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setembro 2007



CINEMA

"As crianças me ensinaram"

Abbas Kiarostami propõe: "Se elas não podem nos compreender, é porque temos um ponto fraco: não conseguimos produzir um pensamento simples. E quando o cinema assume um tom sentencioso, amargo, é porque não consegue se exprimir"


Abbas Kiarostami

“Um menino me mandou uma carta na qual perguntava sobre a árvore que está no seu quintal. Essa árvore dá muitas gudjés (uma espécie de ameixa). Ele saboreia as frutas com muito prazer e se pergunta se a própria árvore aprecia suas gudjés. O reflexo imediato seria lhe responder que não, a árvore não come suas frutas, mas a questão vai mais longe. A criança tem uma percepção filosófica dessa árvore, que merece uma explicação simples, exata, profunda, à altura de sua questão. Se tenho um pouco de lucidez, eu as devo aos vinte anos ao longo dos quais trabalhei com crianças. Eles me ensinaram coisas ao mesmo tempo complexas e extremamente simples. Simplicidade que nada tem a ver com mediocridade.

"Quando o cinema assume um tom um pouco sentencioso, um pouco amargo, é porque não consegue se exprimir com simplicidade. Ora, é somente quando nos exprimimos simplesmente que nos exprimimos efetivamente. Se uma criança não pode nos compreender, é porque temos um ponto fraco, somos nós que não conseguimos produzir um pensamento simples. Imaginar um cinema sempre possível de ser mostrado para as crianças seria uma ótima forma de verificar se conseguimos verdadeiramente fazer passar suas idéias. Ouvi dizer que Einstein, a respeito de suas fórmulas matemáticas, considerava que elas deveriam ser compreendidas pelo primeiro que passasse.

"Quando estava na Escola de Belas-Artes para estudar pintura, a cada ano saíam cerca de quarenta estudantes. Poucos entre eles tornaram-se pintores. Outros saíam com muitas informações, que ampliavam sua competência técnica, mas não os tornavam, por isso, artistas — apesar de eles terem tido a ocasião de exercer seu talento. Digo sempre às pessoas que participam das oficinas que ministro que elas não estão lá para aprender, mas para se exprimir. A única coisa que se pode fazer é dar a elas elementos para que possam ampliar seu campo de experimentação. Cada um segue sua trajetória para chegar a uma arte particular, a um modo de expressão.

"Hoje é possível fazer cinema cotidianamente com uma câmera digital, como um escultor ou um pintor. A tecnologia é tão forte, que avança não importa o que acontecer. Ela nos ultrapassa. Melhor instaurar uma relação com ela e multiplicar as práticas artísticas que se tornaram possíveis por esse sistema de produção simplificado. É uma liberdade considerável e uma forma de resistir, fazendo poesia, criando. Assim, pude realizar a correspondência filmada com Víctor Erice ou as instalações de vídeo. Ainda que, para mim, se trate sempre de fazer filmes.

"O que no campo da arte contemporânea se chama “instalação” existia antes mesmo de o cinema se formar. Saímos de casa e “vivemos” as instalações. Na rua, quando atravessamos, há linhas fixas, uma árvore, carros que passam, um congestionamento, o céu que vai mudando. No entanto, meus piores filmes foram mais vistos que minhas melhores instalações. A sala escura cria uma relação íntima com o filme, uma concentração sem interferências exteriores, para acompanhar a narrativa. Qualquer que seja o gesto artístico, não se pode considerá-lo como arte se ele não estiver nos contando uma história. E é no momento em que os espectadores tomam parte dela que ela começa a existir realmente. Uma obra de arte é moderna a partir do momento em que aceita várias interpretações. É isso que constitui a diferença entre classicismo e modernidade” (depoimento a Marianne Khalili-Roméo).

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Kiarostami e Erice
A exposição itinerante ”Correspondências” propõe um diálogo entre as obras cinematográficas de Víctor Erice e Abbas Kiarostami. Por meio da troca de "cartas filmadas", cada qual lança seu olhar sobre a obra do outro