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março 2008



CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Procura-se pão francês

— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.


Daniel Cariello

— Três pães, s’il vous plaît.

— Qual?

— Pão francês. Queria três, bem assados.

— Pão francês?

— Não tem?

— Aqui na França, tecnicamente falando, todos os pães são franceses.

— É aquele pãozinho pequeno assim, ó.

— O croissant?

— Não, não. É um que parece um zepelin, sabe?

— Baguete?

— Não, a baguete parece mais um submarino, e é grande. Esse é como uma baguete que encolheu.

— Voilà! É a mini-baguete.

— Menor ainda.

— É a mini-baguete cortada ao meio?

— Mas aí continua sendo uma mini-baguete, só que cortada ao meio.

— Tem razão.

— Imagina que a baguete é o pai.

— Tô imaginando.

— O pão francês é o filho gordinho.

— Nunca ouvi falar.

— É o pão do dia-a-dia no Brasil.

— E vocês o chamam de pão francês?

— Sim.

— Olha, acho que ele não existe na França.

— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?

— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.

— Estou chocado.

— Ainda temos a baguete. Quer?

— Vai, me dá uma.

— Qual? Normal, tradicional, integral, com cereais?

— Mas é difícil comprar pão por aqui, hein?

— O que você queria? Estamos na França. Temos dezenas de pães diferentes.

— Só não tem o pão francês.

— Esse não.

— Me dá uma baguete com cereais, então.

— Aqui está.

— Pode embrulhar?

— Hã?

— Colocar num saco.

— Aqui não...

— Já sei, não tem saco pro pão também.

— Isso.

— Vai me dizer que tenho que levá-lo debaixo do braço?

— Exatamente.

— Olha, mudei de idéia. Dá pra sair um misto-quente?

Mais:

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog Chéri à Paris e edita a Revista Brazuca.