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junho 2008



LITERATURA

Uma simples pergunta ou um profundo questionamento?

A literatura me atraiu porque nela encontrei histórias distintas, personagens mais humanos do que os reais, mundos que talvez eu nunca alcance


Renata Miloni

Muito se reclama sobre a freqüência com que a seguinte questão é levantada: por que se escreve? Num primeiro instante, tal pergunta pode ser apenas um clichê ecoado. Mas e se analisarmos? Talvez existam nela intenções muitas vezes nobres que, infelizmente, são encobertas por apontamentos contrários, quase sempre em maioria.

Quando algo assim é perguntado à exaustão, com as devidas exceções, tudo se resume a uma efêmera curiosidade? Será toda curiosidade efêmera ou é possível não se satisfazer com uma simples resposta?

A literatura me atraiu porque nela encontrei histórias distintas, personagens mais humanos do que os reais, mundos que talvez eu nunca alcance. E com ela aprendi o que é autenticidade, mesmo que pela contramão. Mas nela me mantive porque sempre desperta questionamentos e neles a fonte de alimento é infindável.

Os escritores escrevem porque querem, porque precisam, porque gostam. Mas há aqueles que o fazem principalmente para ler. Eles provavelmente partem de um princípio um pouco complicado de lidar, tamanha a urgência que têm das palavras. Seria um outro tipo de alimento, talvez para o ego, talvez o mesmo?

Creio que quando um escritor chega ao ponto de ter em seu próprio livro aquele que gostaria de ler, o ego não é um dos primeiros sintomas a se manifestarem — apesar de, em outros casos, o ego ultrapassar tudo isso e resultar em uma literatura estagnada.

Faço referência aos que escrevem para ler não por quantidade, mas porque vêem neles mesmos mundos ainda inéditos. Sim, as pessoas que insistem em dizer que tudo já foi escrito (eu também digo às vezes, mas tenho lá minhas dúvidas) talvez sejam as mesmas a afirmarem que todos somos diferentes (caso contrário, o exercício da individualidade [1], por exemplo, não teria razão de existir).

O intuito não é se satisfazer, agradar leitores ou se expressar. Trata-se da leitura em forma plena, a possibilidade de ser alheio a si mesmo enquanto escreve, para se encontrar com surpresa nas palavras que, de certa forma, não partiram de sua consciência — talvez de uma outra freqüência dela.

Talvez alguém que decide perguntar a um escritor qual o motivo de escrever não entenda exatamente a importância do assunto, inclusive quem resolve escrever sobre isso (como agora). Não sei se é certo um escritor se perguntar todos os dias por que fez essa escolha. Mas também não é errado que assim se questione de vez em quando. E que desse questionamento nasçam diversos outros mais detalhados.

É uma pergunta que não traz nem impede a "inspiração" e jamais vai mudar qualquer aspecto ou rumo da literatura. Só que, ainda assim, tem algo de saudável se entregar a essa pequena indagação e até se revoltar contra ela. E a palavra, mesmo que freqüentemente maltratada, estará disponível e disposta, logo ali.

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