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abril 2008



LITERATURA

O dilema da literatura de gênero brasileira

A literatura policial brasileira contemporânea é quase inexistente, mas o mesmo pode ser dito da ficção científica, ou da literatura romântica, ou do romance histórico. Em outras palavras, o que falta no cenário literário nacional hoje não é apenas literatura policial, é literatura de gênero como um todo


Lucas Murtinho

Leitores atentos do Palavra têm acompanhado uma série de artigos sobre a situação da literatura policial brasileira. Ela começou com dois textos de Olivia Maia, “De Drácula a Philip Marlowe” e “O dilema da literatura policial brasileira”. Paulo Polzonoff comentou o segundo em “Os muitos dilemas da literatura policial brasileira”, também publicado no seu blog. E em “O homem na multidão”, resenha de Na multidão, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Gregório Dantas abordou de passagem o mesmo assunto. Espero que vocês não estejam cansados dele, porque agora é a minha vez.

Olivia Maia: a literatura policial brasileira e a necessidade de relevância social

Após traçar, em “De Drácula a Philip Marlowe”, uma breve história da literatura policial que inclui uma importante distinção entre o romance policial clássico e o que poderíamos chamar de romance policial moderno, Olivia Maia escreve em “O dilema da literatura policial brasileira”:

A literatura policial é essencialmente uma literatura de entretenimento, e não há no Brasil essa noção de literatura de entretenimento como tal, vista como tal e julgada como tal. [...] Nenhum escritor está disposto a se colocar como um escritor menor, um mero escritor de literatura de entretenimento. Dos poucos escritores brasileiros de literatura policial, a maioria ainda pretende se colocar uma importância que não deveria ter.

E isso se dá por causa da polícia. Que polícia é essa, a brasileira? [...] Como criar uma ficção de detetive, uma história de investigação, a partir de um investigador que está pouco se lixando pro idiota que morreu e pro prestígio da instituição para a qual ele trabalha?

O dilema da literatura policial brasileira seria portanto a incapacidade de assumir sua condição de literatura de entretenimento, devido à necessidade incontornável de comentar a situação calamitosa da polícia nacional: a consciência social como obstáculo à diversão. Maia também observa que a literatura policial seguiu historicamente o caminho inverso, partindo do puro entretenimento intelectual das histórias de Poe, Conan Doyle e Agatha Christie para chegar ao entretenimento misturado a crítica social de Dashiel Hammett e Raymond Chandler. O Brasil seria uma prova de que o caminho inverso é difícil, talvez impossível, de ser trilhado.

Polzonoff: literatura policial e ética

Em “Os muitos dilemas da literatura policial brasileira” Paulo Polzonoff enxerga o problema de maneira um pouco diferente. Vale notar antes de tudo que Polzonoff parece falar exclusivamente do romance policial clássico:

A literatura policial tem um objetivo claro: elucidar um mistério. E, para isso, se utiliza de uma fórmula repetida à exaustão: crime, apresentação dos suspeitos e do detetive, pistas e, por fim, a resolução.

Essa definição de romance policial é importante para entender por que Polzonoff diz que “toda a boa literatura policial lida com valores éticos claros”. O mesmo ponto é reforçado por Gregório Dantas em “O homem na multidão”:

Há quem diga que os altos índices de criminalidade tornaram o romance policial obsoleto. O gênero não assusta mais. [...] Mas talvez nasça precisamente dessa constatação um dos motivos mais fortes para o contínuo apelo comercial dos livros policiais: eles oferecem uma saída, a idéia de que um crime possa ser solucionado, a fantasia de que um modelo lógico e racional possa ser aplicado ao ato mais bárbaro, e assim explicá-lo. [...] Então, podemos dizer que, dentre outros motivos, o policial é um gênero popular precisamente porque vende a ilusão de que existe uma ordem possível, oculta, um fio de razão, por trás da barbárie.

Dantas e Polzonoff definem o romance policial da mesma forma, mas enquanto o primeiro acha que essa definição ajuda a explicar a atração exercida pelo gênero, para o segundo ela explica por que ele não atrai o público brasileiro: “Não é preciso ser nenhum Sérgio Buarque ou Gilberto Freyre ou Florestan Fernandes ou Fernando Henrique Cardoso para saber que o brasileiro tem um probleminha com este tema [a ética].”

