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outubro 2000



FOTOGRAFIA

Roger Pic, memória do século

Sai na França álbum de um fotógrafo que soube retratar tanto o universo do teatro e da cultura francesa quanto as grandes batalhas pela transformação social deste século, e seus personagens


Philippe Lafosse

Aos 80 anos, Roger Pic conseguiu tornar interessante o programa de televisão "Cinq colonnes à la une". Ele é o que se chama um "grande" da fotografia. Entretanto — à exceção de sua dedicação aos Albergues da Juventude, dos quais ele foi animador cultural a partir de 1936 — foi sob o signo do teatro que ele se tornou conhecido. Na tranqüilidade do pré-guerra, no bairro de Montparnasse, ele compartilhava noites, madrugadas e vinho com toda uma geração de simpáticos loucos: Jacques Dufilho, Jean-Marie Serrault, Maurice Baquet. Viu-se no comando de uma pequena tropa. Bastante mais amadora, por sinal, que aquela que surge em 1939. Com um acrobático jogo de esconde-esconde, para escapar do serviço de trabalho obrigatório, o homem tornou-se contra-regra à medida que o tempo ia passando, sem grandes novidades, até junho de 1944.

No coração de Saint-Germain-des-Prés, uma turma de musas e poetas de tons pálidos vivia de música e água fresca: Gréco, Barbara, Piccoli, Ferré. Em sua companhia, Roger Pic freqüentava clubes. O teatro não o alimentou. A não ser tornando-se seu fotógrafo oficial. Seria superior a isso. Discreto e silencioso, ele revolucionou o gênero — estático, rebuscado, excitado —, tornando-o vivo na sua iluminação do cenário, multiplicando as tomadas. Abre as portas para uma fotografia de reportagem, aquela que, segundo Roland Barthes, ajuda a "descobrir a intenção profunda da criação".

A simplicidade de ser célebre

De 1950 até 1975, "testemunho único de tudo que marcou o teatro na França", Roger Pic arquiva uma memória das encenações, dos atores e dos autores. Ela constitui a primeira parte desta obra que lhe é dedicada.

Como ela era linda, Barbara! E o Montand, da época do grande Yves… Beckett, transfigurado, esperando Godot. A Mãe Coragem de Bertolt Brecht. Maria Callas, mais Norma que Norma, graças a um fundo que adivinha sombras indistintas. Estátua entre máscaras: Jean-Louis Barrault. Maurice Béjart, austero ou frágil. Maria Casares, rainha verde de perfil incandescente. Sartre e Malraux, de grande estilo, Jacques Prévert, mais poema que natureza. Delon — como o tempo passa —, belo como um deus...

Em busca da revolução

Mas, ao atravessar o século, Roger Pic também cruza os mares e se entusiasma com o sonho cubano. Eis Fidel numa varanda, prestes a fazer seus exercícios, carregando a Kalachnikov — mais Castro que Castro — na Sierra Maestra, uma máscara sobre o nariz, um tubo de mergulho como se fosse um charuto, pescando barracudas… Eis o Che, de olhos apertados, talvez menos heróico que o de Korda, mas também mais autêntico, mais humanamente angustiado… A miliciana da Praça da Revolução. Ah!, a miliciana na Praça da Revolução...

Roger Pic na China, na Cidade Proibida. Ou em Moscou, observando um Khruchev antológico, sob um quadro de Lênin, com o Sputnik a mão… Veio a década de 60 e o túnel indochinês. Roger Pic sente em sua consciência, na sua carne, em seus sentimentos. Ele evita Saigon, a matilha dos correspondentes de guerra, e a "puta da morte", ele vai procurar do lado vietcong. "A cada viagem, eu transportava 30 quilos de material: uma autêntica mudança! No campo, eu levava a filmadora ao ombro, o gravador na barriga, uma varetinha na cintura, com o microfone, a mochila às costas, com os filmes, as baterias de emergência, a máquina fotográfica e os rolos… Com esses arreios todos, nem podia me sentar".

Testemunha de exemplos humanos

Encontra-se com Giap, Pham Van Dong, e o tio Ho Chi Mihn. Chapéu de palha trançada, aldeias em meio aos arrozais, destroços de bombardeiros e ruínas de hospitais, as famosas bicicletas. Nada de artificialmente espetacular. Num tempo em que a reportagem política ainda tinha lugar, filmes e fotografias equivaliam a ensaios. Uma certa forma da verdade que palavra alguma saberia contrariar.

Esse mesmo olhar desliza pelo Camboja e pela Tailândia, pelo Oriente Médio e pelo Zaire, por todos os lugares onde surge ou se exibe a injustiça. De foto em foto, uma crônica cotidiana da vida desta grande testemunha, assim como dos tristes e belos exemplos humanos com quem cruzou. Todo esse mundo continua na memória, viva, sempre viva, mesmo que o livro, a contra gosto, seja fechado.

Seria injusto não prestar uma homenagem ao autor dos comentários. Num texto tão sóbrio quanto o homem cuja história ele descreve, Jean-Claude Gautrand acompanha as fotos até onde, às vezes, o peso do tempo as apaga.

Jean-Claude Gautrand, Roger Pic, une vie d’Histoire , Editora Marval, Paris, 2000, 304 páginas.

Traduzido por Gustavo Adolfo Maia Junior.