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março 2010



ORIENTE MÉDIO

Israel: por trás da radicalização, um país militarizado

Visto por seus apoiadores como “uma das únicas democracias no Oriente Médio”, o Estado israelense é cada vez mais pressionado pelo poder político e econômico de seus generais. Na Biblioteca Diplô, textos para entender esta interferência crescente.


Desta vez, foi demais. Acostumadas à influência que exercem sobre os governantes norte-americanos, graças aos interesses geopolíticos que os dois países compartilham, as autoridades de Israel humilharam, na semana passada, o vice-presidente, John Liden, que visitava Telavive. Em meio à visita de Liden, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou – e tentou transformar em fato consumado – a instalação de 1.600 novos ocupantes judeus no setor de Jerusalém reivindicado pelos palestinos.

A atitude não serve nem aos EUA, nem a Barack Obama. Washington está atolada em duas guerras no mundo árabe. A cumplicidade com um Estado que oprime permanentemente os palestinos amplia ainda mais seu desgaste, entre as populações do Iraque e Afeganistão. E o presidente perde apoio entre a esquerda, ao ser visto como incapaz de favorecer um ambiente menos opressor e instável no Oriente Médio.

Por isso, Obama desencadeou pressões reais sobre Israel. Em 16 de março, a secretária de Estado, Hillary Clinton, comunicou por telefone a Netanyahu que os EUA exigiam a reconsideração dos 1.600 assentamentos, além de sinais concretos de disposição para negociar com as palestinos. Também cancelou-se a visita a Telavive do enviado especial norte-americano, George Michell. As próximas semanas dirão até que ponto esta atitude será mantida – e quais seus efeitos sobre Israel.

O conflito no Oriente Médio é um tema central para Le Monde Diplomatique. A Biblioteca Diplô oferece dezenas de artigos a respeito. Alguns deles ajudam particularmente a entender o que está por trás da atitude intransigente de Israel. Em “O exército age para controlar a política”, Amnon Kapeliouk descreve o impressionante crescimento, a partir de 1977, de uma ala ultra-direitista e xenófoba, na cúpula das Forças Armadas. Este setor age, sempre a pretexto da “segurança”, para minar os mecanismos de controle civil sobre o exército. Tem forte participação, por exemplo, na multiplicação das barreiras militares que humilham infernizam o quotidiano da vida palestina.

Já em “Como a ocupação invadiu Israel”, Mario Rappaport narra um retrocesso social. Até a chamada “Guerra dos Seis Dias” contra os árabes, em 1967, Israel era conhecido por sua economia fortemente igualitária, baseada em cooperativas, reforma agrária e kibbutz. Desde então, cresceram, junto com PIB per capita (que passou de US$ 1,5 mil para US$ 24 mil), a concentração de riquzas e a hostilidade contra o mundo do trabalho. Rappaport conta, em seu texto, como 18 famílias constituíram uma oligarquia que controla boa parte da riqueza; e como a taxa de sindicalização regrediu de 80% para 25%, no período.

Por fim, o fenômeno do avanço sobre as terras palestinas é examinado em detalhes em “O câncer das colônias israelenses”. No artigo, Marwan Bishara revela como os habitantes das áreas de ocupação estabelecidas em território palestino tornaram-se um grupo de “fanáticos armados, autorizados pelo exército a matar”. Também destrincha as relações entre esta população e os partidos de direita — que a manipulam e são por ela instrumentalizados, numa espiral de radicalização tenebrosa. (Antonio Martins)

M A I S

Além dos textos citados, a Biblioteca Diplô oferce um vasto acervo de artigos sobre Israel, Palestina, Oriente Médio e Choque de fundamentalismos.