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novembro 2007



Como saber-se adaptado

Ainda temos pela frente o Natal, o Ano-bom, o Carnaval; mas meu sonho é com o mês de abril, das cerejeiras em flor, das tulipas maiores do que meu punho, da reabertura dos jardins, que acolherão os piqueniques e os violões.


Diego Viana

É chegado o período das perturbações de saúde. Sim, esse momento existe, bem delimitado, e é agora. Da mesma maneira como chega a hora de renovar o passaporte, em determinada época do ano deve-se, invariavelmente, contrair uma gripe. Final de outubro, começo de novembro, um pouco mais, um pouco menos. Toda uma cidade pigarreando, tossindo, tremendo. Dois parisienses se esbarram na calçada, o assunto é sempre o mesmo: "Veio cedo, o inverno... como somos infelizes!".

No primeiro ano, admito, ousei rir da enfermidade coletiva que acomete e melindra meus vizinhos nas últimas semanas do outono. Eles murcham como as árvores dos bulevares, e parecem gostar. Debaixo de meus cachecóis e luvas, escondido como uma toupeira tropical, eu escarnecia: "Não é à toa. Por que não se cobrem? Pensam que estão acostumados com o frio! Acham que são imunes!". Dito isso, eu fechava o último botão do sobretudo, minha estufa pessoal.

Bastou um ano para sublinhar a tolice do meu sarcasmo de neófito. Hoje, a garganta que arranha é a minha. Um incômodo, claro, mas, onde eu deveria me irritar, sinto até um certo orgulho. Encaro a ponta de febre como uma espécie de atestado de adaptação. Qual os autóctones, os nativos, os locais, aprendi a adoecer no momento certo. Posso, agora, agir como eles. Abrir os braços, fazer cara feia, bufar, erguer as sobrancelhas e balbuciar: C’est comme ça, c’est comme ça. E é assim. Conhecendo os gestos e repetindo a fórmula, a comunicação é infalível.

Não tive como resistir ao ataque dos micróbios. É tão repentina a queda na temperatura, que o instinto é de continuar trajando o mesmo paletó leve, a mesma camisa fina de setembro, quando ainda alguns rostos estão bronzeados em memória das férias. Grande erro, e vem a febre para prová-lo. De hoje em diante, a calefação estará sempre em marcha, as mãos terão lugar cativo nos bolsos. Os dias serão curtos, o sol mal passará do horizonte, a grama dos parques estará proibida. Até abril.

Céus! Já vou cair na mesma armadilha de que não consigo escapar nas postagens do blog. Chego a temer que minha imaginação ameace me escapar. A cada poucos meses, acabo escrevendo sobre esse mesmo assunto. O clima, o tempo, as estações. Mas não reconheço a culpa: prefiro acusar o mundo que me cerca. Até hoje, o inverno e seus irmãos nada mais eram, para mim, do que conceitos, bem abstratos, largamente associados à obrigação de atrasar ou adiantar o relógio em uma hora.

Hoje, não pode haver coisa mais real. Estranhamente, tenho a impressão de que os povos das zonas temperadas vivem em contato mais estreito com a natureza do que nós, selvagens tropicais que andamos de tanga o ano inteiro. Os rituais comandados pelo calendário, nesta Europa glacial, são seguidos à risca. Há o momento de sentar-se à varanda; o período em que se viaja; a época de comer cerejas; de tomar vinho rosé; de praticar tal ou tal esporte. Eu poderia muito bem reescrever as très riches heures du Duc de Berry.

Ai dele, o tolo audacioso que tentar subverter as leis remotas dos elementos! Há de cair doente, o insensato. Pois esse sou eu, que tentei aproveitar a claridade agradável de uma tarde de sábado para comer um qualquer-coisa ao pé de uma amendoeira, supremo absurdo, em pleno outono. Não tive a sagacidade de perceber que era o único, naquele instante, a buscar o contato com a natureza. O prazer de contemplar, por breves instantes, as folhas coloridas espalhadas pela relva quase me custou uma pneumonia.

Vou acompanhando o breu que desce sobre os dias, como uma mão silenciosa a estrangular a Terra. Ainda temos pela frente o Natal, o Ano-bom, o Carnaval; mas meu sonho é com o mês de abril, das cerejeiras em flor, das tulipas maiores do que meu punho, da reabertura dos jardins, que acolherão os piqueniques e os violões. Quando os colos e pernas estarão novamente à mostra, lisos e reluzentes, os cafés reabrirão seus terraços, e Ella Fitzgerald voltará a soar em meus ouvidos, cantando April in Paris como se falasse de mim. Basta esperar seis meses.