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novembro 2007



RESPONSABILIDADE.COM

Valei-me Santa Bárbara!

As chuvas de verão chegaram antes da época, num possível reflexo do aquecimento global. Um efeito pouco conhecido é o aumento do número de raios, que matam cem pessoas por ano no país. Também na coluna: bancos de leite humano, obesidade animal, moda de verão, Oswaldo Cruz e muito mais


Luiz André Ferreira

Apesar de faltar oficialmente cerca de um mês, o verão já chegou aqui do lado de baixo do Equador, onde o pecado só não existe na música composta por Chico Buarque e Rui Guerra. A prova de que pagamos pelos nossos pecados é o clima de purgatório que vivemos em decorrência de maus passos ambientais. Além do calor que hoje impera em praticamente todas as estações e das frentes frias, que dão cada vez mais o ar da graça fora de época, outra forte conseqüência da série “deu a louca no tempo” é a antecipação das “chuvas de verão”. No Rio de Janeiro, depois de uma seca típica nordestina, as chuvas começaram a cair em outubro. Só naquele mês, desceu quase tudo o que estava represado o ano inteiro lá de cima. Novembro está sendo marcado “pelas águas de março” deixando mortos e milhares de desabrigados nos estados do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo.

As conseqüências tem sido cada vez maiores nos grandes centros. Um dos motivos é a urbanização insensata. Mas junto com as chuvas, chega outro problema: o aumento da incidência de raios. Entre 50 milhões e 70 milhões de relâmpagos caem por ano no país. A cada ano, eles causam cerca de cem mortes e provocam prejuízo calculado em torno de R$ 500 milhões. Não é à toa que São Paulo, Estado de maior “desenvolvimento” urbano, tornou-se o centro de maior incidência desses fenômenos naturais. Apesar de ocupar apenas 3,5% do território nacional, responde por um quarto das mortes relacionadas a descargas elétricas naturais. Dados do instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam a paulista São Caetano do Sul como a primeira cidade no ranking brasileiro. Campinas e Indaiatuba, no mesmo Estado, também figuram na lista das mais afetadas.

Jurandir Zullo Júnior, pesquisador da Unicamp e coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica do INPE, explica que vários fatores relacionados à poluição, e mais presentes nos grandes centros urbanos, intensificam a formação de relâmpagos. Um dos principais é a enorme quantidade de partículas de poeira suspensas na atmosfera por causa da poluição. Outro, é a intensificação das chamadas "ilhas de calor”, formadas acima das áreas urbanas. Essas zonas quentes surgem pelo crescimento desordenado, impermeabilização do solo, falta de vegetação, gases expelidos e concentração de concreto.

Estes fatores explicam as mudanças da geografia dos raios e em nossa percepção sobre eles. No passado, acreditávamos que os grandes centros estavam imunes às descargas, graças aos pára-raios. Relacionávamos quedas de raios ao campo ou à praia. Quando viajávamos para essas regiões e caía aquele temporal chamava a atenção o excesso de mitos e rituais adotados pelos moradores das cidades pequenas: desligar toda eletricidade, tapar espelhos, esconder metais, vestir camisa (se estivesse sem ela) e ficar quieto (em sinal de respeito). Além disso, fazer uma prece era de bom tom. E sempre que caía um forte relâmpago com o estrondo, alguém gritava “Valei-me Santa Bárbara”. As conseqüências das chuvas têm sido tão fortes que a pobre santa não conseguiu nem proteger a cidade que leva seu nome. No ano passado, Santa Bárbara do Oeste, em São Paulo, decretou estado de emergência por causa dos efeitos de um temporal.

Hoje, todo morador de grande centro tem à mão o seu kit-temporal: guarda-chuva, capa, sapatos impermeáveis... Em bairros mais vulneráveis, até barcos e jet skis para andar nas ruas, como observamos constantemente em fotos de jornais. Pelo jeito, com o aumento das conseqüências dos temporais nos grandes centros, vamos ter que acrescentar ao nosso kit uma imagem da protetora em temporais.

