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março 2002



LITERATURA

Quando a morte vem do céu

Do nascimento à utilização das bombas, ontem, como hoje... sempre contra os “selvagens”. Em Maintenant, tu es mort, um ensaio bastante original, o romancista sueco Sven Lindqvist reconstitui, na forma de artigos curtos, a história dos bombardeios, do qual publicamos alguns trechos


Sven Lindqvist

Uma ilustração de Robur, o conquistador (1886), de Júlio Verne, mostra uma nave espacial deslizando majestosamente sobre Paris, capital da Europa. Seus imensos feixes luminosos iluminam as águas do Sena, o cais, as pontes, as fachadas. Surpresos, porém confiantes, os homens olham para o céu.(...)

Na imagem seguinte, uma nave espacial plana sobre a África, tão majestosa quanto inacessível. Porém, nesse caso, ele não se contenta em iluminar. (...) Em nome dos evidentes direitos do homem civilizado sobre o homem de cor, (...) as armas da nave espacial cospem a morte sobre os negros criminosos que, gritando de terror, tentam escapar ao fogo mortífero.

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O piloto é visto como um policial, a bomba como um cassetete – essa idéia já havia sido desenvolvida por R.P. Hearne em Airships in Peace and War (1910). As expedições punitivas tradicionais são custosas e tomam tempo, (...) enquanto um castigo vindo do ar pode ter um efeito imediato, por um custo muito mais módico.

(...) Em 1912, quando os franceses enviaram seis aviões para efetuar operações policiais no Marrocos, os pilotos escolheram alvos importantes – vilarejos, mercados, rebanhos nos pastos –, senão as bombas não atingiriam o objetivo. No ano seguinte, os espanhóis começaram a bombardear “sua” parte do Marrocos utilizando bombas de fragmentação alemãs, cheias de explosivos e bolas de aço – bombas especialmente fabricadas não para ter um efeito concentrado, mas para abranger o maior número possível de alvos vivos.

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Mohammed Abdille Hassan, chamado pelos inimigos “the Mad Mullah” (da Somália) era, em 1917, um espinho na pata do leão britânico, e já havia muito tempo. (...)

Mohammed Abdille Hassan jamais vira um avião em sua vida e, menos ainda, uma bomba. Não teve medo. Procedeu como de hábito, quando recebia uma visita: vestiu suas melhores roupas e, rodeado por seus conselheiros mais eminentes, ficou em pé, diante de sua casa, sob o baldaquino branco reservado para as ocasiões solenes. E esperou tranqüilamente a chegada dos emissários estrangeiros.

A primeira bomba quase já pôs fim à guerra. Matou os conselheiros de Mohammed (...). O bombardeio seguinte matou sua irmã e vários membros de sua família. Durante dois dias, os bombardeiros britânicos atacaram Mohammed e o que sobrou de sua família, enquanto estes fugiam pelo deserto como animais acuados, até que finalmente se renderam.

Tempo de duração: uma semana, e não um ano. Custo total: 77 mil libras. Uma mixaria, ao lado do que havia pedido o exército. Churchill ficou encantado. (...)

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Como tantas outras potências coloniais, os britânicos bombardeavam, havia muitos anos, os súditos recalcitrantes de suas colônias. Começaram em 1915 com os Pathan1, na fronteira noroeste da Índia.(...)

Em 1916, os ingleses bombardearam os egípcios insurrectos e o sultão rebelde de Darfur, no Sudão Ocidental. Em junho de 1917, os bombardeiros reprimiram a revolta de Mashud, na fronteira do Afeganistão. Em 1919, durante a terceira guerra afegã, o chefe da esquadra britânica, Arthur Harris, bombardeou Dacca, Djalalabad, e Cabul2. Em suas memórias, ele conta que uma simples bomba de dez quilos sobre o castelo do rei afegão decidiu o final da guerra. (...) No mesmo ano, os egípcios exigiam a independência e a Royal Air Force enviou três esquadras para controlar a insurreição. Em 1920, em uma tentativa de criar um reino vassalo da Grã-Bretanha, Enzeli, no Irã, foi bombardeada. E, na Transjordânia, os britânicos esmagaram uma revolta utilizando bombas e provocando duzentas mortes.

