logo

dezembro 2007



Leda e o lugar da literatura

Ao dar o título do seu livro a uma personagem obscura e que pouco aparece na narrativa, o autor sugere uma visão sobre o lugar que a literatura possui nos dias de hoje.


Marco Polli

Roberto Pompeu de Toledo inspirou-se em um caso concreto para escrever o seu romance de estréia, Leda. Trata-se de uma biografia sobre o escritor Graham Greene, que somou 2.500 páginas em três volumes e que consumiu três décadas de trabalho do professor de literatura Norman Sherry. O esforço ganhou admiração pelo seu nível de detalhe factual – Sherry chegou a refazer as viagens de Graham Greene por diversas regiões do mundo, como ao Congo –, mas também recebeu críticas pela sua abordagem da vida sexual de Greene e pelo modo com que Sherry dá destaque a si mesmo. O filho de Graham declarou ao New York Times que a obra “não é sobre Graham Greene, mas sobre Sherry”. [1]

Em Leda, acompanhamos Adolfo Lemoleme, um professor de literatura que consegue permissão do seu ídolo literário Bernardo Dopolobo para escrever uma biografia completa. O esforço obsessivo e metódico de Adolfo é bem recebido quando a primeira parte do trabalho é lançada. Nos meios literários, esse sucesso ofusca o biografado em benefício do biógrafo. Adolfo não apenas descreve, mas parece englobar o seu objeto de estudo, chegando a ponto de se relacionar com mulheres que fizeram parte da vida de Bernardo. Este, por sua vez, permanece elusivo durante toda a narrativa, passando uma imagem ambígua, entre um retraimento frágil ou uma superioridade estratégica, de quem está manipulando tudo a distância. Uma das respostas de Bernardo será lançar uma biografia de Adolfo, “A catedral invertida”.

Quando se discute sobre o espaço atual da literatura, um tema obrigatório é a depreciação da narrativa ficcional frente aos “relatos reais”, incluindo as próprias biografias de escritores. Hoje, muitos autores são apresentados ao público pelo seu histórico, pelas suas preferências sexuais ou culinárias, como se isso, e não o talento imaginativo e técnico, garantisse o lastro da obra. Toledo incorpora esse tema em seu livro de diversas formas; além do embate entre biógrafo e biografado, o próprio estilo da sua prosa aponta para a fraqueza atual da ficção. Não sendo Leda um romance de época, os estranhos nomes dos personagens, as metáforas pomposas, os elogios formalistas da crítica literária, tudo isso passa a idéia de que a literatura é um costume social antiquado, sem mais lugar em nosso mundo. É de um simbolismo claro que Bernardo Dopolobo conserve um fiacre com uma referência à Madame Bovary.

O lugar da literatura

Se Toledo, de certo modo, faz uma elegia para a literatura, por outro lado constrói momentos singulares e fortes justamente fora do principal eixo dramático do livro. Logo no primeiro capítulo, a narrativa faz um curto desvio para resumir o enredo de uma peça, “A prometida do tornado”. Mais à frente, temos a imagem de um palhaço chorando na ocasião de um enterro. Já em dois capítulos próximos do final, é resumida uma obra de Bernardo Dopolobo, “A busca vã da imperfeição”. Essa obra se focaliza nas revelações idiossincráticas anunciadas por um frei, entre elas a inexistência de Deus. Ao escrever a segunda parte da biografia, Adolfo faz uma interpretação de “A busca...”, aproximando-a da vida de Bernardo: a ausência de Deus é alinhada a uma abordagem dessacralizada da literatura que o escritor adotou em certo ponto, tornando-se mais profícuo e livre em sua obra. A indicação desse paralelo é particularmente elogiada, mostrando que um biógrafo pode ocasionalmente criar uma interpretação que, se não é verdadeira, ao menos é literariamente interessante.

Porém, em “A busca...” há dois elementos importantes, não diretamente ligados ao conflito Adolfo/Bernardo: a sedutora e fugaz personagem Leda e a idéia de que só há um pecado. Esses elementos são retomados no último capítulo, mas sem que lhes seja dada qualquer tipo de resolução. Não se sabe qual é esse pecado e Leda se mantém elíptica; ficam como imagens que ecoam suspensas ao fim da obra. Já sendo uma personagem criada por um escritor também fictício (Bernardo), Leda pode ser encarada como uma representação da Musa da Literatura, porém essa é apenas uma interpretação entre outras. Ao dar o título do seu livro a uma personagem obscura e que pouco aparece na narrativa, Toledo sugere uma visão sobre o lugar que a literatura possui: fora do centro da ação, sem o apelo da clareza factual, mas ainda se mantendo absurda e intensamente sedutora para alguns.

[1] Fonte: