logo

maio 2008



CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Calendário de inverno

— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.


Daniel Cariello

— Tá frio, né?

— O pior já passou.

— Passou por onde?

— Passou, acabou, c’est fini. Agora é primavera.

— É primavera, mas não impede de ainda estar frio.

— Você nunca tá satisfeito. Quanto é verão, reclama do calor. Quando é inverno, reclama que está gelado.

— São os ares parisienses.

— Que fazem o frio?

— Não, que me fazem reclamar.

— Bom, ao menos terminou a estação.

— Demorou, né?

— Isso é verdade.

— Sabe, contei quantos dias dura o inverno aqui.

— Ué, são três meses, como em qualquer país.

— Três meses no calendário, mas o "fator friaca" varia de acordo com a região. Ou você acha que as pessoas vão pegar uma praia na Antártida quando é verão por lá?

— C’est vrai.

— Então, quer acompanhar meus cálculos?

— Diga.

— Estamos de acordo que o outono é frio?

— Estamos.

— Então some outono e inverno. São 180 dias de temperaturas gélidas.

— Ok, 180. Mas resta meio ano de calor.

— Nada disso. A primavera tá aí e todo mundo ainda sai de casaco. Acrescenta mais 45 dias.

— Continua.

— E quando tá nublado? Já viu cidade pra ter um tempo mais feio do que Paris?

— Às vezes é dose mesmo. Deve ser assim uns 3 meses por ano, né?

— Exatamente. Mais 90 dias.

— Já são 315.

— E aí uma manhã você acorda e tá um tremendo sol lá fora. Animado, desce de bermuda e havaianas, mas congela até o pâncreas ao sair do prédio.

— É horrível.

— Ô, se é.

— De que lado fica o pâncreas mesmo?

— Sei lá. Do lado de dentro.

— Tá, gênio, continua...

— Então, ano passado houve 26 desses falsos alarmes.

— E você congelou os 26?

— Não, só 25. No último já estava esperto.

— Acho que o inverno gelou foi o seu cérebro.

— Tá somando ou não tá?

— Tô. Até agora deu 341.

— E ainda não citei as tempestades de verão, comuns por aqui. Li no jornal que foram 22 em 2007.

— Fazendo os seus cálculos, são 363 dias de frio. Ainda sobram 2 de sol.

— O quê? Não sobra nada. Esqueceu que recentemente nevou duas vezes?

— Você é brilhante mesmo...

— Minha mãe também acha.

— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando.

— É verdade. Não agüentava mais.

— E quais são seus planos?

— Eu vou pro Brasil.

— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?

— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.