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fevereiro 2008



OUTROS CINEMAS

Alexandra, o elemento perturbador

Em seu novo filme, Alexandre Sokurov introduz uma avó num acampamento de soldados russos na Tchetchenia. Por meio de um jogo de opostos, ele passeará por temas como as relações familiares, os desejos incestuosos, os conflitos entre Rússia e vizinhos e, em especial, a banalidade da guerra


Bruno Carmelo

O cineasta russo Alexandre Sokurov é apaixonado pelas relações em família, mais especificamente pelas disputas e pelos ressentimentos. Autor de Mãe e Filho e Pai e Filho, ele realiza com Alexandra uma espécie de “Avó e Neto”, uma vez que a história se desenvolve a partir de uma avó russa que decide visitar seu neto, um capitão do exército, no acampamento militar na Tchetchnia.

Muitos bons roteiros de cinema nascem a partir da introdução de um personagem impertinente (e portanto perturbador) num cenário estável.

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Várias cenas unem esses dois solitários numa pequena cabana, na qual se manifestam o desejo de companhia e de proteção.
Divulgação

Estes personagens servem para desencadear o conflito, que acaba por explicitar como realmente pensam as pessoas, até então silenciosas, no ambiente em questão.

Alexandra segue esse princípio. Que espaço tem uma senhora idosa num campo cheio de jovens soldados? O roteiro não confere nenhuma qualidade especial aos garotos ou a Alexandra; ele deixa simplesmente que a presença física desta se encarregue de conferir tensão ao filme.

A partir daí, o filme de Sokurov passa a operar como um jogo de opostos: ela é a fraca entre os fortes, a idosa entre os jovens, a inofensiva entre os potencialmente perigosos e a experiente entre os imaturos. Além disso, ela é a avó entre os netos, uma vez que sua presença no acampamento cria relações próximas com vários soldados que enxergam na figura da senhora uma substituta de mãe/avó.

Mais longe ainda, pode-se dizer também que ela simboliza a mulher entre os homens. Embora não represente um símbolo de sexualidade para os jovens, ela tem relações ambíguas com o próprio neto. Como normalmente ocorre no cinema de Sokurov, as relações familiares são permeadas pelo fantasma dos desejos incestuosos, uma espécie de complexo de Édipo constante e insuperável.

A guerra como trabalho inútil, desgastante, feito por quem não têm em mente a idéia de defender a pátria

Em Alexandra, o olhar da avó passeia calmamente pelo corpo forte do seu neto, e ela se comprime contra seu peito para exaltar como é bom o cheiro dele, “esse cheiro que normalmente os homens têm”. Várias cenas unem esses dois solitários numa pequena cabana, na qual se manifestam o desejo de companhia e de proteção.

A protagonista não é, no entanto, alguém que mostra facilmente suas fraquezas. Ela é independente, apesar de seus problemas de locomoção e da saúde comprometida pela idade; e a maior parte da narrativa se passa com as caminhadas de Alexandra pelos campos, em meio aos soldados.

Apesar das contradições visíveis, Sokurov devide mostrar que, em termos de personalidade, é ela a forte; enquanto os soldados são todos garotos imaturos e entediados. O calor da cidade é insuportável e a fotografia capricha no ambiente letárgico para mostrar os corpos que descansam pelos cantos, que dormem pouco e comem mal. Esses garotos frágeis serão acolhidos por Alexandra, que vai cuidar deles ao ponto de ir buscar cigarros e guloseimas aos pobres, impedidos de visitar a cidade tchetchena (onde essa mulher russa é, aliás, muito bem acolhida).

Como a guerra nunca ocorre em frente às câmeras (vemos tanques que vêm e vão, mas não há uma cena sequer de combate), somos compelidos à compreendê-la pelas pessoas que a fazem — ou seja, entender a guerra pelo lado humano. Essa abordagem, típica nos filmes de Sokurov, não defende nem ataca o conflito armado, mas o mostra como um trabalho inútil, desgastante, feito por pessoas que não têm em mente a idéia de defender a pátria. Ao invés de atroz ou desumana, a guerra é mostrada como algo esvaziado de sentido.

Numa bela cena, um garoto tchetcheno diz a Alexandra que ele só queria que “vocês, russos, deixassem nosso país livre”. Não há qualquer raiva ou ironia nessa frase, unicamente esse tom meio infantil de desabafo, de quem não compreende as relações políticas que opõem esses dois personagens que, naquele momento, parecem tão próximos. Ela não sabe responder: “é mais complicado que isso”, diz. A experiente Alexandra é ao mesmo tempo a avó, a mulher e a Rússia; assim como sua figura simboliza a banalidade da guerra e o desgaste que ele causa entre os soldados, as famílias e as nações.

Alexandra (2007)
de Alexandre Sokurov
com Galina Vishhnevskaya, Vasily Shetytsov, Raisa Gichaeva
Distribuído por Rezo Films
Duração de 1h32.

Veja mais:

Ver vídeos e trailers do filme (legendas)

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

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