S A L A D A

LÁPIS DO BEM:
Companheiro de milhares de gerações de estudantes, o lápis parecia fadado à aposentadoria. Mas engana-se quem pensa ser ecologicamente correto ao usar modernas lapiseiras. Muitas delas são confeccionadas com produtos que agridem o meio ambiente, principalmente na fase de descarte. Enquanto isso, o lápis, por ser composto de material orgânico, é biodegravel. Aqueles como eu, tradicionais que não dispensam a elegância do lápis, devem procurar conhecer a procedência do produto. Fabricantes investem em sustentabilidade. A novidade é o ECO-lápis com 100% de madeira reflorestada.

VERDE NUCLEAR?:
Na eterna quebra de braço com ambientalistas e a inconstância do governo, a Eletronuclear destacou-se com projeto para transformar em adubo o corte de grama e poda de árvores nas áreas verdes do entorno das usinas em Angra dos Reis. Em um ano, economizou-se o diesel que seria queimado em 1.200 viagens para o aterro sanitário e a compra de nove toneladas de fertilizantes químicos. O projeto promove ainda cursos e educação ambiental na comunidade, plantio de árvores na rodovia BR 101 e recuperação da margem direita do Rio Mambucaia. Pergunta: não haveria benefícios muito maiores com a desativação da usina e o aproveitamento do potencial eólico e solar do país?

OBESIDADE ANIMAL:
Muitos dos que preocupam com o meio ambiente, qualidade de vida, alimentação saudável e manutenção do peso esquecem dos outros seres vivos com quem coabitam. Segundo pesquisa da veterinária Márcia Fernandes, entre 25% até 33% de cães e gatos (principalmente os castrados) estão acima do peso e desenvolvem uma série de doenças. Entre as raças mais propensas estão labrador, golden retriever, basset e cocker. Se a alimentação é caseira, procure uma mais light, mas respeitando as necessidades do animal. Se é ração, verifique os componentes nutricionais. Estresse, vida sedentária e espaços reduzidos também contribuem para a obesidade animal.

VERÃO NATURALMENTE COLORIDO:
Cada vez mais em voga, a moda de verão tem entre os principais requisitos ser leve, descontraída e colorida, além da missão de ajudar a modelar os corpos mais à mostra e ressaltar os bronzeados. Pode-se fazer isso de maneira mais responsável. Em busca da sustentabilidade, confecções começam a usar o poliéster extraído de Pet na confecção de tecidos. Uma camiseta consome duas garrafas recicladas. Confecções responsáveis começam a incluir o algodão orgânico e o naturalmente colorido, cultivado na Paraíba, que já nasce com a cor: evitam-se corantes artificiais. Antes de comprar, procure saber a procedência do tecido.

ATÉ TU, CAJU?
Protagonista de manchetes e charges de jornais, por ter sido incluído nos tradicionais improvisos do presidente Lula, o caju sobe ao topo do ranking das frutas. Um projeto do Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Fortaleza aponta vantagens desta fruta na fabricação de rações balanceadas em substituição ao milho, trigo, sorgo e proteína animal. Além de mais nutrientes, apresenta redução dos custos, reaproveitamento de farelo da indústria de sucos, e não afeta o ambiente.

R E S P O N S A

MÃE-DE-LEITE BRASIL:
A experiência em responsabilidade social da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vai ser exemplo para a implantação do Banco de Leite em países Ibero-americanos. Inicialmente, o know how brasileiro será exportado para Espanha, Paraguai, Argentina, Venezuela, Bolívia e Uruguai. Referência desde 1943, através do Instituto Fernandes Figueiras, no Rio, a Fiocruz coordena 190 unidades e 29 postos de coleta de leite humano. Arrecada, de forma voluntária, 114 mil litros por ano, que passam pelo processo de pasteurização e são distribuídos a mais de 130 mil recém-nascidos

