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junho 2008



DOSSIÊ DNA

Genômica personalizada: utilidade duvidosa

A produção de testes customizados, que oferecem ao cliente uma previsão de risco para o desenvolvimento de doenças com fatores genéticos conhecidos, tornou-se um negócio altamente lucrativo. E a Google está investindo pesadamente no setor. Mas será que a informação genética pode ser tratada como outra informação qualquer?


Catherine Bourgain

Em sua edição de final de ano, na qual tradicionalmente costuma apresentar um apanhado das descobertas científicas mais notáveis que surgiram ao longo dos meses recentes, a revista semanal americana Science destacou como matéria de capa a questão das “variações genéticas humanas” [1]. Após áridos anos de pesquisas, financiadas por investimentos colossais, um número importante de resultados apontou os vínculos existentes entre as variações do genoma humano e doenças bastante freqüentes: o câncer de mama ou de próstata, a arteriosclerose, o diabetes, certas moléstias inflamatórias crônicas etc. Ou seja, elementos em quantidade suficiente para estimular novas linhas de pesquisa terapêutica e para aguçar o apetite de empreendedores em busca de mercados.

Foi assim que, no decorrer do mesmo ano de 2007, ao menos três instituições (23andMe, DecodeMe, Navigenics) se lançaram no mercado dos testes genéticos individuais. E cerca de vinte companhias estão operando atualmente no setor. Essa genômica personalizada constitui, principalmente, uma prestação de serviço ao indivíduo. Segundo a 23andMe, trata-se de “combinar a potência da Internet com a da genética”, de maneira a “permitir que os indivíduos sejam verdadeiramente atuantes na preservação da sua saúde”. Ou ainda, segundo a Navigenics, de “fazer com que a medicina passe de uma prática de tratamentos ministrados aos doentes para uma prática de prevenção das doenças por meio da detecção precoce das pessoas suscetíveis de desenvolvê-las” [2].

Essas empresas propõem aos clientes estudar o seu genoma e deduzir dos resultados os riscos que eles apresentam de desenvolver cerca de vinte doenças correntes para as quais fatores genéticos foram identificados. Além disso, a Navigenics, a 23andMe e a DecodeMe, atribuem a essas análises de DNA um uso lúdico: trata-se de retraçar uma genealogia, comparar a sua informação genética com a de familiares, amigos, artistas famosos, e, até mesmo, num futuro próximo, de “compartilhá-la” na Internet. “Nós estamos prevendo o advento de comunidades de um novo tipo, nas quais as pessoas se reunirão conforme os seus genótipos, derrubando com isso as barreiras artificiais que são os países e as raças”, explica Anne Wojcicki, co-fundadora da 23andMe [3].

A técnica que permite obter a seqüência completa de um genoma ainda tem custo elevado. Em conseqüência, as companhias examinam apenas algumas porções do DNA suscetíveis de variarem de uma pessoa para outra. Se dois indivíduos escolhidos ao acaso compartilham, em média, 99,9% da sua informação genética, os dados que se incluem na diferença de 0,1% são em grande parte localizados em segmentos específicos do DNA chamados snips [4].

Para os pesquisadores, esses pedaços de DNA, que variam de um indivíduo para o outro, apresentam grande interesse. Com efeito, o seu estudo permite identificar fatores genéticos que desempenham papel importante no desenvolvimento de certas doenças. Numa primeira etapa, é medida a freqüência das duas formas possíveis de um snip numa amostragem de doentes; então, essa freqüência é comparada com aquela medida em uma amostragem de não-doentes. Se forem observadas diferenças estatisticamente relevantes entre os dois grupos, o snip em questão passa a ser considerado como associado à doença. Abre-se, então, uma fase de pesquisas que visa compreender como esta variação do genoma contribui para o desenvolvimento da doença e como, a partir desse conhecimento, podem ser obtidos novos tratamentos.

As firmas que comercializam testes de DNA invertem a questão. Para elas, trata-se, antes, de associar a cada uma das duas formas do snip um risco de desenvolver a doença. Assim, o indivíduo portador da forma observada com maior freqüência nos doentes apresentará um risco mais relevante de contrair a doença no decorrer da vida. O grau desse risco pode ser precisado se outros snips, situados em outras partes do genoma, se revelarem igualmente associados à doença.

Risco não é sinônimo de fatalidade. Por um lado, o conjunto dos componentes genéticos foi desvendado apenas parcialmente. Por outro, muitos fatores ambientais que contribuem para explicar o aparecimento de uma doença (hábitos alimentares, tabagismo, exposição ao amianto, tratamentos hormonais etc.) não são levados em conta na avaliação dos riscos. Assim, quando Jeff Gulcher, co-fundador da DecodeMe, explica num vídeo, disponível no site da companhia [5]., que ele tem 61,75% de chances de desenvolver diabetes durante a vida (contra 25% na média européia) e que o seu risco de infarto do miocárdio é de 42% (contra 49% em média), ele deveria precisar que essas “previsões” foram calculadas sem levar em conta fatores tais como atividade física, tabagismo ou dieta alimentar.

