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abril 2008



LITERATURA

Ação de sobra – e poucas descrições

Agnóstico e influenciado por aventuras policiais, Philip Pullman sonega ao leitor informações sobre acontecimentos que se desenrolam em paralelo aos passos de Lyra, a protagonista de “A bússola de ouro”


Dida Bessana

Em 18 de dezembro de 2007, o jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, condenou o filme A bússola de ouro, baseado no primeiro volume da trilogia Fronteiras do universo (Editora Objetiva), afirmando que “no mundo de Philip Pullman [autor da trilogia] a esperança simplesmente não existe, porque não existe salvação senão na capacidade pessoal e individualista de controlar a situação e dominar os acontecimentos; quando o homem procura eliminar Deus de seu horizonte, tudo é reduzido, frio e desumano”. A fazer-lhe coro, logo em seguida, a Liga Católica dos Estados Unidos exortou os cristãos a boicotarem a fita, dizendo que seu objetivo é “prejudicar o cristianismo e promover o ateísmo” entre as crianças.

Entretanto, ambas as reações soam exageradas em referência à adaptação para o cinema, uma vez que, nesta, uma das certezas de quem sai da sala de exibição é pouco ter visto de conteúdo “religioso”, entre outros motivos, por substituições como “Magistério” em lugar de “Igreja”, para denominar a força religiosa que, no livro, se considera dona da verdade. Predominam, isso sim, elementos fantásticos, efeitos especiais, uma narrativa linear e pouca emoção.

Nascido em 19 de outubro de 1946, em Norwich (Reino Unido), Philip Nicholas Outram Pullman graduou-se em Língua e Literatura Inglesa na Universidade de Exeter, em Oxford. Em 1972, foi agraciado com um prêmio literário para escritores com menos de 25 anos, o que lhe permitiu publicar seu primeiro romance, The Haunted Storm, ao qual se seguiram Galatea (1978), Spring-Heeled Jack (1982) e a tetralogia The Sally Lockhart, composto por The Ruby in the Smoke (1985), Shadow in the North (1999), The Tiger in the Well (1999) e The Tin Princess (2000), entre outros.

Agnóstico e influenciado, como ele mesmo afirma em seu site, por aventuras como as de Sherlock Holmes, e mesclando características das primeiras histórias de detetive do século 19 com elementos extraídos do cinema e dos romances de aventura do 20, o autor recorre, com freqüência, à mitologia grega e a histórias folclóricas de outras culturas para compor suas narrativas.

E, assim, conquistou não só um público amplo como também a crítica. Em 1996, A bússola de ouro recebeu os prêmios Guardian Children’s Fiction e a Medalha Carnegie; em 2001, A luneta âmbar (terceiro livro) conquistou o Whitbread Children’s Book of the Year; em 2002, ganhou o Eleanor Farjeon Award por ajudar a mudar a visão que os adultos têm da literatura infantil; e, em 2005, o prêmio Astrid Lindgren, em reconhecimento a sua carreira e a sua contribuição à literatura.

Lyra e ao aletiômetro

A bússola de ouro conta a história de Lyra Belacqua, uma pré-adolescente de 11 anos, aparentemente órfã, que vive sob os cuidados dos catedráticos da Faculdade Jordan, em uma Oxford vitoriana, altamente hierarquizada, existente em um mundo paralelo ao nosso, em que todas as pessoas estão submetidas à autoridade da Igreja e nascem acompanhadas por um dimon (do inglês daemon, uma criatura cuja aparência muda constantemente e só adquirirá forma definitiva quando seu dono alcançar a puberdade), figura de origem grega, pagã, considerada pelo catolicismo um espírito maligno. Alma ou expressão concreta da personalidade dos indivíduos, os dimons não podem ser separados de seus donos.

Travessa, indisciplinada, aventureira, curiosa, esperta e pouco afeita aos estudos, Lyra gasta seu tempo brincando e brigando dentro e fora do campus, tendo como melhor amigo outro órfão, Roger, e provocando garotos ciganos da cidade. É em meio a uma dessas estripulias que ela presencia, escondida em um armário, uma reunião entre seu tio, Lorde Asriel, um cientista que acaba de regressar de uma viagem exploratória ao Pólo Norte, e a cúpula da universidade, integrada não só por professores e o reitor mas também pelo representante da Igreja. Essa mantém sob estrita vigilância cada passo do pesquisador e qualquer outro experimento científico, que deve seguir os princípios eclesiásticos e seus ditames de ordem moral e religiosa. É nesse encontro que Lyra ouve pela primeira vez a menção ao Pó, ou matéria escura, ao que tudo indica um portal para universos paralelos, mas que para a Igreja é a prova definitiva do pecado original.

Disposta a encontrar seu amigo Roger, que nesse ínterim foi seqüestrado, Lyra logo se vê obrigada a deixar a faculdade, para tornar-se assistente da sra. Coulter. Mas, antes, recebe das mãos do reitor um objeto raro, um aletiômetro (do grego alethea, verdade), aparelho semelhante a uma bússola, de intrincado mecanismo, e cujo funcionamento, a princípio, ela não compreende. Embora Lyra se encante com a simpatia e a inteligência da sra. Coulter, em pouco tempo percebe que ela está a serviço da Junta de Oblação, entidade destinada a exercer o controle e a censura sobre a ciência, envolvida no desaparecimento de Roger e de outras crianças (em geral de origem pobre e de grupos socialmente marginalizados, como os ciganos).

Nesse ponto, de fato, começa a aventura de Lyra, ao lado de gípcios, um urso falante de armadura, um aeróstata e bruxas que atiram com arco e flecha, entre outros seres curiosos, todos sabedores de que ela deverá cumprir uma profecia, o que só poderá fazer se for completamente ignorante de seus objetivos e tiver total liberdade para cometer erros e tomar decisões.

Em sua trajetória a fim de salvar seu amigo, mantido refém em uma espécie de laboratório no Pólo Norte, onde as crianças são submetidas a experiências para que seus dimons lhes sejam extirpados, Lyra descobrirá sua verdadeira origem – seu tio é seu pai, a sra. Coulter, sua mãe e, quanto ao aletiômetro, ela aos poucos demonstra uma crescente habilidade em manipulá-lo e interpretá-lo, o que é classificado como uma “graça”.

Pullman, entretanto, ao centrar a narrativa em Lyra, sonega ao leitor informações sobre acontecimentos que se desenrolam em paralelo aos passos da menina. Além disso, como usa e abusa de diálogos e de muita ação, mas é parco em descrições, principalmente de ambientes, produz uma narrativa ágil, mas pouco cinematográfica.

O essencial, entretanto, é que, desde o início, o mote desse primeiro volume está claro: o autor investe contra o poder eclesiástico que age segundo seus interesses escusos, porém não devidamente esclarecidos ao leitor.

Ao chegar ao fim dessa aventura, Lyra enfrentará as conseqüências de seu primeiro grande erro de avaliação, descobrindo naquele que considerava um aliado o inimigo. E neste desfecho, não de todo inesperado, está o gancho para o próximo volume, A faca sutil.