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janeiro 2009



LITERATURA

Nossa seca

No fundo do meu sentimento, dou a última palavra, juro, até para ser ouvido na minha revolta: “quero água, abençoada água para não morrer; Deus, encha o céu de nuvens de chuva”


Celina Castro

Agosto continua frio, mais que julho, e mais a seca brava. Nada se planta na seca. O gado, um bezerro aguado, mais pele e osso, triste, lambe o cocho. Triste é o pasto, amarelado até sumir de vista. Mais ainda nós, da roça, com o vento frio e empoeirado de gripar até cavalo.

Uma conferida nos pés de laranja. Nada. Nem uminha para matar a saudade. O pé de limão china, azedo de doer os dentes, carregado de maduro. Cai no chão e apodrece. Nem abelha quer. Mês de desacorçoar para todos nós. Andar na horta descalço é encher o pé de espinho benzinho, traiçoeiro, escondido no mato seco, é mal encostar o pé e recolher; a picada, feito agulha, entra na carne. Para tirar, é mais estrago, dói é muito mais.

Água minguando, nascente seca a cada dia. O córrego que alimentava nossa casa esforça a descida, num fio. Fio limpo. E frio. Olho para o céu amarelado. Vai gear, na certa. Pego uns panos velhos de colher café e cubro o pé de couve, deitado de piolho, enrugado, e alguma rama de batata. Cará inhame não precisa, se morre a folha, o cará vive. Esta noite, há meses tem sido assim, só se enxerga com a única lamparina de querosene, venho racionando.

Meto sabugo no fogo a fazer brasas para esquentar os pés das crianças. Embrulhei os tijolos fervendo no papel forte dos sacos de ração da fazenda do Sô Neca e enfiei debaixo do meu colchão. Não há coberta para todos, fico com uma mantinha rala. Os tijolos ficam quentes até de madrugada.

Eu queria ter uma lona que fosse para tampar o galinheiro. Mas nada. O casal de porcos, pelanca só, se embola num grude para ganhar calor um do outro. Confiro a pelota preta, num morreu, grunhindo fraco, amiudado.

Um fumaceiro, longe, sobe em rolo preto, dá uma cor no céu. Novidade... em são juízo num ateia fogo com essa secura. Teimam na queimada, esperança de ver um pasto verdinho; o gado vai ter banquete, justificam os roceiros, num destemor da Florestal.

O acero, feito nas pressas, não segurou as labaredas que lambem o pasto do vizinho. Dão o alarme. Zé Bento corre pra avisar os peões. Pede ajuda pra mim, suado, implora ir engrossar o mutirão lá na grota da divisa com a fazenda do Neca: “É na carreira, já queimou metade do canavial do hómi e ele tá fora”, grita, na urgência da incumbência de chamar mais gente, como se eu fosse surdo. Coragem me falta, nessa hora, estou guardando para outra empreitada, mas ajuda num mutirão não é coisa de negar.

Os paus das árvores vão caindo, se misturam com as folhas secas. O desastre está armado. Uma fagulha que cai fora do acero é como bomba de gasolina. Exército de formiga carregando folha, enfileirado na correria, é pouco para comparar com o batalhão de homens e até mulheres que tentam apagar o incêndio com paus. Paus secos, para apagar o fogo, estorricados, viram tochas, abrem feridas e vagas, tombando trabalhadores no fogaréu. Foi mais um voluntário. “Tá faltando fulano... cadê o Jaça?” Morreu no rodamoinho de labareda. Nós procuramos, as famílias procuram... A resposta ficou no meio das cinzas. Quem entra na empreitada sabe que pode não sair dela vivo, nem rico, pobre, preto, gordo. Ninguém é arrastado para mutirão. Desde que o mundo é mundo, tem mutirão, se está com saúde, é ponto de honra comparecer e lutar. As forças da natureza, destemperadas, juntam o mutirão na roça.

A sorte é que tem um resto d’água barrenta no açude. Os baldes vão lá e cá. Os gritos de “manda mais” e de dor dos queimados vão se misturando. Mãos em brasa pura, nem sei se sobrou roupa no corpo, passo o balde cheio, antes de pegar o vazio; vêm as meninas no meu sentido. Espantadas, com medo de ficarem sozinhas no mundo... Falei que voltava, e volto. Mandei ficar bem de longe, só olhando o clarão... Não tem como apagar fogo e segurar curiosidade de criança. O fogo atenta até gente grande. Que dirá criança!

