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dezembro 2000



AIDS

Um caso de morte e pobreza

Em carta dirigida ao presidente norte-americano, Thabo Mbeki, presidente da África do Sul, apontava a estreita e específica relação que ele acreditava haver entre a morte maciça provocada pela Aids na África e a pobreza endêmica que sufoca essa região


Anatole Ayissi

A 13ª Conferência Internacional sobre AIDS encerrou seus trabalhos no dia 14 de julho último em Durban, na África do Sul. Apesar do clima geral de suspeita provocado pelo presidente sul-africano Thabo Mbeki, em razão de suas controversas posições sobre a doença, a reunião terminou com uma esperança. O mundo parece ter tomado consciência da dimensão planetária do problema.

Foram liberadas verbas: os Estados Unidos anunciam um bilhão de dólares para os países da África situados ao Sul do Saara para que possam ter mais facilidade em conseguir medicamentos; o Banco Mundial deverá financiar com até 500 milhões de dólares, em diferentes países, os programas nacionais de luta. As cifras, embora estimulantes, não podem, de maneira nenhuma, significar uma vitória: em 10 de janeiro, diante do Conselho de Segurança da ONU, o Diretor executivo do programa AIDS, Peter Piot, afirmara que seria necessário mobilizar "entre 1 a 3 bilhões de dólares por ano" para lutar de forma eficaz contra a propagação da doença na África. [1] Nessa mesma instância, Mark Malloch-Brown, administrador do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) lembrou que os Estados Unidos gastavam 10 bilhões de dólares, a cada ano, para lutar contra a AIDS em seu país — 40 mil novos casos por ano — enquanto eram repassados apenas 165 milhões para a África, onde o número de novos casos chega a 4 milhões de pessoas no mesmo período de tempo. [2]

Ambições pessoais e rivalidade científica

O G-8, por seu lado, se compromete a trabalhar na perspectiva de uma parceria reforçada pelos governos, Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras instâncias internacionais, pelas indústrias (principalmente farmacêuticas), pelas instituições acadêmicas e organizações ativistas, para reduzir em "25%, até 2010, o número de jovens infectados pelo vírus HIV/AIDS".

Entretanto, não há unanimidade quanto à maneira mais eficaz de combater o flagelo. As grandes somas envolvidas, ambições pessoais e rivalidades científicas são a fonte de alguns pontos de discórdia. No centro dessas contradições, a grave crise desencadeada pelo presidente sul-africano, Thabo Mbeki, no mês de março último. Em uma carta dirigida ao presidente norte-americano William Clinton, apontava a estreita e específica relação que ele acreditava haver entre, de um lado, a morte maciça provocada pela doença em algumas regiões do mundo, como a África, e, por outro lado, a pobreza endêmica sufocando essas regiões.

Protesto contra Mbeki

Em resumo, o presidente sul-africano ousava propor: que toda a estratégia visando a erradicar a AIDS só pode ser eficaz se levar em conta, de maneira realista e objetiva, o fator pobreza. Thabo Mbeki escreveu o seguinte: "Está claro que quaisquer que sejam as lições que devam ser tiradas dos conhecimentos ocidentais sobre a grave questão da AIDS e do HIV, a simples superposição da experiência ocidental à realidade africana seria absurda e irracional. (....) Estou convencido que nosso mais urgente dever é responder de maneira específica aos perigos específicos que nos ameaçam, a nós, africanos. Não recuaremos diante dessa obrigação para optar pela solução mais confortável de "recitar um catecismo" que, naturalmente, pode ser uma resposta correta para a AIDS tal como se apresenta no Ocidente, mas não necessariamente na África." E ele assinala que as cifras conhecidas sobre a tragédia são apenas estimativas mais ou menos sofisticadas, mas que mal escondem uma realidade que se mostraria certamente ainda mais trágica se os Estados africanos fossem capazes de ter índices estatísticos confiáveis. [3]

Mas essas propostas tiveram menos peso que o fato de Mbeki ter apoiado as teorias dissidentes, segundo as quais o vírus da imuno-deficiência humana (HIV) não seria a causa da AIDS. Isso provocou um protesto unânime e determinado de inúmeros cientistas e organizações não-governamentais. Assinada por mais de 5 mil pessoas, entre as quais vários detentores do Prêmio Nobel e outros cientistas eméritos que trabalham com a pandemia, a Declaração de Durban [4] toma uma vigorosa posição contra os propósitos de Mbeki, apesar do apoio que lhe foi dado por Nelson Mandela.

