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agosto 2008



ECONOMIA MUNDIAL / DO BOOM AO CRASH

Alan Greenspan e a instabilidade

Gérard Duménil e Dominique Lévy

Em julho de 2005, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, exigiu que os riscos de inadimplência das famílias fossem bem avaliados. Recorreu às lições do passado: “A história ensina que os períodos de relativa estabilidade geralmente engendram expectativas irrealistas quanto à sua continuidade e podem levar a excessos financeiros e a tensões econômicas”. Tal declaração demonstra, retrospectivamente, que ele não ignorava a tempestade que se acumulava no horizonte. Greenspan teve de enfrentar a crise de 2001.

Mas dentro da bitola neoliberal. Isto é, sem regulamentar o setor financeiro (coisa, aliás, que teria emperrado as engrenagens do incentivo ao consumo mediante a facilidade do crédito); sem questionar o livre-comércio, e sem restringir a mobilidade internacional dos capitais.

Portanto, seu remédio consistia em crédito e somente crédito (inclusive por meio do endividamento público). Tratava-se de optar pelo pior para não tocar no “essencial”. Greenspan observou a tripla expansão do endividamento das famílias, do consumo e dos desequilíbrios externos que o tratamento da crise de 2001 acabou por intensificar. Ele precisava frear a máquina infernal. Também estava consciente da deterioração da situação do mercado imobiliário e dos correspondentes mecanismos de crédito. Vendo a saída da recessão de 2001 se confirmar, desencadeou um processo gradual de elevação das taxas de juros dos “fundos federais”: lentamente, o mais gradualmente possível, 17 pequenos passos de 0,25%, entre junho de 2004 e junho de 2006.

Esse procedimento que visava desacelerar o aumento do endividamento pela alta das taxas de juros finalmente deu certo, mas, em vez da esperada aterrissagem suave, o edifício financeiro ficou desestabilizado. É justamente isso que significa “instabilidade”. As variáveis deixam de ser controláveis e um impulso a mais provoca o naufrágio.