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setembro 2008



LITERATURA

O fazedor de humanos

As lições de um velho mestre incluem algo que deveria ser essencial para todos: a literatura


Renata Miloni

Em tempos que a ficção parece ser contínua apenas para aqueles que querem atingir um único público, o escritor carioca Rodrigo Lacerda publica um romance infanto-juvenil que deveria ser leitura essencial para jovens rabugentos e "adultos" rebeldes tentarem compreender certos valores da vida.

O fazedor de velhos (Cosac Naify, 2008) é o registro de alguns momentos decisivos da vida de Pedro. Desde criança, quando sua mãe obrigava tanto ele quanto sua irmã a fazerem sessões diárias de leitura, até a iniciação teórica da fase adulta. Teórica porque, segundo a "sabedoria popular", uma pessoa começa a se tornar adulta quando descobre o que realmente quer fazer. Por quantas portas essa descoberta pode chegar? E quanto tempo isso demora de fato?

Por seguir uma ordem cronológica natural, o início do livro, narrado pelo próprio protagonista, tende a se assemelhar com a suposta escrita de Pedro naquela época. Apesar de deixar claro que se trata de uma narração sobre o passado, o tom usado pelo autor tem essa pequena falha de se apoderar demais da forma expressiva do personagem na sua adolescência, por exemplo. É um ponto logo controlado e a história segue sobre outras fases, narrada devidamente consciente do momento em que se encontra seu dono.

A narrativa é bastante simples, o autor não tenta ir além do que a história pede, inventar novas estruturas ou seguir outros padrões. É exatamente a simplicidade que dá às palavras no livro todo esse encantamento, que muitos "marmanjos" podem considerar pequeno por falta de costume, presente de maneira mais intensa à medida que a inspiração aumenta.

No último ano do colegial, Pedro se apaixonou por sua melhor amiga, que vivia outras dificuldades amorosas e não era capaz de retribuir os sentimentos dele. Enquanto convivia com essa decepção, foi escolhido como orador da turma na formatura, para a qual estava bastante preparado. Saía-se muito bem até avistar um rapaz desconhecido se sentar ao lado de sua amada e beijá-la. Uma leve tontura atrapalhou um pouco o discurso, que teve de ser diminuído para que aquela humilhação terminasse logo. Assim, a festa perdeu qualquer importância para Pedro, já que não se interessava por nada que acontecesse ali. Foi quando subiu ao palco um antigo professor do colégio, homenageado da festa. Não demorou muito para Pedro perceber que se tratava do mesmo senhor que conheceu dois anos antes numa ocasião desesperadora, considerado o valor que damos a certas situações quando adolescentes.

Aqueles não seriam os únicos encontros que teria com Nabuco, o professor. Já na faculdade de História, Pedro se viu numa crise: será mesmo que fez a escolha certa? Apesar de gostar das matérias, era suficiente para que seguisse a vida baseado nelas? As dúvidas o levaram a pedir ajuda a um de seus professores, que indicou outra pessoa para tentar resolver tamanho impasse, alguém que já tinha feito mais do que isso por ele.

Encontro com Shakespeare

Às vezes, a pressão exercida sobre os jovens em época de vestibular, por todos os "membros da sociedade", pode interferir nas decisões. Pode também passar despercebida, deixando o aluno tranqüilo em relação à sua escolha quando, na verdade, a identificação jamais foi suficiente. Talvez tenha sido o caso de Pedro: sua segurança enfeitou o curso escolhido por um bom tempo.

Um encontro foi marcado e novamente o rapaz não demorou a reconhecer que era ele, Nabuco, quem aparentemente o destino queria que permanecesse em sua vida. A antipatia inicial do professor o incomodou um pouco, mas havia algo ali que não dispersava seu interesse. Para saber se ele deveria ser mesmo historiador, Nabuco lhe pediu uma tarefa com a intenção de entender o estudante como pessoa, não como profissional. "Para saber se realmente é o caso de o senhor abandonar a faculdade e, se for, que nova profissão o faria feliz."

A tarefa escolhida foi ajudar o professor numa pesquisa sobre as frases-chave em três obras de Shakespeare. Aceito o desafio, apesar de não ter vontade de ler algo que não conseguia entender, Pedro foi além do solicitado (mesmo não encontrando qualquer frase-chave) — o que fez com que o professor o convidasse para outra pesquisa, desta vez sobre a natureza humana. É neste ponto que Nabuco passa a ver em Pedro alguém capaz de superar até dores de extrema intensidade para chegar onde quer.

A nova união surgiu, algo que, logo nas primeiras semanas, já era possível suspeitar que se transformaria numa relação entre mestre e discípulo. Mas nada disso teria início se Pedro não fosse alguém capaz de acreditar que algum tipo de salvação, talvez uma inspiração, pode ser encontrado no próximo. E disso nasceu uma belíssima nova etapa da pesquisa. Primeiramente de superação de egos, de ambas as partes, para que, depois de caídas as máscaras, a verdadeira experiência de vida ajudasse o jovem como ele no fundo precisava — o que não impediu, muito pelo contrário, a possibilidade de surgir um novo amor na vida de Pedro enquanto fazia seu trabalho. Terá sido ele um daqueles jovens movidos a decepções amorosas ou alguém que se alimenta de amores idealizados? Ou não?

Qualquer inspiradora resposta é possível encontrar no texto de Rodrigo Lacerda, dentro ou fora das entrelinhas – e de tudo o que deveria motivar as pessoas a entenderem o que a vida pode ser, se fizermos da procura incansável uma aliada da sabedoria.