação, forçando os cidadãos sob suas ordens a serem cúmplices de uma ação sediciosa e degradante. Será preciso lembrar que, quinze anos após a destruição do governo de Hitler, e em função de exigências da guerra então travada, o militarismo francês conseguiu a inovação de restabelecer a tortura, introduzindo-a institucionalmente na Europa?

"É nessas condições que muitos franceses resolveram questionar o sentido de valores e obrigações tradicionais. O que é o civismo, quando, em determinadas circunstâncias, se transforma em submissão vergonhosa? Não existem casos em que a recusa é um dever sagrado, em que a "traição" significa o respeito corajoso pela verdade? E quando, devido à vontade daqueles que o utilizam como instrumento de dominação racista ou ideológica, o exército se proclama em estado de revolta aberta ou latente contra as instituições democráticas, a revolta contra esse exército não adquire um novo significado?

"A questão de consciência colocou-se desde o início da guerra. Com a sua evolução, é normal que se tornasse concreta através de atos, cada vez mais numerosos, de insubmissão, de deserção, assim como de proteção e ajuda aos combatentes argelinos. Movimentos livres que ocorreram à margem de partidos, sem sua ajuda e, em última instância, apesar de sua oposição. Uma vez mais, à margem de organizações e de palavras de ordem pré-estabelecidas, nasceu uma resistência, através de uma tomada de consciência espontânea, procurando e inventando formas de ação e meios de lutar numa situação nova, cujo sentido e verdadeiras exigências as organizações políticas e a grande imprensa preferiram — seja por inércia ou timidez doutrinária, seja por preconceitos nacionalistas ou morais — não reconhecer. "Nós, abaixo-assinados, considerando que cada cidadão deve se pronunciar a respeito de atos que já não podem continuar sendo considerados meras notícias de aventuras individuais; considerando, em nosso lugar e de acordo com os nossos meios, que temos o dever de intervir — não para dar conselhos sobre uma decisão que deve ser tomada pessoalmente, face a problemas tão graves, mas para pedir àqueles que nos julgam que não se deixem enganar pelo equívoco de palavras e valores,

"Declaramos que:

Arthur ADAMOV — Robert ANTELME — Georges AUCLAIR — Jean BABY — Hélène BALFET — Marc BARBUT — Robert BARRAT — Simone de BEAUVOIR — Jean Louis BEDOUIN — Marc BEIGBEDER — Robert BENAYOUN — Maurice BLANCHOT — Roger BLIN — Arsène BONNAFOUS-MURAT — Geneviève BONNEFOI — Raymond BORDE — Jean-Louis BORY — Jacques-Laurent BOST — Pierre BOULEZ — Vincent BOUNOURE — André BRETON — Guy CABANEL — Georges CONDA- MINAS — Alain CUNY — Dr. Jean DALSACE — Jean CZARNECEI — Adrien DAX — Hubert DAMISCE — Bernard DORT — Jean DOUASSOT — Simone DREYFUS — Marguerite DURAS — Yves ELLEOUËT- Dominique ELUARD — Charles ESTIENNE — Louis-René des FORETS — Dr Théodore FRAENKEL — André FRENAUD — Jacques GERNET — Edouard GLISSANT — Anne GUERIN — Daniel GUERIN — Jacques HOWLETT — Edouard JAGUER — Pierre JAOUEN — Gérard JARLOT — Robert JAULIN — Alain JOUBERT — Henri KREA — Robert LAGARDE — Monique LANGE — Claude LANZMANN — Robert LAPOUJADE — Henri LEFEBVRE — Gérard LEGRAND — Michel LEIRIS — Paul LEVY — Jérôme LINDON — Eric LOSFELD — Robert LOUZON — Olivier de MAGNY — Florence MALRAUX — André MANDOUZE — Maud MANNONI — Jean MARTIN — Renée MARCEL-MARTINET — Jean-DanieI MARTINET — Andrée MARTY-CAPGRAS — Dionys MASCOLO — François MASPERO — André MASSON — Pierre de MASSOT — Jean-Jacques MAYOUX — Jehan MAYOUX — Théodore MONOD — Marie MOSCOVICI — Georges MOUNIN — Maurice NADEAU — Georges NAVEL — Claude OLLIER — Hélène PARMELIN — Marcel PEJU — José PIERRE — André PIEYRE de MANDIARGUES — Edouard PIGNON — Bernard PINGAUD — Maurice PONS — J.-B. PONTALIS — Jean POUILLON — Denise RENE — Alain RESNAIS — Jean-François REVEL — Alain ROBBE-GRILLET — Christiane ROCHEFORT — Jacques-Francis ROLLAND — Altred ROSMER — Gilbert ROUGET — Claude ROY — Marc SAINTSAENS — Nathalie SARRAUTE — Jean-Paul SARTRE — Renée SAUREL — Claude SAUTET — Jean SCHUSTER — Robert SCIPION — Lonis SEGUIN — Geneviève SERREAU — Simone SIGNORET — Jean-Claude SILBERMANN — Claude SIMON — SINE — René de SOLIER — D. de la SOUCHERE — Jean THIERCELIN — Dr René TZANCK — VERCORS — J.-P. VERNANT — Pierre VIDAL-NAQUET — J.-P. VIELFAURE — Claude VISEUX — YLIPE — René ZAZZO.

Traduzido por Jô Amado.