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novembro 2007



Wordsworth e o retrato do poeta quando jovem

A edição bilíngüe de "O olho imóvel pela força da harmonia", seleção de poemas de Wordsworth, traz, pela primeira vez em português, trechos do prefácio ao livro Lyrical ballads, volume escrito por Wordsworth e Coleridge, considerado um marco do Romantismo nas letras inglesas


Marina Della Valle

Pouco lido no Brasil, a obra do poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850) atingiu, em sua terra natal, status de tesouro nacional. Prova disso, mais que a importância de sua figura entre críticos e estudiosos, é a popularidade de seus poemas entre o público em geral: é comum encontrar uma coletânea do autor ao lado dos dois itens mais freqüentes nas estantes inglesas, a Bíblia e as obras de Shakespeare.

A edição bilíngüe de O olho imóvel pela força da harmonia (Ateliê Editorial, 144 págs., R$ 36), seleção de poemas de Wordsworth traduzidos por John Milton e Alberto Marsicano, traz, pela primeira vez em português, trechos do prefácio ao livro Lyrical ballads, volume colaborativo de Wordsworth com o poeta Samuel Taylor Coleridge, considerado um marco do Romantismo nas letras inglesas.

Os dois amigos haviam planejado dividir o livro igualmente, com Coleridge representando o elemento “sobrenatural” e Wordsworth explorando o comum, o ordinário. Por fim, Coleridge participou de Lyrical ballads, publicado pela primeira vez em 1798, apenas com a “Balada do velho marinheiro” – peça-chave do Romantismo inglês, traduzida para o português por Alípio Correia de Franca Neto em 2005 (Ateliê Editorial, 240 págs, R$ 72), obra que ficou em segundo lugar na categoria “tradução” do prêmio Jabuti de 2006.

Reação ao Neoclassicismo

A segunda edição do livro, em 1800, passa a incluir o “Prefácio”, de autoria de Wordsworth, considerado um manifesto não-oficial do Romantismo na Inglaterra e um dos documentos mais importantes do movimento. Lyrical ballads continuou a ser republicado nos anos seguintes, com adendos, revisões e alterações. Coleridge tentou incluir no volume seu poema “Christabel”, mas Wordsworth recusou-se – começava ali o declínio da relação dos dois amigos, o que iria afastá-los mais tarde.

A versão do “Prefácio” que teve seus principais trechos traduzidos por John Milton e Alberto Marsicano é a de 1802. Ainda influenciado pela Revolução Francesa, Wordsworth – que viveu na França até a eclosão da guerra com a Inglaterra, quando teve de partir deixando para trás uma amante e uma filha ilegítima – desenha, no texto, as diretrizes dessa nova poesia pulsante. Os principais pontos do “Prefácio” são a inspiração na vida simples do campo e nas pessoas das comunidades rurais, semelhantes à que Wordsworth viveu, na Região dos Lagos; a inspiração que uma vida bucólica e próxima da natureza pode proporcionar a um poeta, mais sensível a esse tipo de experiência; e o emprego da linguagem utilizada pelo homem comum na poesia. O Romantismo na literatura inglesa, anunciado por William Blake, surgiu como resposta e reação ao culto à razão do Neoclassicismo, até então vigente. “Toda boa poesia consiste no transbordamento espontâneo de sentimentos poderosos”, afirma o autor, no trecho mais famoso do texto. Wordsworth dedica boa parte do “Prefácio” a propostas contra a dicção poética em vigor na época, para ele pedante e artificial.

Campo de narcisos

A inspiração revolucionária que gerou a obra, porém, foi, ao longo dos anos, dissipando-se em Wordsworth. Em 1813, é indicado para a posição de oficial alfandegário do condado de Westmoreland, cargo de alto salário. Em 1843, aceita a posição de Poeta Laureado da coroa britânica, que implica a obrigação de escrever sobre os grandes fatos da nação. Além disso, passa a apoiar o Partido Conservador. Essa mudança brusca de posicionamento gerou severas críticas ao autor, incluindo um poema de Shelley, um dos maiores expoentes da segunda geração dos poetas românticos ingleses, intitulado apenas Wordsworth. Nele, Shelley lamenta que o poeta “deixe de ser, tendo um dia sido”.

O olho imóvel pela força da harmonia – a segunda edição brasileira dedicada ao autor, ao lado de William Wordsworth: poesia selecionada (Editora Mandacaru, 1988), com tradução e introdução de Paulo Vizioli – inclui, além do “Prefácio”, seções do longo poema de fundo autobiográfico Prelúdio; uma das composições mais significativas do autor, Abadia Tintern; e os famosos A ceifadora solitária, Somos sete e Solitário qual nuvem vaguei, cuja imagem de um campo tomado por narcisos, eternamente ligada ao poeta, inspirou um serviço curioso: neste link é possível acompanhar o desabrochar dessas flores no Parque Nacional da Região dos Lagos, onde Wordsworth viveu, por meio de fotografias. A próxima florada deve ocorrer nos fins de março do ano que vem.