Dez anos depois da primeira bomba, as coisas já haviam se tornado rotina. Já no Iraque, a missão era outra. Chamava-se “controle sem ocupação”(...).

Em princípio, a população deve ser prevenida antes de um bombardeio. Em princípio, os objetivos são casas, rebanhos e guerreiros, e não velhos, mulheres e crianças. Mas, na prática, as coisas nem sempre são assim. O primeiro relato de Bagdá descreve um ataque aéreo criando o pânico entre os nativos e suas famílias. “Muitos tentavam fugir saltando para a água, e tornando-se alvo fácil para as metralhadoras.”

Churchill pediu para não receber mais relatórios daqueles. “Estou extremamente chocado pela passagem que descreve o bombardeio, que assinalei em vermelho. Se fosse publicado, desonraria a força aérea. (...) Atirar, deliberadamente, sobre mulheres e crianças que tentam refugiar-se na água de um lago é um ato escandaloso, e surpreende-me que os oficiais responsáveis não tenham sido enviados a um tribunal militar.”

(...) Churchill queria resultados, porém não queria saber como eram obtidos.

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Em fevereiro de 1923, Lionel Charlton, oficial do Estado-Maior recém-chegado a Bagdá, visitou o hospital de Diwaniyya. Esperando encontrar diarréias e pernas fraturadas, deparou, de repente, com o resultado de um ataque aéreo britânico. Aí, a diferença entre um cassetete de polícia e uma bomba saltava aos olhos brutalmente.

Enquanto oficial, não faria qualquer objeção, caso se tratasse de uma guerra ou de uma insurreição ostensiva, mas aquele “bombardeio cego contra uma população, com o perigo de matar mulheres e crianças, parecia um massacre gratuito”.

Logo um outro xeque levantaria o estandarte da revolta e deveria ser punido. Mas atacar diretamente sua pessoa, de 1.000 metros de altura, não era fácil. (...) Seria possível fazer uma cidade inteira pagar pelos crimes de um único homem? E, além disso, seria ele, de fato, um criminoso? (...) Bombardear uma cidade dessa maneira foi uma forma de despotismo que talvez tenha provocado ainda mais ódio contra os britânicos. (...)

Como era de esperar, umas vinte vítimas, mulheres e crianças, morreram quando o xeque revoltoso foi bombardeado. Charlton não agüentava mais. Pediu para ser transferido do posto por motivo de consciência. O quartel-general enviou-o à Inglaterra, onde passou à reserva em 1928.

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Foi Abu Hanifa, grande legislador persa e fundador da Academia de Direito em Bagdá, o primeiro a proibir a morte de mulheres, crianças, velhos, doentes, sacerdotes e de qualquer combatente. Condenou também a violação e execução de reféns. Não se sabe muita coisa sobre ele, exceto que foi feito prisioneiro em 792, depois de uma tentativa de insurreição, e que morreu cinco anos depois, na prisão.

A moral a que Charlton se referia foi formulada no Iraque, muito antes que a civilização chegasse às ilhas britânicas. Ainda no século VIII, quando o Islã conquistou o Oriente Médio e a África do Norte, e penetrara na Europa por duas frentes, no momento de seu apogeu, um legislador, em Bagdá, tentava humanizar a guerra, instaurando regras que seriam aceitas na Europa várias centenas de anos mais tarde. Mas nem sempre seriam aceitas, ou, pelo menos, não seriam aplicadas, quando se tratava de pessoas de cor. (...)

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Os britânicos não foram os únicos a bombardear suas colônias até a submissão. Os espanhóis foram ainda mais brutais, no Marrocos. Em 29 de junho de 1924, vinte aviões espanhóis lançaram seiscentas bombas na região próxima a Tetuan, causando enormes perdas civis. (...) A aviação explodiu casas, queimou colheitas e pulverizou vilarejos com gás mostarda.

O gás fora proibido pela Convenção de Genebra de 1925. No verão de 1925, a Cruz Vermelha pediu autorização para enviar inspetores ao cenário de operações para apurar as acusações de uso do gás. Os espanhóis recusaram-se. No entanto, aceitaram de bom grado dois militares alemães (...), “para adquirir experiência em ataques aéreos com gás”.

