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agosto 2001



ENSAIO

Um novo projeto universal

É universal o que é comum a todos os seres humanos. A globalização apresenta-se como um novo projeto de vocação universal com o objetivo de unificar o mundo. A idéia de viver num mundo sem terra incognita parece tanto mais repulsiva quanto mais atraente for


Denis Duclos

Modelos de divisão desigual

Menos de três séculos depois do início da fúria escravagista, hoje já não é possível distinguir oficialmente “raças superiores” e “raças indígenas”

Certamente, as sociedades dominantes mantêm a diferença pela dominação, seja tutelando o hemisfério Sul, ou restringindo seu acesso a remédios; porém, essa legitimidade também se enfraquece. Em resumo, o Outro (o inferior, o fraco, o Terceiro ou o Quarto Mundo etc.), seja ele migrante ou não, é convocado a tornar-se o Si, o Mesmo. A universalidade é identidade entre todos, ou não o é.

Diante da crescente ineficiência dos modelos de divisão desigual contra o avanço do universal, inventamos as separações horizontais entre povos, ou exércitos, mais ou menos iguais em “nível de civilização”. E precipitamo-nos uns contra os outros com um ardor tanto maior por sabermos que somos próximos, separados por sinais sutis (kultur germânica contra lumières francesas), ou por nuanças de opinião (ditadura dos Mercados contra ditadura dos Estados).

O ideal de uma Polis global

O Outro, seja ele migrante ou não, é convocado a tornar-se o Si, o Mesmo. A universalidade é a identidade entre todos, ou não o é

Também aí, o pensamento que constrói a história foi mais rápido do que nossas tentativas de fixar “concorrências estratégicas”. A universalidade que cada um pretendia encarnar sozinho, contra todos os outros, avançou, alterou os prognósticos. Era tida como imperial e britânica? Seria capitalista e norte-americana. É concebida como “internetizada” e controlada pela espionagem comercial e militar norte-americana? Eis que nela explodem programas livres e redes múltiplas cuja centralidade é muito difícil definir. Desejava-se que fosse controlada pela liderança de uma “Única potência mundial”, e eis que ela se orienta em direção a uma sociedade-mundo, a única a controlar crises, tempestades e desastres planetários gerados pela anarquia industrial e financeira.

Em síntese, quanto mais a realização do universal se impõe (física, econômica, científica, informativa, política), mais nossas antigas técnicas para controlá-lo – fragmentando-o, separando seus poderes, opondo culturas – parecem inadequadas, pouco desejáveis, e mesmo insignificantes. A esfera única está em vias de se renovar, como uma pele imaginária cobrindo o planeta, enquanto a condenação étnica dos “recuos identitários” se torna mais poderosa e, dispondo agora de órgãos judiciários (Tribunal Penal Internacional) e policiais (forças da ONU e da Otan) à altura do ideal de uma Polis global (ainda que sejam considerados insuficientes).

Reações ao avanço universal

A universalidade orienta-se para a sociedade-mundo que controla crises, tempestades e desastres planetários, frutos da anarquia industrial e financeira

Entretanto, se há alguma verdade na nossa hipótese, a angústia de estar atado ao Grande Todo deveria explodir. O pânico de absorver o Outro em Si deveria aumentar. O que iremos ainda imaginar para exorcizar essa presença cada vez mais próxima da tão maravilhosa, mas talvez irrespirável, unificação humana?

Redividir a humanidade entre cruzados da universalidade e reacionários identitaristas pode parecer uma solução; todavia, com uma certa inconsistência: dividir em nome da unidade, estigmatizar minorias em nome de um Todo... que as inclui. E, por outro lado, ao transformar o inimigo externo em criminoso interno, esta solução considera potencialmente delinqüente qualquer oposição ao ideal comum, trata como infração ao direito comum qualquer resistência frontal à ordem única.

Isto não é claramente percebido pelos honestos militantes (ONGs humanitárias ou administradores internacionais, virtuais executivos do futuro Estado mundial) que se afirmam na luta contra os inimigos do ideal unitário. E também não deixa de ser uma fonte de reações aterrorizadas com o avanço do universal, acarretando os problemas característicos da época.

O imaginário de um novo dilúvio

O que iremos ainda imaginar para exorcizar essa presença cada vez mais próxima da tão maravilhosa, mas talvez irrespirável, unificação humana?