Dirigindo-se aos céticos, Jeff Gulcher demonstra o grau elevado de acertos – sem mencionar a utilidade – dos seus cálculos. O seu genoma prevê que ele tem 92% de chances de ter os cabelos castanhos: o que é o caso. Os testes lhe prognosticam origens muito européias, ao mesmo tempo britânicas e continentais. Bingo: sua mãe é inglesa e seu pai alemão.

Do ponto de vista prático, as três companhias procedem em função de um mesmo modelo. Uma vez “aliciado” pelos anúncios apetitosos exibidos na internet, e tranqüilizado pela presença de renomados universitários nos conselhos científicos das companhias, o cliente (ou “membro”, como é chamado na Navigenics) deve estar disposto a abrir a carteira. Contra uma quantia entre US$ 985 e US$ 2.500, dependendo da prestadora do serviço, ele recebe um kit destinado à coleta de algumas células de sua parede bucal por meio de raspagem. Com seu genoma analisado, a informação é armazenada numa base de dados cuja segurança é “garantida”. E, dentro de um mês, poderá acessar pela internet suas informações personalizadas, que serão atualizadas posteriormente, ao sabor das novas descobertas científicas.

Portanto, é o cliente que, sem passar por nenhum intermediário médico, toma a iniciativa de contratar o serviço. Ele assim procede por concordar com o slogan “para nos tornarmos verdadeiramente ativos na preservação de nossa própria saúde”, conforme proclamam essas companhias, mas também “para passar longe do ceticismo do corpo médico”. Considerando que a desconfiança deste último só poderia se basear no desconhecimento das possibilidades abertas pela genética, a Navigenics empreendeu um programa educacional visando orientar os médicos. Contudo, o debate a respeito da realidade desta “revolução” também começou a agitar a comunidade dos geneticistas, poucos suspeitos de serem ignorantes na matéria.

Com efeito, enquanto os resultados científicos relativos às variações genéticas humanas abrem novas pistas para pesquisas, a sua relevância em matéria de prevenção ainda está por ser demonstrada. Em abril de 2008, por exemplo, os principais veículos da imprensa noticiaram a identificação de um fator genético do câncer do pulmão [6]. Ora, a tradução na escala individual dessa descoberta não é nem um pouco evidente. Estima-se atualmente que os europeus do sexo masculino não-fumantes apresentam 1% de risco de desenvolver câncer do pulmão antes de completar 75 anos, contra 16% de probabilidade para os fumantes. Com base numa referência genética, os pesquisadores distinguem agora duas categorias diferentes de fumantes: a primeira apresenta um risco de “apenas” 14% e a outra, de 23%. Portanto, a diferença de risco explicada por este fator genético revela ser muito menos importante do que aquela vinculada ao tabagismo [7].

Neste contexto, os pesquisadores se dividem entre os que consideram que a genômica personalizada é um “business arriscado” [8] e aqueles que a avaliam como um elemento “positivamente perturbador” [9] Para os primeiros, nada permite afirmar que os fumantes se mostrarão mais propensos a parar de fumar ao serem informados de que o seu risco de contraírem um câncer de pulmão não é mais de 16%, mas sim de 23%. Além disso, argumentam que os valores de risco utilizados nos cálculos se baseiam em resultados recentes, que requerem confirmação. Já os segundos consideram que informações personalizadas influenciam positivamente o comportamento sanitário das pessoas, incentivando-as a utilizar da melhor forma possível as “potencialidades do seu genoma” [10].

Para alimentar o debate, estudos que foram empreendidos nos Estados Unidos e na Inglaterra tentam determinar o impacto sanitário da informação genética sobre as doenças freqüentes. Algumas dessas pesquisas não escondem a sua evidente orientação preconcebida, como é o caso da enquête Multiplex, iniciada pelo Instituto Americano de Pesquisas sobre o Genoma, que visa a “compreender como utilizar, da melhor maneira possível, a genômica personalizada” [11]. Contudo, os resultados preliminares de um estudo inglês [12] sobre a doença de Crohn (enfermidade inflamatória crônica dotada de um componente genético bem caracterizado) mostram o impacto limitado da informação genética sobre o comportamento sanitário: o fato de os portadores da doença conhecerem o resultado de um teste genético que aponta aumento de risco de 2% para 4% devido ao tabagismo não parece ter impacto direto sobre seu comportamento tabagista.