Segundo Polzonoff, os romancistas policiais brasileiros incorreriam em dois tipos de erro ao construir seus detetives: eles seriam ou eticamente invertidos – como o Mandrake de Rubem Fonseca, “um advogado novo-rico e priápico que vê o mundo de um modo totalmente maniqueísta: de um lado, os ricos maus e ridículos; de outro, os pobres injustiçados, que exalam a própria essência do bem” (embora o maniqueísmo seja teoricamente uma marca do romance policial clássico, com seu mundo em preto-e-branco de detetives bons e criminosos maus) – ou, numa acusação que evoca o diagnóstico de Maia, pretensiosos e exageradamente éticos, como o delegado Espinosa, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, que lê filosofia e “é acometido, aqui e ali, por crises homéricas devido à corrupção da corporação a que pertence”. Para Polzonoff falta à literatura policial brasileira detetives mais humanos e que se preocupem mais com o crime em si do que com o seu significado social:

Nos detetives [estrangeiros] que tenho lido, o que mais me chama a atenção é a banalidade do ofício. E como os bons autores de policiais ressaltam este ponto. O leitor, hoje em dia, é convidado não só a participar da resolução de um crime, como também a compartilhar da vida do detetive. Problemas emocionais ou familiares, crises existenciais causadas pela inevitável decadência do corpo e até dúvidas religiosas. Mas sem – por favor! – pernosticismo.

Espinosa e Mandrake

Vale, porém, comparar esse parágrafo de Polzonoff com a apreciação que Dantas faz do delegado Espinosa e de Hugo Breno, outro personagem de Na multidão:

Ambos mantiveram hábitos bastante similares: são funcionários públicos, criados por mulheres sozinhas e, eles próprios, bastante solitários, e vivem uma rotina quase imperturbável: muito embora o trabalho de Espinosa não seja exatamente monótono, seu cotidiano doméstico é repetido livro após livro, bem como as tarefas burocráticas.

Dois parágrafos antes, Dantas escreve sobre Espinosa:

Em primeiro lugar, ele está visivelmente envelhecido. E, perto de completar cinqüenta anos, mantém os mesmos hábitos de pelo menos dez anos atrás [...].

Um ofício banal, a vida privada do detetive compartilhada pelo leitor: Espinosa parece ter as características que Polzonoff declara ausentes nos detetives da literatura policial brasileira. Com base nos livros de Garcia-Roza que li – O silêncio da chuva, Achados e perdidos, Vento sudoeste e o próprio Na multidão –, minha opinião pende para o lado de Dantas. Além disso, só em Achados e perdidos a corrupção policial é um assunto de destaque, e ela está integrada à trama: Espinosa e um delegado aposentado, ambos incorruptos, se tornam alvos de policiais que participam do tráfico de drogas e pensam que os dois querem entrar no negócio.

Espinosa não é um detetive perfeito – suas citações literárias são mesmo cansativas, mas para mim seu principal problema é ser pouco eficaz na hora de detectar e depender de coincidências improváveis para resolver seus casos – mas não vejo nele alguns dos defeitos que Polzonoff lhe atribui.

Quanto ao Mandrake de Rubem Fonseca, na minha lembrança ele é egoísta e pragmático, longe de ser um moderno Robin Hood tupiniquim, e sua relação com a classe alta passa pelo desprezo mas também por um inegável fascínio, especialmente em relação às mulheres. Nesse caso, porém, faz tempo que não leio os contos e romances em que o personagem aparece e posso estar falando besteira.

Literatura e ética?

Sobre a afirmação de que “toda a boa literatura policial lida com valores éticos claros”, não é preciso muito esforço para encontrar contra-exemplos. Dennis Lehane, em Sobre meninos e lobos e Gone baby gone (se o filme de Ben Affleck for fiel ao romance, que não li), abusa de personagens e situações ambíguas em termos éticos. George Pelecanos faz o mesmo, embora com menos talento do que seu colega e amigo Lehane, em Revolução difícil. E O destino bate à sua porta, de James M. Cain, vai além do ambíguo para se tornar abertamente amoral.