Desafio à saúde e à economia

Na verdade, além das conclusões científicas atuais sobre a origem do mal, conclusões que ninguém questiona no atual estágio da pesquisa, há uma relação estreita entre a pobreza e os índices maciços de mortes causadas pela AIDS. [5] A Organização Mundial da Saúde (OMS), assinala: "A pobreza exerce influência sobre todos os estados da vida humana, da concepção até a morte. Ela conspira com as doenças mais mortíferas e mais dolorosas, para tornar mais miserável a existência dos doentes. (...) Alguns países em desenvolvimento recebem dos Estados Unidos menos de 4 dólares por habitante, para empregar em cuidados com a saúde durante um ano inteiro. Ou seja, uma soma inferior à que inúmeras pessoas nos países desenvolvidos consideram "uns trocados" e guardam no porta-moedas. Segundo cálculos feitos em 1993, um habitante dos países menos avançados do mundo tem uma expectativa de vida de 43 anos. Nos países mais desenvolvidos, essa expectativa de vida é de 78 anos. (...) Em cinco países, a expectativa de vida deverá diminuir até o ano 2000, embora aumente em todos os outros países. [6]

A AIDS é, ao mesmo tempo, um desafio à saúde humana e um desafio econômico e financeiro. Ela mata sistematicamente todos os que atinge na África, o que não ocorre nos países ricos da Europa ou da América. A evolução atual da ciência permitiria que passasse da categoria de "flagelo sistematicamente mortal" para a de uma "doença mortalmente crônica". Entretanto o "coquetel" de medicamentos disponível para o tratamento custa cerca de 15 mil dólares por ano para cada doente. Mesmo o mais rico país africano, a África do Sul, só pode gastar cerca de 40 dólares do orçamento da saúde com cada um dos seus cidadãos.

Infecção por leite materno

A infecção intra-uterina vem se tornando uma das principais vias de transmissão da doença às crianças africanas. A grande maioria das crianças infectadas, o foram no ventre de suas mães. Em relação ao total mundial, estima-se que 2/3 dos casos de transmissão de AIDS da mãe aos filhos ocorrem na África. [7] Aliás, as estatísticas mostram que cerca de 33% dos bebês de uma mãe doente são contaminados durante a gravidez. Sabemos que, no atual estágio do avanço da ciência, o tratamento com AZT pode reduzir pela metade, por exemplo, a taxa de contaminação. [8]

Ainda que o aleitamento materno tenha sido elogiado por suas vantagens nutritivas, as Nações Unidas acabam de descobrir que cerca de 15% das mães doentes de AIDS infectam seus bebês — nascidos sãos — durante o processo. Desta forma, mesmo se a contaminação in utero fosse reduzido em 15%, graças a um eventual tratamento com AZT, seis meses após o nascimento a taxa subiria a 30%, devido à transmissão mamária (retorno fatal à causa inicial). [9] O ideal, nestas condições, seria o aleitamento sistemático por mamadeira de todas as crianças africanas nascidas sãs e cujas mães fossem portadoras do vírus HIV. Considerando-se o preço do leite na farmácia, não é preciso ser um cientista para ver a relação estreita entre, de um lado, a morte pela AIDS desses bebês paradoxalmente condenados pelo seio materno, e, por outro, a pobreza. [10]

Seis pontos do plano de luta

Nesta parte do mundo, para cada doze mulheres portadoras do HIV há dez homens contaminados. Nota-se, particularmente, taxas assustadoramente elevadas entre adolescentes e mulheres jovens, entre 20 e 25 anos. Na verdade, sem direitos políticos ou sexuais, e em parte sem poder, a mulher africana sofre como vítima resignada uma situação diante da qual ela não tem qualquer possibilidade de reação construtiva. A guerra — e, como conseqüência imediata, os campos de refugiados — constitui atualmente um dos principais veículos da AIDS no continente (leia o artigo sobre este assunto, nesta edição). São duas circunstâncias trágicas, posto que a violência sexual cotidiana se torna quase uma "banalidade".

