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janeiro 2009



LITERATURA

De volta aos rostos

Ao reencontrar as fisionomias, sou tomado pelo alívio. Estão todos ali, onde deveriam estar, indiferentes, na plataforma do metrô. Vejo-as congeladas, num estranho estado de suspensão, enquanto esperam o trem para subir


Diego Viana

Quase esqueci dos outros. A Terra está apinhada de gente, mas todos já iam sumindo da minha memória. Uma semana inteira com os olhos voltados para dentro bastou para que eu me isolasse do mundo. Eu, que gosto tanto das fisionomias, das expressões, das histórias de vida que os rostos não conseguem esconder. Dias a fio, sem contato com ninguém além dos comerciantes da rua. Mas os comerciantes não são outros. São os mesmos de sempre, estão sempre ali. Têm seus nomes, suas profissões, seus postos na minha realidade. Os outros são imagens no desfile quotidiano de faces, aquelas que procuramos não encarar. Anônimas, dizemos, cretinos que somos. Ora, elas não são anônimas. Cada uma cultiva seu orgulho do nome a que responde. Cada uma carrega no bolso uma carteira puída, com números a preencher em formulários. Cada uma inventou – e não esqueceu – um punhado de senhas, para abrir as portas da vida social. Cada rosto desses é tão anônimo quanto o meu. E, como o meu, reconhece um “eu” como centro de seu universo.

Ao reencontrar as fisionomias, sou tomado pelo alívio. Estão todos ali, onde deveriam estar, indiferentes, na plataforma do metrô. Vejo-as congeladas, num estranho estado de suspensão, enquanto esperam o trem para subir. Também eu estou em estado de suspensão. Oscilo, pendular, na mesma freqüência dos demais. Congelado, na plataforma do metrô. Só que eles não me olham, enquanto eu olho para eles. São relances, olhares curtos e furtivos como os dos criminosos ou os dos amantes tímidos. Quando percebem que alguém ali os contempla vagamente, ficam incomodados, afastam-se, franzem a testa. Ofendidos, há até os que gesticulam e se põem a ameaçar, aos berros. Melhor ter cuidado. Eu mesmo, na verdade, tampouco gosto que me olhem. Não sei o que pode buscar um olhar perscrutador nesta fisionomia carrancuda, de manhã, esperando o trem. Detesto que tentem decifrar minha vida pelas linhas de minha preocupação, como eu tento ler as rugas desses desconhecidos todos. Sou assim. Inconsistente. Rejeito meu papel no anonimato.

Como é prático atribuir a cada corpo desses uma parte, uma migalha, no anonimato generalizado! É cínico, é injusto, mas é prático. De um gesto, cria-se a massa. Inerte e pluricelular, uma forma cuja agitação não tem sentido e se pode ignorar. Condená-los ao anonimato parece expiar a culpa do isolamento. Se não têm nome, não são indivíduos, não vivem histórias que mudem com o dia. Manter-se afastado durante uma semana não é perda alguma, não é nada. Falar em massa, sufocar os nomes, é colocar-se em outro plano. O único plano individual, em que o eu é legítimo e a vida deve se conservar. Melhor. A ilusão é um caminho justo para a paz de espírito. Pois mais vale encher de enfeites esta margem que me cabe na existência, que desesperar dos muros altos do entorno.

Assim se apresenta o estranho gosto pelos rostos, meus estranhos. Misto de curiosidade e desprezo, despeito e orgulho. Em comum, todos eles traçam biombos imaginários para resguardar a intimidade. Em pleno transporte público. Todos têm nuvens diante dos olhos. Há os sérios, de pensamentos distantes, solitários no rumo das funções. E há os grupos, os pares, os casais, os amigos. Falam, gesticulam, movimentam-se. Incomodam os sérios, porque parecem mais leves, embora sofram tanto quanto cada um. Há os espalhados, jovens garbosos: ainda não entenderam que seu universo é só mais um canto escuro. Há os pequenos, humildes, escondidos nos assentos porque desistiram de crer no próprio mundo. Há os leitores insondáveis, os músicos tristonhos, os pedintes em profusão.

Em comum, o fato de que não sei como se chamam. Tento adivinhar, examino as fisionomias, invento nomes para todos. Nomes brasileiros, em geral. Até me dar conta de que dificilmente alguém se chama assim nesta plataforma de subúrbio parisiense. Invento outros nomes, agora internacionais. Como um despótico Adão, batizo-os, um por um. De todas as pessoas que convivem naquele parco espaço, uma apenas não é renomeada pela minha imaginação que vai se revelando doentia. Ora, eu conheço meu verdadeiro nome. Não teria por que escolher outro. Mas dentre eles todos, não há um que saiba quem sou. Que eu possa saber, nem há quem invente um nome para mim. Entre as criaturas que batizei, eu mesmo sirvo apenas para compor a massa.