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junho 2002



FRANÇA/ELEIÇÕES

Crônica do coro da imprensa

Articulado e regido pelos meios de comunicação, um coro unívoco e uniforme exigiu, no período de 22 de abril a 4 de maio, que a França votasse em Chirac. Uma exigência melodramática, intimidadora e dissimuladora. Com que objetivos?


Edgar Roskis

O importante era votar – sem ter que explicar “Chirac”, precaução que se tornara desnecessária após doze dias de “civismo intensivo”

“Nunca tantos órgãos da imprensa, sem qualquer distinção partidária, fizeram tamanha campanha para que o voto assumisse o significado de uma renovação do pacto democrático”, escreveu Serge July no jornal Libération1, na antevéspera do segundo turno da eleição presidencial. De fato, jamais se ouvira um coro tão completo sair em socorro da República, nem jamais se vira tão nobre corporação quebrar, de comum acordo, suas regras básicas.

Pois não se tratava apenas de evitar a qualquer custo a besta imunda, mas de lhe desferir a estocada de acordo com a forma de um ritual único, não permitindo qualquer variante, desconhecendo qualquer hesitação ou tergiversação. “Nem luvas. Nem pregador de roupa. Nem barba falsa, nem gorro. Nem pé pesado, nem balanço de cabeça. Nada. Votar, simplesmente votar2.” Nada de segundas intenções e, se é que se compreendeu corretamente, nada de pensar. Votar – sem ter que explicar “Chirac”, precaução desnecessária após doze dias de civismo intensivo. No dia 27 de abril, por exemplo, um debate transmitido pela France-Inter opunha – no tradicional contexto de posições altamente contraditórias – Laurent Joffrin, diretor de redação do Nouvel Observateur, a um outro jornalista, Philippe Tesson. Embora ambos se felicitassem pela convocação, coincidente, para votar em Jacques Chirac, uma terrível discordância os separava: o primeiro pretendia votar com os dedos tampando o nariz. “Não, sem tampar o nariz”, exigiu o outro. Por fim, chegaram ao acordo de que após o dia 5 de maio “a democracia retomará seu curso”. Exatamente: retomar seu curso. Seja por lapso ou por ingenuidade, a observação é finíssima, pois o período de 22 de abril a 4 de maio – embora Le Pen ainda não estivesse no poder – distinguiu-se pela ausência da expressão democrática normal.

Simplismo e rolo compressor

Uma nova espécie de lei marcial decretou a proibição de armas perigosas, como um pregador, para tampar o nariz, ou luvas, para não sujar as mãos

Uma nova espécie de lei marcial decretou a proibição de armas perigosas, como um pregador no nariz ou luvas, e os ridículos partidários de seu uso foram energicamente advertidos sobre a legislação eleitoral. Os que defendiam a abstenção ou o voto nulo foram desqualificados. Os ex-candidatos de extrema-esquerda foram qualificados, porém, de “candidatos radicais intransigentes3”, forma abjeta de colocá-los no mesmo saco com os da extrema-direita. A urgência exigia o simplismo, o jornalismo “não-partidário” tornou-se militante, a hora era dos slogans: “Abstenção, armadilha para imbecis4”, dizia a manchete que cobria toda a capa do semanário Télérama5.

E exigia também a censura: de um total de 83 artigos assinados abordando o tema da eleição (46 em Le Monde e 37 no Libération) – que não representavam a opinião do jornal que os divulgava – apenas dois, publicados no mesmo dia pelo Monde, questionavam o voto em Chirac6. Alguns desses artigos chegavam a insinuar que, num primeiro momento, os eleitores mais jovens seriam os principais suspeitos de não-adesão ao rolo compressor. “Dizer não à matança, ao ódio, à intolerância, ao racismo, ao anti-semitismo e à cancerização7 significa inventar uma nova gramática e ela se soletra C-H-I-R-A-C”, diziam, sérios, os espirituosos irmãos Cohn-Bendit8. Embora em gestação, existe um outro tipo de discurso que questiona a natureza da direita, em geral, e do chiraquismo, em particular, do qual é exemplo “Toulouse, onde a orientação para votar em Chirac não é assim tão óbvia9”. Num regime democrático, por que não mereceria espaço esse discurso, por que ocultá-lo?

