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abril 2008



LITERATURA

A faca sutil: pouca emoção

Lorde Asriel arregimenta um exército composto por homens que sofreram a intercisão, portanto não têm medo, nem imaginação, nem vontade própria


Dida Bessana

Em A faca sutil, de Philip Pullman, segundo volume da trilogia Fronteiras do universo (Editora Objetiva), a menina Lyra, depois de salvar seu amigo Roger do laboratório no Pólo Norte, coloca ao alcance de Lorde Asriel, sem o saber, a criança de que ele tanto precisa para, extirpando-lhe o dimon (fazendo a intercisão), obter o Pó que lhe permite ingressar em outro universo.

Apenas aqui o leitor descobre que, segundo alguns estudos, ter um dimon poderia ser decorrência da maior ou menor quantidade de Pó que se acumula em torno de crianças e adultos. Se a ligação entre o dimon e a pessoa se romper, ela deixa de ter espírito e se torna um morto-vivo em outro plano, sombrio e desesperador. É para esse mundo que Roger vai – e resgatá-lo é mais uma vez a missão que Lyra impõe a si mesma. Para essa tarefa, contará com um novo aliado, Will, sendo dele a voz narrativa deste volume, o menor da trilogia.

Com apenas doze anos William Parry vive em uma Oxford contemporânea, onde come no Burger King e toma Coca-Cola (o autor já pensava em possíveis patrocinadores e/ou no merchandising?). Criado praticamente sozinho, já que sua mãe adoeceu, desde que o marido desapareceu em uma expedição científica da Marinha britânica, ele é um garoto maduro e responsável. Entretanto, ao defender a mãe de misteriosos homens que a perseguem, buscando informações sobre o marido, John Parry, dado como morto, Will, em legítima defesa, mata um deles e agora é caçado pelas autoridades locais. Obrigado a se esconder, deixa sua mãe com uma vizinha de confiança e vaga pela cidade até encontrar abrigo em um parque. Neste, observa uma gata que, perto de uma estranha planta, atravessa o que parece uma janela quase invisível a olho nu. Ao segui-la, descobre que se trata de uma passagem para outro mundo.

Passagens no tempo e no espaço

Cittàgazze, ou a encruzilhada, onde está guardado todo o mistério sobre o Pó, é, à primeira vista, um paraíso desabitado, mas, na verdade, é assombrado por espectros provenientes da escuridão do espaço, que se alimentam da consciência dos adultos. Nele só estão a salvo as crianças, como Will e Lyra. Decididos a alcançar seus objetivos, dão início a uma jornada que os leva tanto a outros mundos quanto à Oxford de Will, para espanto de Lyra, que mal reconhece sua cidade. Nesse percurso, Will não só obtém informações sobre seu pai, como, após entrar no Templo dos Anjos, torna-se o portador de um relicário, a faca sutil, capaz de cortar todos os materiais existentes no mundo e também abrir passagens para qualquer país, tempo e universo.

Agora também ele manipula habilidosamente um instrumento raro e cobiçado pela Autoridade (Igreja), como descobrimos que a antiga profecia que fala sobre alguém que deve cumprir seu destino sem conhecimento dele refere-se, na verdade, à nova Eva. Se Lyra desconhece esse destino, a Autoridade sabe o que está reservado a ela e tentará de toda maneira evitar que a profecia se cumpra, mesmo que para isso tenha de matá-la.

Simultaneamente, Lorde Asriel descobriu como explodir a barreira existente entre o nosso e os outros mundos e arregimenta um imenso exército, composto até mesmo por homens que sofreram a intercisão, portanto não têm medo, nem imaginação, nem vontade própria. O objetivo de Asriel é reproduzir a revolta dos anjos ocorrida antes da Criação, quando tentaram tomar o poder da Autoridade e, derrotados, foram expulsos do paraíso e condenados ao inferno.

Sem ser bem-sucedido, Lorde Asriel só consegue provocar a morte de muitos, entre eles o pai de Will, de cuja companhia o garoto desfruta por não mais do que poucos minutos. Se Lyra precisa chegar ao mundo dos mortos para encontrar Roger, agora essa também é a grande ambição de Will.

Ao fim do segundo volume da trilogia, pouca emoção e alguns personagens interessantes, como os avantesmas e os galivespianos.