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maio 2002



DOSSIÊ MÍDIA & NEGÓCIOS

A ascensão de Jean-Marie Messier

Tirando proveito da guinada das escolas da elite político-administrativa – pelas quais se formou – para o mundo do ’business’, Jean-Marie Messier presidiu a Compagnie Générale des Eaux, que se transformaria na Vivendi e, depois, na Vivendi Universal


Frédéric Lebaron

Fiscal da Receita, começou, de fato, sua carreira aos trinta anos, como artífice das privatizações

Apontado como arquétipo do patrão “à americana”, mais nova-iorquino que os próprios nova-iorquinos depois do 11 de setembro1 , e candidato a coveiro da exceção francesa, Jean-Marie Messier é, acima de tudo, um exemplo quase perfeito do empresário “à francesa” das décadas de 80 e 90. Com o que isso possa significar de distância em relação ao mito do self-made man e do manager “à americana2 ”. Originário da classe média de Grenoble, e promovendo-se por meio do sistema das “grandes escolas” (Politécnica e Escola Nacional de Administração), alcança uma ascensão econômica e política. Fiscal da Receita, começou, de fato, sua carreira aos trinta anos, em 1986, como artífice das privatizações na chefia do gabinete de Camille Cabana. Logo estaria ao lado de Edouard Balladur, outro egresso da Escola Nacional de Administração. Consta que atraiu a atenção de Jacques Friedmann por seu trabalho na Associação para o Estudo de Experiências Estrangeiras (A3E), onde se interessou particularmente pela Grã-Bretanha de Margaret Thatcher3 .

Tirando partido da guinada das escolas da elite político-administrativa para o mundo do business4 , acumulou o capital social e político que lhe permitiria atingir, em alguns anos, após uma passagem pelo Banco Lazard, a presidência da Compagnie Générale des Eaux, que se transformaria na Vivendi e, depois, na Vivendi Universal. Na distribuição de água, nas telecomunicações, no setor imobiliário, na comunicação ou na mídia, um fiscal da Receita com sua formação científica – e habituado com a administração de grandes fábricas e com a organização financeira e institucional – não precisa se impor por muito tempo numa empresa para se tornar um “capitão da indústria” reconhecido. Formado e promovido pelo Estado, passou, graças à rapidez da revolução neoliberal, do grupo dos “privatizadores” para o dos “vencedores” da concorrência capitalista. Nessa época, aliás, a troca do serviço público pelo privado nunca foi muito importante na cúpula do Estado, principalmente entre os fiscais da Receita, que, mais do que nunca, formam a elite econômica francesa, depois de terem conseguido controlar uma economia aberta à concorrência e submetida às estratégias dos grandes sistemas de previdência privada.

As obrigações do magnata moderno

Por trás da retórica soft e da conivência com a mídia, as estratégias econômicas de Messier são as de um manager promovido por um sistema de reprodução elitista

Um dos principais arautos patronais da globalização deve, sem dúvida, a essa trajetória política e administrativa, a aparente “simplicidade” de suas posições públicas, que, por seu caráter grande-burguês, lembra as de seu mentor Edouard Balladur. Mas, por trás da retórica soft e da conivência sabiamente mantida com a mídia, as estratégias econômicas de Jean Marie Messier são as de um manager promovido por um sistema de reprodução elitista. Na transformação interna do Estado keynesiano em Estado neoliberal é que foi forjado um habitus patronal que se poderia qualificar de “revolucionário”. Esse habitus está na base das decisões essenciais que marcaram a recente reestruturação do capitalismo francês: a tomada do controle da Havas, a apropriação pela Vivendi do Canal +, a compra da Nethold pelo Canal + e, evidentemente, a fusão entre a Vivendi com a Universal, etapas de uma guinada deliberada e entusiástica do sistema produtivo francês, muito limitado dentro de suas fronteiras, rumo a um capitalismo financeiro globalizado e midiático.

Uma guinada deliberada e entusiástica do sistema produtivo francês, muito limitado dentro de suas fronteiras, rumo a um capitalismo financeiro globalizado e midiático

Produto de um contexto histórico particular – o da revolução neoliberal –, esta estratégia econômica baseia-se em uma série de pressupostos. Primeiro: a guerra econômica é uma guerra de imagem, simbólica e política, pelo menos como uma luta darwiniana pela eficiência5 . Atualmente, o controle e a manipulação da comunicação, as “pequenas frases” e a percepção do papel da mídia fazem parte das obrigações profissionais do grande magnata moderno, tão distante do “velho” patronato paternalista e discreto quanto do manager tecnocrata paralisado pela obrigação de ser reservado e pela preocupação com a racionalidade operacional.

Defensor da “sociedade civil”

O segundo pressuposto é que a construção de uma identidade midiática deve ser um elemento essencial da legitimação do chefe de empresa moderno. Esse trabalho em relação a símbolos não se limita à afirmação de características normalmente associadas ao empresário capitalista (sucesso, eficiência, consciência de risco, inovação, projeto etc.): trata-se também de criar uma persona, no sentido mais amplo do termo, o que pode significar uma certa capacidade de representar uma caricatura – no caso, burlesca – conseguindo combinar o narcisismo de uma estrela com a ausência de carisma.

O controle e a manipulação da comunicação, as “pequenas frases” e a percepção do papel da mídia fazem parte das obrigações profissionais do grande magnata moderno

O terceiro pressuposto é o de que um manager moderno, globalizado e midiático, não tem medo da subversão (dentro de certos limites) nas categorias de percepção da opinião corrente entre os managers. Ele pode aceitar, ainda que sem grande convicção, (quase) todas as críticas, mesmo as do capitalismo e da globalização, tornando-se um defensor ferrenho do diálogo com a “sociedade civil6 ”. No centro do novo sistema econômico e político, ele (já) não necessita apelar para o pensamento mais ou menos sofisticado dos economistas da Escola de Chicago7 , nem mesmo para suas versões “popularizadas”, por ser um agente muito eficaz da ordem neoliberal. Basta que apareça como o ator neutro e complacente de uma racionalidade superior que, depois da subversão do Estado keynesiano, passou agora a ser representada pela empresa “global” e “cidadã”.
(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Ler, de Jean-Marie-Messier, “Construire les ponts de l’après-11 septembre”, Le Monde, 19 de dezembro de 2001.
2 - Ler, de Michel Bauer e Béatrice Bertin-Mourot, Radiographie des grands patrons français, Paris, ed. L’Harmattan, 1997.
3 - Ler, de Jacques Buob e Pascal Merigeau, L’aventure vraie de Canal +, Paris, ed. Fayard, 2001, p.194.
4 - Ler, de Pierre Bourdieu, La noblesse d’Etat. Grandes écoles et esprit de corps, ed. Minuit, Paris, 1989; e, de Alain Garrigou, Sciences-Po et l’ENA: Les élites contre la Republique, ed. La Découverte, Paris, 2001.
5 - A criação de um nome (Vivendi, e depois, Vivendi Universal) é, evidentemente, um elemento essencial à formação de uma nova identidade econômica.
6 - Entrevista de Jean-Marie Messier: “Quanto mais as empresas são globalizadas, mais sua existência fica vinculada à do mercado mundial e à da sociedade civil”, Le Monde, 19 de dezembro de 2001.
7 - Escola de economistas liberais, conhecida como Chicago boy’s, representada, principalmente, por Milton Friedmann e suas teses monetaristas.