Prodigalidade dos editorialistas

Qualificar a extrema-esquerda de “radical intransigente” foi a forma abjeta encontrada de colocá-la no mesmo saco com a extrema-direita

Imposta, de uma vez por todas, a cor correta da cédula em que se deveria votar, um novo perigo, que vem das ruas, alarma aquele coro de eruditos: aqueles ranhentos inconscientes não iriam, com sua gesticulação inútil, arruinar o belo edifício? Tornavam-se fundamentais, portanto, algumas medidas preventivas. “Aparentemente, não será nas ruas [qualificadas de ‘mito’, no título do artigo] mas, sim, nas cabines de votação que Le Pen será esmagado e os franceses irão recuperar sua dignidade ferida”, ressoa a voz de Gerard Dupuy que, “aparentemente”, esqueceu os tempos de sua militância com cabelos compridos e calções curtos10.

Não tendo ocorrido, entretanto, qualquer ação repreensível que merecesse ser deplorada, os reis dos editoriais mostraram-se príncipes pródigos, levando a saudação ao “civismo da juventude” às raias do lirismo: “Jovens descem as ruas em desfiles cabriolados11”. A televisão soprou as trombetas com a delicadeza que lhe é peculiar.

A conversão do herege

No jornal do canal France 2, a apresentadora perguntou ao ministro da Educação (do governo Jospin, derrotado) se não gostaria de pedir voto para Chirac

Às 20 horas do domingo, 28 de abril – precisamente na metade da campanha para o segundo turno – o jornal da emissora France 2 dizia o seguinte (pela ordem e minuto a minuto): 1. Jornada mundial da deportação: “as cerimônias ganharam uma cor especial, como se o dever de memória se tornasse obrigatório” (1 minuto e 55 segundos); 2. Manifestação no Panthéon contra a extrema-direita (20 segundos); 3. Após ter visitado Dreux, Jacques Chirac está em Dordogne para “defender a política agrícola comum atacada por Jean-Marie Le Pen” (1 minuto e 45 segundos); 4. Mobilizados, artistas “põem seus nomes famosos a serviço da República” e “inúmeras personalidades convocam a votar em Chirac” (1 minuto e 45 segundos); 5. Análise do “tema da cultura no programa da Frente Nacional” (2 minutos e 30 segundos); 6. Entrevista com Bruno Gollnisch, diretor da campanha de Le Pen (40 segundos); 7. Análise do significado do voto em Le Pen (1 minuto e 50 segundos); 8. Na rua, estudantes universitários e colegiais entrevistados dizem que “a mobilização deve crescer” com o fim das férias (2 minutos); 9. Entrevista com Jack Lang, ministro da Educação, que se diz “orgulhoso da nossa juventude e da escola da República” (4 minutos e 20 segundos); 10. Fracasso do clube de futebol de Dirac (Departamento de Charente), onde 108 dos 1.400 habitantes votaram em Le Pen no primeiro turno (1 minuto e 45 segundos); 11. “Mobilização” da imprensa estrangeira devido ao êxito da Frente Nacional (1 minuto e 50 segundos). Total: 20 minutos e 40 segundos. Os restantes quinze minutos seriam dedicados a assuntos variados, tais como a morte de Ruth Handler, criadora da boneca... Barbie.

Durante o programa, Béatrice Schonberg, que apresenta o jornal, perguntou a Jack Lang, por duas vezes, referindo-se ao pedido de voto feito por Lionel Jospin sem mencionar o nome de Chirac, se não gostaria de o fazer em seu lugar: “O senhor acha que esta é uma hora de sutilezas?”, insistiu. Até ele ter pronunciado um meio-consentimento, a desistência foi exigida do vencido por quase todos os comentaristas segundo o procedimento ameaçador do auto-de-fé, suplício em que a conversão do herege – antes de ser queimado na fogueira – se dava em três tempos: abjuração; contrição; pronunciação (de sua nova fé) 12.