Parece que o atual binômio temor/fascínio pelo universal assume duas formas principais, relacionadas entre si: inicialmente expressa-se como o terror de ver nossos corpos absorvidos pelo pensamento racional que pretende reuni-los na gestão tecnológica de suas atividades, e, assim que possível, da vida. A mesma ambivalência do universal manifesta-se no desejo e no medo de limitar o futuro de nossos filhos e de nossa descendência mais longínqua por uma norma previamente fixada.

Reconhecemos no registro do exagero o atual medo crônico da mudança climática, vista como uma submersão gigantesca de terras habitadas. A convicção científica sobre a realidade do efeito-estufa (a administração da prova choca-se, sempre, com o limite intrínseco dos modelos climatológicos) não deve ser confundida com o imaginário de um novo dilúvio, desta vez planetário. Desenha-se, então, uma cartografia da divisão da humanidade: os futuros países “emergentes” (no sentido material, e não como mera metáfora econômica), capazes, através de proezas técnicas, de se adaptarem a mudanças ecológicas, enquanto outros serão, efetivamente, tragados.

A perspectiva universal atrai e atemoriza porque representa para os humanos a supressão da alteridade, o que é um desejo narcisista profundo; no entanto, o mesmo movimento suscita as mais fortes angústias1 : quem somos nós, que suprimimos o Outro? No que nos transformaremos, se, semelhantes e solidários por direito único, permanecermos solitários diante do cosmos mudo?

Bem antes de sabermos traçar o meridiano na superfície da terra, marinheiros e missionários duvidavam se poderiam manter a ficção de uma diferença radical entre eles e os “homens selvagens” descobertos do outro lado do equador. Foi preciso acreditar nisso por meio de ideologias voluntaristas. Contudo, bastaram algumas décadas para lhes conferir uma alma. Menos de três séculos depois do início da fúria escravagista, já não é possível distinguir oficialmente “raças superiores” e “raças indígenas”. Com o auxílio da antropologia tornou-se até problemático classificar as sociedades humanas em “culturas elevadas” e “grupos primitivos”. Se aceitarmos a lição do belo filme Little Sénégal2 , civilidade e selvageria já não estão onde foi convencionado – a primeira no Ocidente. a segunda na África – e o inverso pode ocorrer.

A educação pela prática do universal

Redividir a humanidade em cruzados da universalidade e reacionários identitaristas parece uma solução, mas inconsistente: dividir em nome da unidade...

Quanto às fobias alimentares geradas pela onda de epizootias (vaca louca, depois febre aftosa), elas imputam a contaminação universal à ação humana, que extrapola os limites de seu próprio poder. O contra-ataque defensivo (massacre e cremação de centenas de milhares de animais) acentua o medo das técnicas de tratamento de massa. Também assistimos a tentativas de redivisão do mundo entre países “limpos” e “infectados”, entre América e Europa (posta em quarentena). Porém, as táticas de inimizade renovadas não acabam com a fantasia, menos fundada no produtivismo que no caráter mediador dos sistemas industriais, traduções materiais de nosso universalismo. Esta mediação generalizada>/i< transmitiria constantes infecções, em escalas cada vez maiores, induzindo à desordem no reino natural, normalmente ordenado por certas “barreiras” como a das espécies.

As profissões que se sentem responsáveis pelo pensamento do bloco-mundo são ainda mais atingidas pela culpabilidade desta universalização mediada pela técnica. Aliás, os medos não têm origem nas populações (que se dobram, com pesar, aos alertas de consumir menos), mas nas pessoas educadas pela prática do universal: a mídia, os políticos, nacionais e internacionais, administradores, juristas, cientistas e técnicos. São estas camadas cultas que assumem conscientemente o progresso que se revelam as mais preocupadas pelo temor inconsciente daquilo a que, no fundo, elas pensam “ter dado início”.

A monstruosidade da sociedade

A questão não é muito clara para honestos militantes (virtuais executivos do futuro Estado mundial) que lutam contra os inimigos do ideal humanitário

O mesmo ocorre com a dimensão temporal do temor fascinante do Universal: a da projeção dos possíveis futuros sobre o atual pensamento global. Será que o adulto de hoje poderia determinar cientificamente o futuro do humano infans – o herdeiro do humano – (sem voz), e, a fortiori, o dos seres vivos (humanos e não humanos) ainda não nascidos? Será que o adulto todo-poderoso – que é a própria humanidade, enquanto desenvolvimento pleno da cultura e dos conhecimentos atuais – pode conduzir, segundo seus próprios parâmetros, o futuro indeterminado?