Volto para casa sapecado, feito porco morto, sem um pelinho. Salvo os debaixo da cueca. Elas me obedeceram, fico aliviado. Seu Neca pode voltar da viagem; do canavial seco restou a metade. Vai querer apurar o acontecido, punir o vizinho, na certa, denunciar para a Florestal. “Acidente, puro acidente. O senhor não está livre de passar por isso”, afirma Justino, treinando a fala de capataz com o fazendeiro turrão.

Daí dois dias, lembro Carlita, minha falecida mulher. Renovo coragem para a empreitada que não sai da minha cabeça, tem tempo. Lavo bem três garrafas no fio d’água do terreiro. Encho elas com a água mais limpa, debaixo da ponte. Arrolho bem. Pego as meninas, tomamos a trilha que dá no cruzeiro bento. Fazemos procissão. Já cansadas, de boca seca, rezam devagar, baixinho, as orações que aprenderam com a mãe. A mais nova tem pereba na cabeça. Já tão mirrada e ainda com esses fiapos de cacho amarelinho. O couro da cabeça quase pelou. Ponho meu chapéu nela. Carrego ela mais a garrafa. Ajusto a minha na cintura. A subida para o cruzeiro bento tem degraus desencontrados: uns de pedra, outros de terra batida, escorada com tronco de madeira. Somam duzentos.

De dez em dez, uma cruzinha. Os mais devotos param em cada uma, rezam mais dobrado, até os mistérios do terço, contemplados. Nós subimos, resfolegando, sem parada, nem terço. Desgrenhadas, filhas da roça seca, minhas filhas magriças são valentes. Mas vou atrás, no caso de uma delas cair.

A terra é nosso banco, descansamos, estirando as canelas; de encosto, o pau do cruzeiro bento.

A obrigação está cumprida, agora a devoção: rezamos, dando volta em torno do cruzeiro, aguando, com a água que já abençoamos, de oração e intenção, o pé da santa cruz. Peço a Deus piedade. Perdão pelos pecados meus, que deles Ele deve saber melhor do que eu; estico o pedido, perdão para todos os roceiros. Já seco de pedir, avanço mais um pouco, imploro, perdoai nossas terras, se é que há perdão, elas que davam nosso sustento, lembro Ele.

Suplico, como se Deus estivesse sentado perto de mim: “mande água para nóis vivê”. Envergonhado d’Ele e de minhas filhas, deito a cabeça nos braços, escondo desespero, dor de fome e de viver, desalento, choro. De uma hora para a outra meu coração virou um chumbo. As meninas cantam uma reza, animadas de estar no pé da santa cruz.

No fundo do meu sentimento, dou a última palavra, juro, até para ser ouvido na minha revolta: “quero água, abençoada água para não morrer; Deus, encha o céu de nuvens de chuva”.

Minhas filhas cantam com fé. Tomam o gole do fundo da garrafa, bento, crêem, para chamar chuva.

Das alturas daquele monte, vejo um mundo de pau seco, sem folhas; em gravetos, a rocinha de milho gorada. No céu, nada de nuvem. Rachado, o chão duro se cobre com o manto de folhas caídas, quebradas, estorricadas. Não reconheço qual é de quem. Miséria. Miséria a perder da vista, que forço, sapecada no incêndio e ardida do choro. A empreitada está na descida sem degraus, para um lugar que não sei se existe. Vejo é descidão, sem trilha, nem de animal, e uma subida longa, lá longe. Depois não dá para saber é de mais nada.

Agora, é tudo um amarelão só que mistura terra, céu, fim de dia. E nós.

Chamo: “Lilita, vem mais sua irmã!” Agarradas, me seguem, feito carneirinhas. Deixo o cruzeiro santo. Só que noutro rumo: tomo a vertente contrária.

“Quem sabe pelo avesso encontro o próprio Deus?” Pergunto, e é só. Céu barrado de amarelo não tem voz. Geia. Resolvo desaliar com tudo.

Damos as mãos, os três, e as costas para a santa cruz. Dessa vez, sem rezar.