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dezembro 2007



Individualidade e história

No romance Uma questão de loucura, Ismail Kadaré empresta ao narrador aguda capacidade de observação e de fantasia, para recuperar, como em outras obras, a história da Albânia


Dida Bessana

“Fomos à biblioteca da cidade. A chatice transparecia nos títulos: A boa gente da estepe; Primavera; A grande esperança... Outros títulos nem valia a pena abrir. Trabalho por toda parte, sorrisos, gente de coração sem mácula, atarefada na busca de pão ou abrigo para os companheiros. Nada eletrizante do tipo ‘a noite é tenebrosa e o corvo crocita sobre o abismo’. Nenhuma paragem descoberta onde ninguém confia em ninguém. E principalmente nenhuma paragem onde não se enalteça o trabalho.”

Com essas palavras, o personagem-narrador de Uma questão de loucura (Editora Cia. das Letras), do escritor albanês Ismail Kadaré, expõe sua frustração diante de uma literatura – a russa – que, desenvolvida segundo os princípios do realismo socialista, invade as prateleiras das quais, até aquele momento, ele extraía histórias e personagens que lhe serviam de divertimento, estímulo à imaginação e referência para uma tentativa de apreensão de sua realidade. Como explicar por que o partido comunista, que chegara ao poder quando a República substituiu a Monarquia, depois de também ter lutado para expulsar os nazistas do país, se escondia, por que seus filiados não podiam ser conhecidos, suas sedes não podiam ser identificadas, se na verdade todos eram comunistas. Por que ninguém podia dizer que o tinha visto pessoalmente? Para ele, só mesmo uma analogia com a literatura possibilita entendimento e o tranqüiliza: o partido “aterrorizava a todos justamente por ser assim, quer dizer, invisível, como o homem invisível”.

Dias depois, entretanto, anuncia-se pelo rádio que o partido vai sair da clandestinidade, uma “terrível notícia”, afirma-se aqui e ali, para sobressalto de toda a cidade, gerando apreensão, e cujos desdobramentos romperão os limites da normalidade.

Desintegração do mundo conhecido

Na escola, disciplinas como o latim, o francês e o grego antigo são substituídas pelo russo. Nas ruas, espalham-se cartazes com a foto de Stálin, tratado como “tio” e “pai”. Para o personagem, a expectativa gerada pela visita de Enver Hodja, líder máximo do partido na Albânia, dá lugar à decepção: “sorrisos” e “palavras de queijo e mel”. Mesmo sem poder aquilatar a profundidade e o alcance das transformações que a emergência do partido representa, ele não deixa de identificar o germe das imensas mudanças que estão por vir, como o culto à personalidade. O universo conhecido que o garoto vê se desintegrar o faz concluir que tudo está às avessas, e a concordar quando lhe dizem que se trata da manifestação da loucura de um e de outro, como afirma seu pai, tentando justificar o comportamento dos que lhe são mais próximos.

E essa loucura atinge simultaneamente sua família. Primeiro, uma possível tentativa de suicídio do tio mais novo que põe a casa em estado de alerta. Em seguida, seus tios passam de uma harmoniosa convivência, expressa pelo revezamento que fazem de citações do latim durante o jantar (uma das maiores diversões do garoto), para o embate aberto, em que o mais velho acusa o mais novo de dissimulado e maluco, até tornarem-se inimigos; é louca também a tia Djem, cuja soberba é um claro sinal de “seu desprezo pela coletividade”. Quanto ao patriarca da família, este definha na espreguiçadeira da varanda, acompanhado por um grupo de violinistas que ocupam parte do jardim da casa, resquício de um status perdido com o confisco das propriedades do velho. Mas o maior segredo da família ainda está por ser revelado e ocorrerá justamente no velório do avô.

Em resumo, neste curto romance, com pouco mais de setenta páginas, Ismail Kadaré entrelaça os planos histórico e individual, emprestando ao narrador aguda capacidade de observação e de fantasia, para recuperar, como em outras obras, a história da Albânia, a fim de tentar compreender seu país e seu povo. Após quatro séculos de domínio turco-otomano e uma independência ocorrida há pouco (1912), ele enfoca o momento crucial em que o partido se “legaliza”. E usa seu personagem para identificar o germe da Albânia dos anos seguintes, indiciando os conflitos, os abusos, as experiências dolorosas, enfim, as características do regime autoritário que levariam o autor a se asilar na França na década de 1990.