Ante a vertigem provocada por estas questões, o medo manifesta-se segundo duas modalidades principais: 1) a acusação de orientar as futuras gerações viventes a partir das atuais opções de modificação dos genomas humano, animal e vegetal; 2) a de “destruir a infância” humana, obrigando-a a uma espécie de prazer adulto.

Logicamente, as preocupações referentes à manipulação genética da vida e as que questionam a ética em matéria de abuso sexual não abrangem os mesmos campos. No entanto, percebemos com clareza que em um plano subjacente mobilizamos a tendência idêntica de encerrar o futuro no presente. A indignação histérica, difundida na nossa sociedade, parece perceber essa dupla colagem adulto-criança/presente-futuro como uma perspectiva sufocante. É verdade que, acima de tudo, ela atribui a intenção a personagens individuais demonizados (os pedófilos, por exemplo), muito mais do que à pedagogização geral da relação social moderna. Essa manobra é compreensível: é mais fácil denunciar “monstros”do que admitir a monstruosidade da nossa sociedade.

A vídeo-vigilância da vida íntima

A ambivalência do universal manifesta-se no desejo e no medo de limitar o futuro de nossos filhos e descendentes por uma norma previamente fixada

O terror desproporcional em relação ao pedófilo (sem falar de infanticidas, abusos e maus reais) tem uma explicação. A referência à perversão não é senão um detalhe, pois, no fundo, a preocupação tem outra razão de ser: a manipulação coletiva “abusiva”, não só de crianças, como da humanidade infantilizada e vitimizada sob o fogo cruzado da boa consciência midiática, da multiplicação da vontade educativa e da obrigação à submissão salarial e consumista em escala de massa.

Por exemplo, em “Loft story” (o atual programa célebre) é a fantasia do incesto consumado entre pais telespectadores e jovens fazendo amor em uma cena de intimidade fictícia, realizada sob controle técnico da televisão. O medo subjacente às reações escandalizadas refere-se à capacidade de autoridade (no caso, a televisão) de controlar a ficção da vida privada, de impor formas prescritas de prazer e sua obrigatória contrapartida (eliminação de concorrentes, experiências de comportamento, modelo de funcionamento social etc.).

Ficamos, portanto, simultaneamente fascinados e enojados por essa vídeo-vigilância pública da vida mais íntima, esse espetáculo invocado para resolver, no imaginário, as relações de referência entre gerações. Certamente, não se trata aqui do excesso de liberdade ou de “propriedade de si”(considerados estranhamente pelo sociólogo Alain Ehrenberg fonte das depressões contemporâneas3 ) que nos oprime ou nos revolta diante de tais manifestações, mas, ao contrário, é o progresso inexorável do ideal coletivo de fusão e seus meios de se impor como horizonte de cada um.

As resistências ao universalismo

As táticas de inimizade renovadas não acabam com a fantasia - menos fundada no produtivismo que no caráter mediador dos sistemas industriais, traduções materiais de nosso universalismo

Não ficar surdo aos apelos dos que resistem à ordem de universalidade é ouvir algumas máximas silenciosas que surgem em contra-ponto aos medos: “As espécies vivas não serão misturadas em um único grande todo.” Ou ainda: “As gerações presentes e futuras não serão confundidas.” Escutar estas máximas que emergem das neuroses é compreender melhor muitas das mudanças na evolução das mentalidades. As reações inconscientes ao universalismo, não por acaso, não são em vão na progressão atual dos temas de poluição e preocupação ambiental, na sensibilização de ambientes até então indiferentes a isso (e que poderiam continuar a sê-lo por muito tempo) sem o estranho mecanismo da culpabilização. Melhor seria, por exemplo, captar a reação de quem pratica a universalidade virtual quando, diante do risco da recessão da e-economia, eles começam (principalmente os profissionais de informática e os próprios internautas norte-americanos) a manifestar desconfiança e discriminar a “Internet-para-tudo” e seu ideal de comunicação planetária total, em detrimento da “vida verdadeira” de pessoas em situações concretas (leia, nesta edição, o artigo de Derrick de Kerckhove).

