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maio 2002



DOSSIÊ MÍDIA & NEGÓCIOS

Se você não tem nada a oferecer...

O retrospecto da multinacional francesa na África revela que há, por trás de belas palavras, uma política predatória


Philippe Leymarie

A Vivendi-Water, filial constituída com o grupo norte-americano US-Filter, é a principal captadora de recursos do Banco Mundial no continente africano. Vem administrando há vinte anos a Sociedade de Energia e Água do Gabão e, há trinta anos, a Sociedade de Eletricidade e Água do Chade. Também detém o controle do serviço de água no Níger, a gestão dos usuários do Departamento Nacional de Água e Saneamento de Burkina Faso e a do Departamento Comercial do Serviço de Água de Nairobi, capital do Quênia (2 milhões de habitantes), assim como o mercado de uma segunda operadora de telefonia celular que cobre todo o país.

A Vivendi-Water também abocanhou duas licitações para a distribuição de água e eletricidade, assim como a administração da reciclagem de água nas cidades de Tanger e Tetuan, no Marrocos, país em que a Vivendi-Universal – principal investidor estrangeiro – já adquiriu 35% do capital da Marrocos-Telecom (por um pouco mais de 5 bilhões de reais). A recente saída da Electricidade de Portugal da parceria que tinha com a estatal marroquina deverá permitir-lhe aumentar o seu império. Espera fazer o mesmo na Mauritânia e no Congo-Brazzaville.

Cidadãos expulsam multinacional

No Quênia, a empresa administra o Serviço de Água de Nairobi, assim como o mercado de uma segunda operadora de telefonia celular que cobre todo o país

Cada uma dessas operações de aquisição – que se inscrevem no âmbito das privatizações realizadas em conseqüência da pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial – se faz acompanhar por créditos de várias dezenas (e mesmo centenas) de milhões de dólares, a título de reabilitação das redes, das centrais e dos sistemas de tabelamento das tarifas.

Também era esse o caso das Ilhas Comoras, no Oceano Índico, onde a Vivendi-Water, no entanto, abandonou sem maiores explicações seus usuários da empresa Comorienne d’Eau et d’Electricité. Cansados com os freqüentes cortes de energia, com os apagões e os aumentos das tarifas, os usuários reivindicaram a volta aos “bons tempos” da empresa estatal, realizando algumas manifestações, por sinal reprimidas com brutalidade. Não conseguindo do Estado comoriano o empenho para acabar com “gatos”, nem o pagamento de uma dívida anterior, nem um desconto no preço do óleo diesel, o grupo recambiou de volta à França seus funcionários na véspera do Natal do ano passado.

O poço sem fundo do Senegal

Nas Ilhas Comoras, a empresa abandonou os usuários que, cansados com os apagões e aumentos das tarifas, reivindicavam a volta da empresa estatal

A mesma decepção ocorreu no Senegal, que recebera uma promessa de 230 milhões de euros (cerca de 490 milhões de reais) para a recuperação do equipamento de produção de eletricidade. Em parceria com o Departamento Nacional de Eletricidade do Marrocos, a Vivendi-Water ganhou a licitação para a privatização da Sociedade Nacional de Eletricidade. Mas o Estado senegalês preferiu romper as negociações, pois a Vivendi-Environnement recusava-se a pagar de uma só vez o preço combinado pela aquisição da empresa. O diretor da empresa para a África deu duas explicações: os empréstimos bancários estão agora mais caros, depois dos atentados de 11 de setembro, e a falência da Enron acabou com a credibilidade do setor de energia junto às instituições financeiras.

Porém, a Vivendi-Water parece, principalmente, ter percebido durante esse período que o empreendimento senegalês seria um poço sem fundo, do ponto de vista financeiro. Em termos imediatos, os inúmeros cortes de energia que perturbam a vida dos senegaleses irão continuar. O grupo que é o líder mundial da água – criticado, em Porto Alegre, pelos métodos que utiliza para se apropriar do setor público – não pára, entretanto, de oferecer os seus conhecimentos para levar água aos menos favorecidos. E Jean-Marie Messier, o patrão do grupo, adora declarar-se “consciente de [sua] grande responsabilidade” na proteção do ambiente, impondo a si mesmo uma “qualidade do produto e do serviço” e o “esforço de presevação” da água, “recurso vital, porém raro”, das paisagens, “que é necessário defender”, do ar, “cuja pureza é necessário preservar”. Tantas lições de bem viver, às quais se pede a adesão de usuários em todo o mundo. “Se você não tem nada a oferecer”, aconselha um ditado do Mali, “cuide ao menos de distribuir belas palavras”...
(Trad.: Jô Amado)