PATRIMÔNIO DE OSWALDO CRUZ:
A Unesco reconheceu o arquivo da Fiocruz como patrimônio da humanidade. Além de garantir preservação, democratiza o acesso mundial ao acervo. Entre o material, três mil documentos produzidos pelo próprio sanitarista que dá nome a instituição. Parte do patrimônio se perdeu dentro da máquina burocracia pública. Só foram localizados e reunidos, em 1970, como parte das comemorações pelo centenário de nascimento de Oswaldo Cruz, que passou a contar, em 1986, com um museu na sede da Fundação, no Rio de Janeiro.

CORREIO SELETIVO:
Referência entre as estatais, o Plano de Coleta Seletiva de Lixo dos Correios serviu de exemplos para Infraero, Câmara dos Deputados, Polícia Federal e prefeitura de São Paulo. Agora, quem está se baseando no modelo são os Bancos Central e do Brasil, que buscaram apoio a Universidade Corporativa dos Correios. O programa exemplar foi implantado em 2002. Somente na sede administrativa, em Brasília, foram selecionados 329 mil quilos de papel para reciclagem. Para produção de cada tonelada de papel virgem é necessário derrubar 50 árvores adultas.

RACISMO:
Pesquisa realizada na rede municipal de Educação de São Paulo revela que 70,4% dos professores só trabalham com o assunto diversidade em datas festivas, como Abolição da Escravatura (13 de maio) e Dia da Consciência Negra (20 de novembro). Mais da metade revelou que desconhece a lei de diretrizes curriculares que inclui a diversidade no conteúdo, mas 24 % ressaltam a importância da inclusão do assunto no cotidiano escolar. Pesquisa semelhante feita pelo IBGE em Salvador, maior concentração de afordescendentes do país, revelou que 62% dos alunos já presenciaram atitudes racistas.

QUILOMBOLAS:
Metade das crianças quilombolas padecem de desnutrição. É o que aponta uma pesquisa feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 60 comunidades descendentes de escravos. As mais atingidas são as abaixo de cinco anos, que sofrem de doenças em decorrência da má alimentação. O quadro é semelhante ao do Nordeste de uma década atrás. De acordo com dados do governo, existem no país mais de 700 comunidades quilombolas, em 24 Estados.

GRIPE E DENGUE:
Com o agravamento dessas doenças no verão, o Sesi vai vacinar 500 mil operários contra gripe e aderir ao combate contra a dengue. Difundirá informações sobre o combat à proliferação do Aedes aegypti. Serão distribuídas cinco milhões de cartilhas, 500 mil folders e 150 mil cartazes, além de um vídeo educativo.

AGENDA 21:
O Instituto Ethos lançará no próximo 5 de dezembro, durante um seminário em Salvador, a publicação “RSE na Mídia: Pauta e Gestão de Sustentabilidade”. A proposta é promover a incorporação da sustentabilidade na pauta jornalística e na gestão das empresas de comunicação.

Mais

Luiz André Ferreira é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Edições anteriores da coluna:

O gás que falta nos postos
Uma das causas da forte elevação dos preços, das filas e da falta do combustível para o consumidor final, é a decisão de priorizar a entrega às grandes corporações. Também na coluna: cipó-titica, onças sem-teto, jogos indígenas e muito mais

Morrer e virar verde
O sucesso de iniciativas ambientalistas adotadas por funerárias no Paraná revela como a opinião pública está aberta ao tema do aquecimento global. Também na coluna: ações do Greenpeace contra Angra III, monitoramento de peixes, cinema itinerante, panetone do bem e muito mais

A Copa (verde) do Mundo é Nossa!
Diplô Brasil estréia coluna sobre Responsabilidade Social. Primeiro número avalia: emergência da questão ambiental foi decisiva para o retorno do mundial de futebol ao país. Mas haverá mobilização real em favor da natureza, ou tudo se resumirá a marketing vazio?