Significaria isso voltar a formas regressivas e perigosas de recusa da universalidade? As atuais resistências ao universalismo devem ser tanto mais pautadas pelo discernimento em sua diversidade quanto, no passado, recuos semelhantes se combinaram com depressões econômicas (1880, 1929 etc.). O que então se viu não foi um retorno à razão, e sim, após algumas hesitações, o açambarcamento coletivo em mobilizações furiosas, tanto pela obstinação universalista quanto pela volta a negações irracionais do universal.

A lição de “Zardoz”

Será que o adulto todo-poderoso – que é a própria humanidade – pode conduzir, segundo seus próprios parâmetros, o futuro indeterminado?

O ódio pessoal do presidente George W. Bush do e-mail (banido da Casa Branca) parece uma recusa simpática ao controle midiático da intimidade presidencial. Porém, inscreve-se no âmbito arcaizante em que o recuo diante da perspectiva universal só é motivado pela reiterada afirmação de posições de domínio: hostilidade declarada ao direito das mulheres ao aborto, afirmação do direito da hiper-potência de poluir o planeta, “isolacionismo” cujo reverso é a atual dominação direta das grandes fortunas dos Estados Unidos sobre as duas Américas (como ficou demonstrado na Cúpula de Québec sobre a formação de uma área de livre comércio interamericano, caricatura desproporcional da tentativa européia4 ).

Quanto à teoria de Bush da “fortaleza norte-americana sitiada” para justificar os gastos fantásticos com um escudo antimíssil, trata-se do retorno de um imaginário patológico de recusa do universal: o do “complexo de Zardoz”. Este filme, do diretor britânico John Boorman5 , deveria ser mais lembrado, pois muito antes de se falar em “guerra nas estrelas” ele mostrava uma Terra do futuro governada por uma elite anglo-saxônica, imortalizada pela clonagem, auto-prisioneira em um parque paradisíaco, protegida do resto do mundo, mantido voluntariamente na miséria e no terror, por um sistema de raios laser. A lição mais escandalosa de Boorman era a de nos sugerir que essa elite esclerosada só sonhava com uma coisa: conhecer a morte e liberar o futuro... para os outros.

A internacionalização da concorrência

O medo subjacente à reação escandalizada refere-se à capacidade autoritária de controlar a ficção da vida privada, impondo formas prescritas de prazer

A atualidade ultrapassou essa angústia da década de 70 no seguinte sentido: a multipolaridade e a diversidade cultural da realidade do mundo já, há muito, deixaram os limites de um esquema hegemônico único; contudo, o sonho imperial ainda pode cultivar nostalgias. Tanto é que a redivisão estratégica reacionária do mundo não é, com certeza, incompatível com a obsessão da doutrina de uma sociedade-mundo animada pela lógica mercantil.

O historiador Eric J. Hobsbawm lembrava que o capitalismo ultraliberal e globalizante da Belle Époque foi, também, levado a produzir mercados populares nacionais que posteriormente desembocaram, ao longo do século XIX, na faca de dois gumes da fraternidade concidadã e da inimizade xenófoba. Ora, sua observação sobre a situação internacional em 1902 (“O protecionismo refletia a internacionalização da concorrência econômica6 ”) conserva, em outra escala, uma certa atualidade. As forças manipuladoras do dinheiro pedem a pura liberdade do comércio mundial, mas privilegiam ao mesmo tempo, em grande escala, os mercados continentais e os privilégios que os protegem uns dos outros (batalha Boeing/Airbus, projetos de compra obrigatória de soja ou produtos culturais norte-americanos etc.). A guerra surda entre o euro, o iene e o dólar não deixa de propiciar um mega-nacionalismo, ou regionalismo monetário, que subentende possíveis exacerbações de ódio (a Europa vista como perigo econômico pela opinião pública norte-americana, a exasperação quanto ao maciço endividamento norte-americano autorizado pela impressão de dólares etc.)

“Companhias das Índias” contemporâneas

No momento em que a Califórnia “renacionaliza” as empresas de eletricidade ineficientes pareceria justo impedir o setor elétrico europeu de declarar uma guerra de preços sem trégua.

