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janeiro 2009



LITERATURA

Idéias perdidas

No fundo, o único ponto realmente importante na literatura é o exercício da idéia


Renata Miloni

Quase diariamente, encontro sem querer a frase "literatura não serve para nada" (da qual já falei em outro texto para o Palavra), e me pergunto se realmente pensam assim ou se é apenas para dar algum efeito de opinião. O fato é que ninguém parece ter vontade de dizer que literatura tem reais utilidades, pois, como arte — segundo o que capto inocentemente —, ela já anula a qualidade de ser útil.

Não consigo compreender qualquer arte assim, insisto em acreditar em propósitos, mesmo quando completamente absurdos, quando resultam em desgraça ou partem da loucura — acredito que ações partem deles, mas dificilmente concordo com algum.

Então, pelo que digo, literatura deve ter algum propósito por ser útil. Quando há tal ligação, talvez fique mais fácil exemplificar. O exercício da idéia é um propósito. Suspeito de que nenhuma idéia aparece do nada: estão todas apenas esperando por motivações de qualquer grau de estímulo.

No fundo, o único ponto realmente importante na literatura é o exercício da idéia, de quando o escritor se permite desenvolvê-la e sabe o limite que ela pode ter ou não. A idéia não pára quando reconhecida, mas o que mostrar dela? Deve existir algum tipo de esquecimento proposital, algo automático no autor que o faça encerrar: "essa minha ficção acaba aqui".

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Qualquer comentário sobre idéia me faz lembrar que as pessoas estão — mais homens do que mulheres (e não digo por ser mulher, é um fato que pode ser comprovado facilmente) — em constante posição de defesa das idéias nas quais acreditam. É o que faço agora mesmo, não? Geralmente, defendemos idéias de escritores que gostamos; eles mesmos nos ensinaram defendendo.

Há um tempo, li uma entrevista da escritora inglesa Zadie Smith, na qual ela falava sobre os jovens americanos sentirem necessidade de defender os escritores dos quais gostam, algo que ela não sente. Como se dizer nomes levasse instantaneamente a um arquivo de idéias menosprezadas e que apenas elas pudessem ser lembradas publicamente.

Mas se são idéias que esses jovens aprovam, por que a urgência de defesa? No Brasil, não é diferente. Uma ansiedade por estar pronto para defender a idéia de um autor paira o tempo todo, e muitos não conseguem lidar com tanta pressão. Talvez por isso tantas brigas? E, quase sempre, se defende a idéia de autores mortos, como Zadie Smith também mencionou. Mas as idéias precisam ser defendidas?

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Acho que é por isso que considero o exercício da idéia o mais importante da literatura. No fim, tudo gira em torno dele. Seria melhor ainda se a pressão fosse anulada ou, pelo menos, aliviada.