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setembro 2002



DOSSIÊ 11 DE SETEMBRO

O relatório enterrado da ONU

Na noite de 30 de junho para 1o de julho, a aviação norte-americana bombardeou a aldeia de Kakrakai, na província de Uruzgan, fazendo uns cinqüenta mortos e mais de cem feridos – na maioria mulheres e crianças que participavam de uma festa de casamento. As Nações Unidas enviaram então para o local membros de sua missão para o Afeganistão e também da Organização Mundial da Saúde, do Alto Comissariado para os Refugiados etc. Um primeiro relatório foi redigido, esclarecendo o fato de que ninguém havia atirado contra os aviões e afirmando que investigadores norte-americanos haviam tentado camuflar provas, esperando que desaparecesse o interesse pelo acontecido.

Preocupada com as repercussões desse relatório, a ONU decidiu, por um lado, pedir uma segunda versão do texto “mais responsável” e, por outro lado, não tornar público esse documento maquiado, mas transmiti-lo aos governos norte-americano e afegão. Sustentou que seus delegados locais não tinham a competência militar ou balística para fazer aquela investigação. Mas então, por que os havia enviado ao local?

Interrogado, o porta-voz das Nações Unidas, muito constrangido, desmentiu que essa prudência resultasse de pressões de Washington. No entanto, foi isso que aconteceu. Como destacou o Financial Times (30 de julho de 2002), “os Estados Unidos são o principal fornecedor de fundos das Nações Unidas e de muitas de suas operações, e detêm o direito de veto no Conselho de Segurança que decide sobre questões como a do mandato dos capacetes azuis no Afeganistão”.

Vários testemunhos dos habitantes da aldeia sobre o comportamento dos investigadores norte-americanos depois do bombardeio – casas invadidas, homens e mulheres com pés e mãos amarrados e impedidos de socorrer os feridos, mulheres mortas fotografadas nuas etc. – provocaram repúdio até do governo de Cabul. O porta-voz do presidente afegão Hamid Karzai declarou, em 2 de agosto, a respeito do segundo relatório das Nações Unidas, que era melhor publicá-lo. “Há erros. Quem os cometeu? Mais do que camuflar, seria melhor investigar, encontrar. É a melhor saída para acabar com o problema e obter a confiança do povo, e também para que ele se acalme. Se não, se camuflarem as coisas, isso não irá ajudar os norte-americanos, nem os afegãos.”

(Trad.: Regina Salgado Campos)