Os interesses financeiros em jogo condicionam, evidentemente, a controvérsia. Em 2007, a Google investiu US$ 3,9 milhões no lançamento da 23andMe. E, por mais que tenha alimentado o rumor de que aquilo não passava de um presente de casamento do bilionário Serguei Brin, co-fundador da Google, para a sua mulher Ann Wojcicki, co-fundadora da 23andMe, o anúncio, em abril de 2008, da entrada da Google no capital da Navigenics desmentiu essa interpretação romântica.

Quando Francis Collins, diretor do National Human Genome Research Institute, dos Estados Unidos, e papa da genômica mundial, declara o seu apoio à 23andMe, durante o mais recente Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), o seu gesto visa tranqüilizar os políticos e os investidores: as quantias colossais investidas na abordagem genética da saúde – cerca de US$ 3 bilhões apenas para o projeto de Genoma Humano, entre 1989 e 2003 – estariam finalmente proporcionando seus primeiros frutos. Haveria melhor imagem de ciência eficaz e rentável do que este modelo, no qual toda descoberta, tão logo publicada na Science ou na Nature, passa a ser utilizada para recalcular o risco de uma doença?

Aos olhos de certos geneticistas, a publicidade em torno da comercialização dos testes de DNA é positiva: a constituição de séries muito amplas de amostragens destinadas a dar prosseguimento aos estudos será facilitada se qualquer pessoa – e não mais apenas os doentes – se conscientizar de que todas as doenças lhe dizem respeito. Menos filantrópicos, os laboratórios farmacêuticos também sonham com um mundo no qual todos nós seríamos “pessoas de risco”, e, portanto, clientes potenciais.

De um ponto de vista mais fundamental, as questões levantadas pelo desenvolvimento da genômica personalizada remetem a duas apostas estratégicas essenciais.

A primeira diz respeito à individualização das práticas de saúde. Sem surpresa, os apelos repetidos da 23andMe e de suas concorrentes a “assumirmos o controle de nossa saúde” fazem eco ao objetivo de “responsabilização dos usuários”, que se tornou a fórmula recorrente em vários sistemas de saúde ao redor do mundo [13]. Embora ninguém esteja cogitando proibir que alguns norte-americanos ricos se dêem de presente um horóscopo genético, a banalização dessas práticas poderia derivar rumo a uma culpabilização, muito além dos limites da sensatez, daqueles que, apesar de estarem cientes das suas predisposições genéticas, continuam comendo carne grelhada, por exemplo. Por parte das seguradoras, uma utilização deturpada dos testes de DNA consistiria em definir os preços das apólices em função dos riscos revelados pelos testes, e tornar os reembolsos proporcionais à observação, pelo segurado, de uma disciplina de vida em conformidade com seus genes.

Ainda não chegamos a esse ponto. Em solo europeu, o Conselho da Europa limita, por enquanto, o exame das características genéticas apenas a objetivos médicos ou de pesquisa, enquanto restrições similares estão sendo implantadas nos Estados Unidos. Além disso, as empresas de genômica personalizada garantem que o acesso aos bancos de dados é reservado exclusivamente aos clientes/membros. Por ocasião do lançamento da Navigenics, Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz de 2007, além de parceiro do fundo de capital Kleiner Perkins, o principal investidor da Navigenics, chegou a afirmar que essa empresa estava certa “tanto de um ponto de vista ético quanto cultural” e que ela tinha pela frente “a promessa de um grande sucesso”. Contudo, a entrada da Google no capital da Navigenics, ou seja, a aproximação de um gigante da gestão da informação e de um produtor de informação genética, não deixa de levantar uma interrogação: deve a informação genética ser tratada da mesma forma que qualquer outra informação?

[1] Science, 21 de dezembro de 2007.

[2] 23andMe , Navigenics , DecodeMe

[3] Citada pelo Washington Post, 25 de março de 2008.

[4] A palavra snip significa “retalho” em inglês. No contexto da genômica, é também uma alusão à sigla SNP, de singular nucleotide polymorphism (polimorfismo de nucleotídeo único).

[5] Veja mais

[6] Ver, por exemplo, o artigo de Ben Hirschler, “Cientistas localizam genes responsáveis pelo câncer de pulmão”, de 2 de abril de 2008.

[7] Dados publicados por Rayjean J. Hung e outros na revista Nature, Londres, 3 de abril de 2008.

[8] Editorial da Nature Genetics, dezembro de 2007.

[9] Editorial da Nature Genetics, fevereiro de 2008.

[10] Idem.

[11] NIH News, 3 de maio de 2007.

[12] Pesquisas do Dr. Marteau para o Medical Research Council, que foram apresentadas por ocasião da conferência “Genes, environment and health initiative: translating whole genome association data into clinical practice”, Bethesda, 10-11 de março de 2008.

[13] Ler François Cusset, “A ditadura da boa forma”, em Le Monde Diplomatique Brasil no 6, janeiro de 2008.