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janeiro 2008



O ficcionista das ruas

João Antônio alega ter buscado firmar um compromisso com o leitor brasileiro, o qual procurou conhecer a fundo, a fim de desmistificar a sentença de que “não temos leitores”.


Cristina Betioli Ribeiro

É para encurtar definitivamente as distâncias que, via de regra, separam a linguagem narrativa do universo narrado, que João Antônio nos chega com a pintura citadina de Leão-de-chácara (em sua 4ª reimpressão pela Editora CosacNaify). O livro de contos traz narradores que, diante de uma surpreendente intimidade com o falar urbano da malandragem, parecem-nos legítimos pícaros saídos das zonas periféricas dos grandes centros.

São Paulo e Rio de Janeiro, cenários diletos, onde desfilam personagens que driblam a moral e flertam com a decadência, estão mapeados pela ginga e pela visão de mundo dos desajustados. Dividido entre “malandros” e “otários”, este mundo, porém, não resguarda ninguém das pancadas da vida. Por meio de uma ótica consciente dos lugares estabelecidos socialmente, os narradores de João Antônio dispensam os binóculos e observam as desigualdades de perto, como peritos e partícipes da realidade dos desfavorecidos, tratados por “pobres”, “merdunchos”, “viradores”. No limite, todos sobreviventes de uma complexa ordem social, que separa o universo dos excluídos em “trouxas” e “espertos”. Estes, os homenageados pelos contos de João Antônio, são os que conseguem transformar a opressão em “sabedoria” e abandonar a vida dura, sem nenhum privilégio, satisfação ou perspectivas positivas, para seguir sobrevivendo sob novas regras morais, que também têm seus desafios, mas não dispensam os prazeres impedidos pelos meios convencionais de viver na pobreza.

Os apelidos, como os dos leões-de-chácara Pirraça e Joãozinho da Babilônia, funcionam como “nomes de guerra” e verdadeiros selos de destaque para figuras que se celebrizam em situações de disputa de poder, desde os ambientes domésticos das periferias aos “inferninhos” espalhados pelas capitais paulista e carioca. Ao tematizar a “vida cachorra” dos que são comumente considerados a escória da sociedade, sem precisar de lupa, o livro de João Antônio humaniza o fruto podre do sistema e com isso constitui-se em mordaz provocação à visão burguesa da realidade brasileira, que, em geral, prefere estar cega às gritantes desigualdades que a cercam. No conto “Leão-de-chácara”, por exemplo, o protagonista Pirraça faz alusão à comemoração do IV Centenário do Rio de Janeiro, momento em que as autoridades teriam decidido “limpar a cidade” para receber “gente importante”. “Foi um arrastão – ladrão, marafona, pedinte, maltrapilho, indigente, esmoleiro, cego de rua, engraxate, aleijado, limpador de carro – e toda a arraia-miúda andou mal de vida, indo mofar no xadrez”. Trata-se de um arrastão às avessas. Brutalidade que dispensaria o alarde público, por ser considerada de finalidade útil: deixar a cidade “bonitinha”.

No segundo conto do livro, “Três cunhadas – Natal de 1960”, o personagem principal é um desiludido com a vida sem perspectivas, que inicia a narração com o dito: “Isto não é vida”. Vagando pela cidade do Rio, com a incumbência de comprar presentes para as cunhadas, ele se entedia com a tarefa imposta pela esposa e se queixa da profissão de contínuo, numa alusão subliminar aos protagonistas preferidos de Lima Barreto (para quem os livros de João Antônio são consagrados): “O tutu que apanha no fim do mês lá no banco, como contínuo, dá pra botar comida dentro de casa? Dá? Não dá e nunca deu. Pobre não luta; pobre peleja”. Quando se encontra, quase sem querer, no Flamengo, no apartamento das cunhadas, tem a atenção dividida entre as conversas frívolas das três mulheres de vida decadente e a canção natalina que soa no ambiente. Do ponto de vista formal, o autor realiza interessante façanha no texto, que é narrado predominantemente em terceira pessoa: interrompe a narrativa com versos da canção, para transmitir a impressão de distração e tédio do seu personagem. Quando, ansioso por cumprir logo a obrigação e partir, finalmente se despede das cunhadas e toma a barca de volta à Niterói, atravessa o mar pensativo e melancólico, “naquela vontade besta de ser mais moço”. Então, o ciclo vicioso se fecha: “Aquilo não era vida”.

Toda essa atmosfera pessimista poderia sugerir a mais completa ausência de lirismo. Mas, ao contrário, ele se apresenta único, no mesmo registro de linguagem, como verdadeira flor no lodo. No conto “Joãozinho da Babilônia”, as lembranças de um malandro apaixonado que recorda a perda da namorada prostituta, engendram uma relação metafórica entre o mar e a mulher, que, não por acaso, chama-se GuioMAR. É de fato guiado pela visão do oceano, que Joãozinho compara as duas belezas: “Tinha mais segredo e provocação lá no canto da sua boca do que no quebrar das ondas. Tinha mais perfume ali, na risca do seu cabelo; tinha mais cheiro, chamado e violência ali, quando ela beliscava no canto da boca o dedo mínimo, do que quando o mar tenta gritar, de encontro às pedras, no preto-escuro das madrugadas que curto, eu e só. [...] Caído bonito de cabeça, Guiomar”.

Estes contos compõem a primeira parte do livro, “Três contos do Rio”. A segunda parte, que contém o singular “Um conto da Boca do Lixo”, elege a cidade de São Paulo como o cenário da trajetória de Paulinho Perna Torta, personagem originalmente construído em 1965, para o livro Os dez mandamentos. Revisto e reproduzido em Leão-de-chácara, o conto é uma incursão no percurso de um pobre-diabo na “escola da malandragem”. Um menino que começa a vida aprendendo que a sua condição apenas permite “ver e desejar” o que aguça as “vontades”; ou que “qualquer bagulho é esperança de grana, quando o sofredor tem a fome”. De engraxate a malandro célebre, Paulinho dá o salto da esperteza quando converte o temor da opressão em reação: a primeira delas é enfrentar o jornaleiro, “bicho gordo” que lhe toma o dinheiro das engraxadas. Dali em diante, fugido e adotado pela zona, enamora-se da prostituta Ivete e toma aulas de malandragem com o mulato Laércio Arrudão. Nas regras avessas à ordem convencional, Paulinho é sustentado por mulheres e vai levando a vida à base de golpes, até ganhar fama. A imprensa chega a compará-lo a um “galã do cinema italiano” e suas posses aumentam gradativamente. A propina corre solta e quando não, dá-se a guerra entre polícia e bandidagem. Nesse caso, a violência extrapola todos os limites e o conto de João Antônio faz frente ao universo hoje retratado na voga do cinema brasileiro, em filmes como Cidade de Deus e Tropa de elite.

A recente reedição de Leão-de-chácara, além de trazer a interessante introdução de Tânia Macedo sobre a obra de João Antônio, oferece dois “Apêndices”. Um deles, o artigo “O leitor como parceiro”, contém um balanço sobre o que autor esperava da sua produção. Ele alega ter buscado firmar um compromisso com o leitor brasileiro, o qual procurou conhecer a fundo, a fim de desmistificar a sentença de que “não temos leitores”. Diz não temer tornar-se um best-seller, desde que a sua literatura fosse “toda de participação frente à realidade do povo e da terra: aí, sua limpeza, dignidade, missão”. Certamente, um homem que foi às ruas constatar a realidade que gostaria de representar para enlaçar um público amplo, com todas as suas fissuras sociais. Funcionou.