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Simultaneamente, ocorria na Síria uma insurreição contra o império colonial francês (...). Foram dirigidos ataques maciços contra Hama e Suayda, mas foi o bombardeio dos bairros muçulmanos de Damasco, no domingo, 18 de outubro de 1925, que iria provocar o debate. Fez mais de mil vítimas.

Os sírios protestaram, invocando as leis da guerra, que proíbem o bombardeio de cidades indefesas. (...)

Depois de ter analisado o caso, o jurista norte-americano Quincy Wright, especialista em direito internacional, desenvolveu duas teorias (...). De acordo com a primeira, a Síria, como todas as sociedades não-européias, situa-se completamente fora do direito internacional. E ainda segundo essa teoria, há três tipos de humanidades: a civilizada, a bárbara e a selvagem. O direito internacional só reconhece plenamente a humanidade civilizada. (...)

Já segundo a outra teoria, o direito internacional não poderia ser aplicado ao bombardeio de Damasco, uma vez que a ação da França na Síria era um assunto interno francês. A Síria certamente não era uma parte da França, mas os franceses estavam na Síria (assim como os ingleses, no Iraque) a pedido das Sociedade das Nações. Manter a ordem fazia parte da missão. (...)

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Os bombardeios britânicos passaram quase desapercebidos na Suécia. Mas, em 1935, o ataque italiano contra a Etiópia provocou uma indignação geral. A Etiópia era o único país africano que havia conseguido manter sua independência e tornar-se membro da Sociedade das Nações. A Suécia mantinha relações com a Etiópia havia muito tempo (...) Quando as bombas caíram sobre a Etiópia, estavam bem mais próximas do que as que haviam caído sobre o Iraque ou o Marrocos.

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Em dezembro de 1935, os italianos usaram gás lacrimogêneo. Em janeiro, o gás mostarda. Gunnar Agge viu gotas de um líquido semelhante ao azeite espalharem-se em torno das crateras das bombas. “Assim que as gotas tocavam os pés descalços, as pernas ou as mãos dos soldados, formavam-se grandes bolhas sobre a pele. (...) Cegos e quase asfixiados, afastavam-se, cambaleantes, para os arbustos, e ficavam caídos no chão até que seus camaradas os encontrassem. Longe das crateras das bombas, as folhas e a vegetação respingadas pelas gotas amareleciam e morriam. (...)”

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Em maio 1936, os italianos tomaram Adis Abeba, e Mussolini declarou que a guerra acabara. Em 30 de junho de 1936, perante a Sociedade das Nações, o imperador no exílio, Hailé Selassié, apelou, por uma última vez, à consciência mundial: “Não foi apenas contra soldados que o governo italiano fez a guerra. Atacou prioritariamente as populações distantes da zona de operações, para aterrorizá-las e exterminá-las. (...) Foram instalados difusores de gás mostarda nos aviões para que espalhassem sobre vastos territórios a chuva fina de veneno mortal. (...) Essa horrível tática venceu. Homens e animais pereceram. Todos os que eram tocados pela chuva da morte fugiam, urrando de dor. Todos os que beberam água envenenada e comeram alimentos infectados sucumbiram com sofrimentos atrozes”.

O discurso do imperador perdeu-se em meio ao barulho dos assobios dos jornalistas italianos. Quatro dias mais tarde, a Sociedade das Nações reconheceu a conquista da Etiópia e suspendeu as sanções contra a Itália.

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(…) Um quarto de século após o primeiro ataque à bomba, continuam sendo africanos, árabes e chineses os bombardeados. E nós, europeus, continuamos a ver os aviões no céu, com a certeza impassível que nada pode nos acontecer. Afinal, já somos civilizados...

Porém, sob essa calma superficial, agitam-se pesadelos. Nossos fantasmas mudam de aparência. (…) Enquanto bombardeamos, de fato, povos de outras raças, produzimos pesadelos em que somos, nós mesmos, os bombardeados. (Trad.: Teresa Van Acker)

1 N.T.: Pathan ou Pashtu, etnia predominante no Paquistão e no Afeganistão. 2 N.T.: Dacca, capital do Estado de Bangladesh; Cabul, capital do Afeganistão.