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novembro 2008



CHÉRIE À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Sartre em si

Já dizer que o Para-si tenha consciência, é questionável. Discute-se nos meios filosóficos se um cidadão que pendura a bandeira do Vasco na janela pode ou não ser enquadrado como um grande conhecedor do mundo. Não sou eu quem diz, é Sartre.


Daniel Cariello

Uma coisa que me intriga nas teorias de Jean-Paul Sarte é essa classificação de seres em Em-si e Para-si. Se bem entendi, o Em-si é um objeto qualquer que possui uma essência definida, criado para suprir uma necessidade, tipo um sanduíche de mortadela, uma calça capri ou uma bandeira do Vasco.

Já o Para-si cria as relações funcionais e temporais entre os seres Em-si. Por exemplo, é um sujeito que acorda, dá uma bocada no seu sanduíche de mortadela, veste a calça capri e pendura a bandeira do Vasco na janela.

Até aí, tudo bem.

Sartre continua dizendo que o Para-si é um ser que tem conhecimento a respeito de si mesmo e do mundo. Já o Em-si, em se tratando de consciência, ele não tem nenhuma. Não sabe nem mesmo que existe.

Eu concordo que o Em-si não tenha consciência. Afinal, não costumamos ver sanduíches de mortadela reclamando. "Ei, caramba, morde com menos força". E calças capri, até onde se sabe, ainda não saem andando sozinhas pelas ruas.

Já dizer que o Para-si tenha consciência, é questionável. Discute-se nos meios filosóficos se um cidadão que pendura a bandeira do Vasco na janela pode ou não ser enquadrado como um grande conhecedor do mundo.

Entendam que eu não tomo partido. Apenas tento compreender Sartre.

Bem, ele ainda dizia que os objetos do mundo - os seres Em-si - apresentam-se à consciência humana por meio de suas manifestações físicas. E os Para-si não têm uma essência definida. Ou seja, determinam sua existência a cada momento, e têm a liberdade de mudar de vida desse segundo em diante.

Disso tudo, pode-se concluir que o sanduíche de mortadela é a manifestação física da idéia do sanduíche de mortadela, o que faz um grande sentido quando se vai ao mercado municipal de São Paulo e se depara com o baita sandubão que eles preparam. Ali entende-se a existência do sanduíche como algo sólido. Bem sólido.

A calça capri, um ser Em-si, não tem consciência de sua existência. Sartre, se ainda estivesse vivo e utilizasse esse exemplo, provavelmente reformularia sua teoria. Diria algo como "no caso da calça capri, ela não tem a consciência de sua própria existência. Parece que quem veste uma também não a tem".

E a bandeira do vasco, também um ser Em-si, para existir depende de um ser Para-si, que é o sujeito que a pendura na janela. Como esse mesmo ser Para-si tem a liberdade de mudar o rumo de sua vida a cada instante, pode ser que ele deixe de torcer pelo Vasco. Seguindo o raciocínio, se todos os torcedores do Vasco mudassem de idéia e passassem a apoiar, por exemplo, o XV de Piracicaba ou o Itabaiana, a bandeira do Vasco deixaria de representar a idéia de torcedor do Vasco. Portanto, deixaria de fazer sentido a sua existência. O que, para alguns, faria muito sentido.

Não sou eu quem diz, é Sartre.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

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— E como é que ele é?
— Nem alto, nem baixo. Cabelo curto, olhos azuis, seus sessenta e poucos anos...
— Mas isso todo mundo sabe. Quero saber da vida dele. Como ele é pessoalmente?

Joue-nous Raoul!
— O canhestro. — Hein? — O príncipe das trevas. — Paulo Coelho adorando o capeta? Agora embolou tudo. — Avisei...

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As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo

Sene-Sene-Senegal
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— Não, obrigado.
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Salamaleque!
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