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maio 2002



LITERATURA

Nos porões

A festa do Bode, de Mario Vargas Llosa (trecho)


Tiraram-no do carro a empurrões. Cruzou um corredor escuro, com celas onde estavam grupos de homens nus, e o fizeram descer uma longa escadaria. O Turco se sentiu tonto pelo cheiro azedo, forte, de excremento, vômito e carne queimada. Pensou no inferno. No fundo da escada havia luz, mas nas trevas ele conseguiu ver uma fileira de celas, com portas de ferro e janelinhas com grades, cheias de cabeças tentando enxergar alguma coisa. No fim do subterrâneo, arrancaram-lhe a calça, a camisa, a cueca, os sapatos e as meias. Ficou nu, algemado. Sentia as plantas dos pés molhadas por uma substância pegajosa, que estava por todo o chão de ladrilhos sujos. Sempre aos empurrões, o Turco entrou em outra sala, quase totalmente escura. Ali o sentaram e o amarraram num sofá desconjuntado, forrado de placas metálicas – sentiu um calafrio – com correias e anéis de metal para as mãos e para os pés. (...) A descarga elétrica o levantou e o espremeu contra as ligaduras e anéis que o subjugavam. Sentiu agulhas nos poros, a cabeça explodiu em bólidos ardentes, e ele urinou, cagou e vomitou o que tinha nas entranhas. Um balde de água o fez voltar a si. (...) A segunda descarga voltou a lançá-lo contra as amarras – sentiu que os olhos saíram das órbitas como os de um sapo – e desmaiou. Quando o reanimaram, estava no chão de uma cela, nu e algemado, no meio de um charco de lama. Caíam-lhe os ossos, os músculos, e sentiu um ardor insuportável nos testículos e no ânus, como se os tivesse esfolado.

De todos os testemunhos de seus companheiros de cela, Salvador ficou impressionado, de forma indelével, com a história que contou Modesto Díaz entre soluços. Nas primeiras semanas, teve Miguel Angel Báez Díaz como companheiro de cela. O Turco lembrava de sua surpresa, em 30 de maio, na estrada para San Cristóbal, quando esse personagem apareceu junto ao seu Volkswagen garantindo-lhe que Trujillo, com que ele havia caminhado na Avenida, viria, e soube assim que esse grande senhor da elite trujillista também estava na conjuração. Abbes García e Ramfis ficaram tão enlouquecidos com ele, por haver estado tão perto de Trujillo, que presenciaram as sessões de cadeira elétrica, os açoites e as queimaduras que lhe infligiam, dizendo aos médicos do SIM que o reanimassem para continuar. Duas ou três semanas depois, em vez do habitual prato fedido de farinha de milho, trouxeram ao calabouço uma panela com pedaços de carne. Miguel Angel o insultou: “Pode dizer a esse imundo filho da puta que morda a língua e se envenene.” O carcereiro começou a rir. Saiu e voltou, mostrando-lhes, da porta, uma cabeça de criança que segurava pelos cabelos. Miguel Angel Báez Díaz morreu horas depois, nos braços de Modesto, de um infarto.

Tradução do espanhol de Wladir Dupont, São Paulo, ed. Mandarim, 2000, pp. 374 a 379.