É verdade que esses são exemplos de literatura policial moderna, mas Sobre meninos e lobos, por exemplo, também se encaixa na definição de romance policial clássico – retomando as palavras de Polzonoff: “crime, apresentação dos suspeitos e do detetive, pistas e, por fim, a resolução”. E um olhar atento e uma imaginação fértil podem encontrar questionamentos éticos mesmo em alguns livros de Agatha Christie, como O caso dos dez negrinhos, O assassinato no Expresso do Oriente e Cai o pano, ou no tédio de Sherlock Holmes quando Londres está tranqüila e na sua excitação diante de um crime intrincado.

O dilema econômico da literatura de gênero no Brasil

Existe um dilema na literatura policial brasileira? Acho que sim, mas em vez da “sociologia de botequim” que Polzonoff modestamente diz fazer, prefiro encarar o problema sob a ótica econômica.

Os artigos de Maia e Polzonoff restringem a questão ao estado atual da literatura policial brasileira. Sendo ela uma escritora e ele um leitor assíduo do gênero, tal restrição é compreensível, mas nesse caso o problema se torna mais simples se a observação for mais ampla: a literatura policial brasileira contemporânea é quase inexistente, mas o mesmo pode ser dito da ficção científica, ou da literatura romântica, ou do romance histórico. Em outras palavras, o que falta no cenário literário nacional hoje não é apenas literatura policial, é literatura de gênero como um todo.

Só se sai relativamente bem no Brasil o gênero que chamo de “ficção literária” e muita gente chama de “literatura de qualidade”. Não gosto desta última definição porque ela sugere que esse tipo de literatura é intrinsecamente melhor do que os outros e minha experiência de leitor não me diz isso. Mas o nome do gênero é menos importante do que sua particularidade em relação aos outros.

A ficção literária é definida não pelo conteúdo mas pela forma: é a linguagem, não a trama, que define se um romance é ficção literária, o que explica por que certos livros podem ser vistos como fiéis representantes tanto dele quanto de outros gêneros. É o caso de Complô contra a América, de Philip Roth, ou A estrada, de Cormac McCarthy: o primeiro pode ser classificado como história alternativa e o segundo como ficção pós-apocalíptica, dois subgêneros da ficção científica, mas ambos são vistos como ficção literária devido ao estilo em que são escritos (e, de forma menos rigorosa, à carreira pregressa dos seus autores).

Por causa dessa preocupação com a linguagem, livros de ficção literária costumam ter um público menor do que os de outros gêneros e agradam mais a leitores particularmente dedicados, como críticos literários e outros escritores. Por isso, ser lido por poucos não é o fim do mundo para um escritor de ficção literária: se seus leitores forem as pessoas certas ele pode almejar outras recompensas, como prêmios e uma reputação de artista talentoso.

Bingo: o único gênero razoavelmente forte na literatura brasileira é aquele cujas recompensas aos autores são menos relacionadas à quantidade de pessoas que lêem seus livros. Dado o reduzido número de leitores no Brasil – assunto que abordei no artigo “Um país de não-leitores”, publicado no Palavra 16 – faz sentido que seja assim. E também faz sentido que, como escreveu Maia, não exista no Brasil a “noção de literatura de entretenimento” e o típico escritor brasileiro de romances policiais queira se dar “uma importância que não deveria ter”: ele sabe que não pode fazer como seus colegas estrangeiros e se contentar com o sucesso comercial, sem ligar para a recepção crítica da sua obra, porque, no Brasil, essa possibilidade – que muitos poderiam preferir ao mero sucesso entre os entendidos – praticamente não existe.

José Paulo Paes: literatura de entretenimento e literatura de proposta

No seu artigo, Polzonoff escreve que “o Brasil não precisa de bons autores de romances policiais se não faz questão disso”. É verdade. Mas aconselho quem gostaria de ter uma literatura nacional melhor a se interessar pela situação da literatura de gênero, ainda que ela não lhe pareça atraente, e pelo crescimento do público leitor, ainda que nem todos leiam “literatura de qualidade”. O motivo é perfeitamente explicado por José Paulo Paes em “Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)”:

Numa cultura de literatos como a nossa, todos sonham ser Gustave Flaubert ou James Joyce, ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie. Trata-se obviamente de um erro de perspectiva: da massa de leitores destes últimos autores é que surge a elite dos leitores daqueles, e nenhuma cultura realmente integrada pode se dispensar de ter, ao lado de uma vigorosa literatura de proposta, uma não menos vigorosa literatura de entretenimento.