Acusado de se recusar a lutar contra a doença, Mbeki declarou estar extremamente surpreso pela "espécie de tempestade" desencadeada a respeito de suas "dúvidas" e sua necessidade legítima de melhor compreender as causas profundas do mal que arrasa o continente africano. E relembrou os seis pontos básicos do plano de luta que está sendo realizado por seu governo: sensibilizar a população sul-africana sobre a realidade e o imenso perigo que representa a terrível epidemia; eliminar a pobreza, "que mata da forma mais impiedosa e mais eficaz"; lutar contra as "doenças oportunistas" que atingem os portadores do vírus HIV (tuberculose e outras doenças sexualmente transmissíveis); garantir uma "resposta humana" àqueles que vivem com a doença, bem como aos órfãos da AIDS; e contribuir com os esforços internacionais para desenvolver uma vacina; um aprofundamento da pesquisa sobre a medicação adequada.

Os cientistas "dissidentes"

Certamente não foi inútil que o presidente sul-africano tivesse provocado um debate sobre uma crise de saúde de enormes proporções e sobre o perigo que ocasionaria querer, a qualquer preço, impor à África modos de tratamento que talvez tenham bons resultados em outros lugares, mas que poderiam resultar nulos no caso "específico" deste continente. "Continuamos convencidos", afirma Mbeki, "que é necessário compreendermos melhor o que poderia ser uma resposta adequada ao contexto que é o nosso, e que se caracteriza por um elevado nível de pobreza e de epidemia". Por isso, considerou necessário cercar-se de uma equipe de cientistas "de todos os campos", homens de ciência, talvez de opiniões divergentes, mas dos quais espera respostas confiáveis e eficazes a estas dilacerantes interrogações... Onde ele ainda continua ambíguo, no entanto, é em aceitar nessa equipe uma ampla delegação de cientistas "dissidentes" — os que negam a ligação entre o vírus HIV e a AIDS.

Traduzido por Celeste Marcondes.

[1] Le Monde, 12 de janeiro de 2000.

[2] Le Monde, 12 de janeiro de 2000.

[3] Consultar também The Village Voice, "AIDS: a agonia da África".

[4] Ler "The Durban Declaration", Nature, Londres, nº 406, pag. 15-16.

[5] Ler, de Lawrence Goldyn, "Africa Can’t Just Take a Pill for AIDS", New York Times, 6 de julho de 2000.

[6] Organização Mundial da Saúde, Relatório sobre a saúde no mundo, 1995 (Genebra: OMS), pag.1.

[7] World Bank, Confronting AIDS, Public Priorities in a Global Epidemic, ed. Oxford University Press, Oxford/Nova York, 1999) p.90.

[8] A recusa do presidente sul-africano Thabo Mbeki em fornecer medicamentos anti-vírus às mulheres grávidas soropositivas jogou lenha na fogueira da polêmica desencadeada por estas declarações.

[9] Ler, de Lawrence Goldyn, "Africa Can’t Just Take a Pill for AIDS", New York Times, 6 de julho de 2000.

[10] O aleitamento por mamadeira, nos meios socialmente desfavorecidos, apresenta outros riscos sanitários. A Unicef estimava em 1997 que um milhão e meio de crianças morriam a cada ano por efeito direto ou indireto deste tipo de alimentação. Ler, de Claire Brisset, "Estas mamadeiras que matam", Le Monde Diplomatique, dezembro de 1997.