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junho 2008



LITERATURA

Palavra 32

Domingo
A voz do homem está mais baixa e rouca, como se ele fosse chorar. Aqui, ó, aqui! Os olhos parecem que vão saltar do rosto e rolar na sarjeta. Agarra a mão e guia para a virilha. Há ali uma coisa cega e sem nome
Aqui

Triste sina
Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista
Aqui

Pêlo amargo na narina
Ainda não havia feito a barba. Áspera. E, na narina, aquele pêlo. Pirata. Não, não era seu aquilo. Um pêlo que crescia de dentro pra fora, a incomodar-lhe, a roçar-lhe o buço, a lembrar-lhe a existência, minuto a minuto, a roubar-lhe tempo
Aqui

Seis
Para boa parte dos seguidores de Pitágoras, o divino Um era a manifestação inteligível do universo, o Dois colocava diante do homem a presença dos opostos, o Três escancarava os portais do múltiplo
Aqui


Rodrigo Gurgel

Viver significa submeter-se a um enigma: buscar um sentido onde não há sentido algum, a não ser, tão-somente, viver.

Será?

É o que me pergunto em algumas noites, olhando as estrelas ofuscadas pela poluição de São Paulo.

Às vezes, surge uma sombra de resposta, quase sempre nascida da leitura. É pouco para quem insiste em fazer perguntas. Mas um traço rápido pode, quem sabe, servir como um indício de algo, de alguma verdade. Os textos desta edição de Palavra são rastros assim, vestígios de consciência, pontos de luz furando a sombra: a Dedé enxovalhada de Neuza Paranhos, mas pronta a perceber a dor do outro; o terrível fado do homem-besta de Antônio Carlos Olivieri, atado à condenação mais atroz; as unhas roídas de Lutércio, ansioso, angustiado, preso aos detalhes tristes que Teresa Candolo lhe pespegou sem piedade; e a falácia dos números que Diego Viana revela.

Cada um desses textos, um prisma através do qual olhamos, apenas para encontrar, multifacetada, a nossa própria humanidade.

Boa leitura e até a próxima semana.

Rodrigo Gurgel, editor de Palavra.