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julho 2008



LITERATURA

Vice-Verse 4

No quarto número de nossa seção Vice-Verse, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle e dedicada a traduções de poesia e prosa em língua inglesa, apresentamos poemas de Ezra Pound, do livro "Lustra".


Dirceu Villa

Ezra Pound (1885–1972) foi um dos poetas mais importantes do século XX, autor de uma obra complicada e polêmica, principalmente por seu livro mais importante, The Cantos, um longo épico fragmentário. Também é difícil medirmos o alcance de suas contribuições heterodoxas para a crítica literária, ou a extensão de sua enorme influência, além de ser sempre necessário mencionar a quantidade de autores que ajudou com empenho pessoal.

O livro de onde vieram os poemas a seguir é Lustra, publicado em 1916, em Londres. Com ele, Pound desenvolveu o estilo e as vozes que seriam as mais marcantes em sua carreira literária. Poucos, mas bem poucos mesmo se recordam de seu estilo anterior a Lustra, que, com poucas exceções, se constituía de uma pesquisa formal que amontoava principalmente trovadorismo provençal, stilnuovismo italiano, Villon, Browning e Yeats. Não foi esse o Pound que ficou, no entanto. Diferente de muitos poetas europeus e americanos modernos, Pound encarecia um sentido ativo de tradição, e portanto trazia em seus poemas um jogo complexo do que chamou, em latim, personae (máscaras), nas quais aproveitava modificando o seleto grupo de autores que compunha sua noção canônica de paideuma, definida mais ou menos como uma organização do essencial em conhecimento poético.

O sentido crítico encontrado nas paródias e no uso de epigramas se afirmou em Lustra, e ganharia depois versões mais sutis e complexas em poemas subseqüentes, como “Homage to Sextus Propertius” e “Hugh Selwyn Mauberley”. Lustra também traz a primeira investida poundiana sobre a cultura japonesa e chinesa, apropriando-se da forma do haicai e das odes chinesas, de que faria dois livros de traduções, paráfrases e reinvenções: Cathay (1915) e The Classic Anthology Defined by Confucius (1954).

Por fim, Lustra traz dois poemas, “Província Deserta” e “Near Perigord”, que ― sobretudo o primeiro ― adiantam o tipo de linguagem compósita e cubista elaborada para suportar as mais diversas inclusões de documentos, citações, paráfrases, poesia original, traduções, reminiscências, etc. que formam The Cantos, o poema escrito durante mais de 50 anos, uma obra que ainda causa perplexidade mesmo em leitores especialistas.

Traduzi Lustra completo em 2003, trabalho que permanece inédito, apesar da enorme importância de seus textos. Aqui, temos sobretudo os poemas epigramáticos. Boa leitura.

THE GARDEN
En robe de parade.

—Samain
Like a skein of loose silk blown against a wall
She walks by the railing of a path in Kensington Gardens,
And she is dying piece-meal
of a sort of emotional anæmia.
And round about there is a rabble
Of the filthy, sturdy, unkillable infants of the very poor.
They shall inherit the earth.
In her is the end of breeding.
Her boredom is exquisite and excessive.
She would like some one to speak to her,
And is almost afraid that I
will commit that indiscretion.

O JARDIM
En robe de parade.

—Samain
Como a meada de seda suave presa a um muro,
Ela costeia as cercas de uma senda em Kensington Gardens,
E pouco a pouco morre
de um tipo de anemia emocional.
E lá por perto anda a ralé
Dos filhos fétidos, robustos e imortais dos muito pobres.
Eles vão herdar a terra.
Nela está o fim da estirpe.
Seu tédio é excêntrico e excessivo.
Ela gostaria que alguém lhe falasse,
E quase tem medo de que eu
vá cometer a indiscrição.

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PAGANI’S, NOVEMBER 8

Suddenly discovering in the eyes of the very beautiful
Normande cocotte
The eyes of the very learned
British Museum assistant.

NO PAGANI’S, 8 DE NOVEMBRO

Subitamente descubro nos olhos da mui bela cocote normanda Os olhos do mui sabido assistente do Museu Britânico.

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TS’AI CHI’H

The petals fall in the fountain,
the orange-coloured rose-leaves,
Their ochre clings to the stone.

TS’AI CHI’H

As pétalas caem na fonte, folhas de rosa cor-de-laranja, Seu ocre apega-se à pedra.

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SALUTATION

O generation of the thoroughly smug
and thoroughly uncomfortable,
I have seen fishermen picnicking in the sun,
I have seen them with untidy families,
I have seen their smiles full of teeth
and heard ungainly laughter.
And I am happier than you are,
And they were happier than I am;
And the fish swim in the lake
and do not even own clothing.

SAUDAÇÃO

Ó geração de afetados completos
e completamente deslocados,
Eu vi pescadores em piqueniques ao sol,
Eu os vi com suas famílias em farrapos,
Eu vi seus sorrisos cheios de dentes
e ouvi gargalhadas infrenes.
E eu sou mais feliz do que vocês,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não têm nem o que vestir.


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