Unanimidade como “objetivo patriótico”

Finalmente, para “mobilizar” o eleitorado, o passado de Le Pen passou a ser sistematicamente esquadrinhado e exibido, ressaltando-se seu lado bull-dog

E finalmente, para “mobilizar” o eleitorado, o passado de Le Pen passou a ser esquadrinhado e exibido, quase sempre de baixo para cima, ressaltando seu lado bull-dog. Como explicação – coisa que jamais se tentou seriamente fazer em momento algum, durante esse período irracional – para motivar os eleitores, documentários sobre o governo de Vichy, sobre a deportação e sobre o holocausto saíram das gavetas onde estavam mofando devido à saturação. Estrangeiros e imigrantes – de quem se esqueceu por um instante a origem turbulenta e os envolvimentos com o tráfico da véspera – reapareceram felizes como Deus na França, reaquecidos por um colorido de malha de tricô. No fim de semana, a emissora France-Info reservaria para seu programa turístico um assunto inédito: a cabine de votação. Elogia-se a postura republicana do sindicato patronal Medef, mas, para não “desmobilizar” os eleitores, oculta-se: a atitude do empresariado francês durante a invasão alemã; o financiamento pelos neo-gaullistas dos “republicaníssimos” Serviços de Ação Cívica (SAC); o sangue dos doze mortos na gruta de Ouvéa em 5 de maio (coincidência!) de 1988; o acesso da Frente Nacional à prefeitura de Dreux devido à omissão da direita da “frente republicana” e, em relação aos cinco últimos dias, as previsões desastrosas das pesquisas para o candidato da Frente Nacional.

Precisamente no momento em que alguns jornalistas questionavam publicamente, e com toda a sinceridade, a responsabilidade que teriam em relação à exposição exagerada do tema da insegurança e ao desprezo de seus empregadores para com “a França do andar de baixo”, não percebiam que a maioria de sua própria corporação já se entregara – plenamente consciente do que fazia – a uma nova fase, exacerbada, de propaganda. Pois, que outro nome se poderia dar a uma operação que se processa por meio de exageros melodramáticos, pela intimidação, pela dissimulação? E com que objetivos?

Unanimidade parecida, mas não tão catártica, já tinha sido vista na ocasião do voto sobre o Tratado de Maastricht, contra franceses “hesitantes e arcaicos”

Uma unanimidade parecida, mas nunca tão catártica, já tinha podido ser vista por ocasião do voto sobre o Tratado de Maastricht, contra franceses “hesitantes e arcaicos”; durante as operações no Kosovo, que se tornou uma província do Ocidente; durante os bombardeios do Iraque e do atentado de 11 de setembro; e por ocasião da luta contra o terrorismo, quando a vassalagem para com os Estados Unidos tomou o lugar de política externa. Talvez essa unanimidade volte a surgir amanhã, quando a “flexibilidade”, a produtividade individual e adoção pelos senhores do planeta se tornarem objetivos patrióticos. Dirão, por certo, que neste caso se tratava de uma causa pura. Mas, se os fins justificam os meios, o que passa a ser a causa, nessa confusão de idéias e de opiniões? No frontispício da República está gravado o tríptico liberdade-igualdade-fraternidade: um lema, para alguns, um programa, para outros. É por aí, com certeza, que passa a linha que separa a esquerda e a direita – que com tanta insistência queriam apagar.
(Trad.: Jô Amado)

1 - 3 de maio de 2002.
2 - Pierre Georges, Le Monde, 4 de maio de 2002.
3 - Libération, 23 de abril. No mesmo editorial, Serge July lembra que “um último terço [do eleitorado] votou em candidatos populistas de extrema-direita ou de extrema-esquerda”.
4 - N.T.: No original, em francês, a frase rima: Abstention, piège à cons.
5 - Nº 2.728, de 27 de abril a 11 de maio de 2002.
6 - Le Monde, 26 de abril de 2002. Artigos de Yves Michaud, filósofo (“Que Chirac se vire com os votos de sua coalizão”), e de Paul Alliès, professor de Ciências Políticas e vereador pelo PS (“Votar em Chirac tem o inconveniente de deixar as coisas como estão”).
7 - N.T.: As palavras, em francês (Couperet, Haine, Intolérance, Racisme, Antisémitisme, Cancérisation), formam o acróstico C-H-I-R-A-C.
8 - Daniel e Gabriel Cohn-Bendit, Libération, 26 de abril de 2002.
9 - Jean-Paul Besset e Jean-Paul Dufour, Le Monde, 27 de abrilde 2002.
10 - Libération, 27-28 de abril de 2002.
11 - Serge July, Libération, 26 de abril de 2002.
12 - Esta análise foi feita por François Brune, colaborador do Monde diplomatique e autor, entre outros livros, de Les médias pensent comme moi (ed. L’Harmattan, 1997) e Médiatiquement correct (ed. Paris-Méditerranée, 1998).