O mesmo ocorre com as clássicas técnicas de ratear os recursos dos países pobres entre as potências: quando as multinacionais ocidentais compram obstinadamente empresas no Terceiro Mundo, não podemos aplicar o que dizia Hobsbawm sobre os principais motivos do colonialismo do século XIX: “Geralmente admitia-se que o imperialismo poderia pagar as reformas sociais7 .” Remontamos às técnicas do século XVIII, quando as “Companhias da Índia” inglesas, francesas, holandesas, portuguesas, oficialmente particulares, dispunham de recursos dos países que ocupavam sem arcar com os encargos diretos das administrações locais.

Obrigada a confessar seus erros, a Elf não é, com certeza, a única “Companhia das Índias” contemporânea que paga os salários de muitos países do Terceiro Mundo. Na realidade, a quase-totalidade dos grandes grupos globalizados são, atualmente, levados a remunerar as elites locais... que, depois, deslocam a poupança para os circuitos do hemisfério Norte, enquanto as populações privadas de acesso aos bens de valor social continuam a fornecer trabalho barato.

Os limites da lógica do dinheiro

Seria necessário debater as dificuldades de abordagem da universalidade, não como obstáculos a eliminar, mas como constantes irredutíveis de nossa condição humana

Neste ponto, só podemos nos alegrar com a universalização em marcha que, por exemplo, autorizou a África do Sul, através de uma decisão da justiça internacional, a produzir remédios genéricos. Isto pode, sem dúvida, levar a um completo remanejamento do mercado mundial da saúde, inclusive nos países desenvolvidos.

Inversamente, seria tratada como reacionária a resistência – sempre corporativa e territorializada8 – a esta divisão de trabalho que leva à concentração de funções intelectuais nobres (dignidade social, pesquisa etc) nos Estado Unidos, enquanto outros países se destinam à decadência de seu nível cultural pois seus quadros emigram? Será que iremos lamentar as práticas de cost killing, de deslocamentos, de demissões em massa e de “flexibilidade” que tanto fizeram sofrer os assalariados ao longo das últimas décadas sem que se provasse sua utilidade para a estabilidade das empresas?

Fustigaremos como “retrógrados” os limites impostos à obstinação na lógica da circulação do dinheiro, especialmente nas produções de utilidade pública? Justamente no momento em que o Estado da Califórnia, por exemplo, “renacionaliza” as empresas de eletricidade ineficientes – porque seus acionistas se recusam a investir – pareceria justo impedir o setor elétrico europeu de declarar uma guerra de preços sem trégua. Inevitavelmente – sob o pretexto de conseguir uma eletricidade mais barata – isso causará a destruição de tudo o que garantia qualidade e segurança, além de sacrificar a pesquisa de longo prazo. Quando irá faltar eletricidade na França? Talvez antes de dez anos, se as políticas “imperiais” das empresas dirigidas em nome de ideais globalizantes conseguirem quebrar – com a anuência dos sindicatos vermelhos/rosados, que se bandearam com armas e bagagens para o lado de diretores obstinados – o equipamento construído há mais de meio século com o dinheiro e a confiança do povo.

Uma relação ambivalente e paradoxal

Em resumo, não existe bom ou mau universalismo em si, nem boa ou má resistência diante dele. Certamente há aspectos ensandecidos na precipitação à unidade por fusões em que a moeda é a mídia econômica, e também, com certeza, os aspectos deletérios do bloqueio de identidades separatistas agressivas. O mais difícil é caminhar entre os obstáculos, quase sempre associados, do medo e da fúria.

Fundamentalmente, seria necessário debater as dificuldades de abordagem da universalidade, não como obstáculos a eliminar, mas como constantes irredutíveis de nossa condição humana. É necessário admitir que o universal permanecerá objeto de intenso fascínio/rejeição e que os sintomas enérgicos e desesperados de sua recusa devem ser cultivados, e não negados, e às vezes aceitos como condição de sobrevivência.

Estejamos, em todo caso, conscientes de que nossa relação com a Universalidade será, provavelmente, para sempre ambivalente e paradoxal. Quanto mais dela nos aproximarmos, mais a questão da pluralidade e das diferenças será colocada com vigor. Ainda que devido a uma urgência incontrolável de nossas reações inconscientes. (Trad.: Teresa Van Acker)