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setembro 2001



DOSSIÊ RIQUEZA

As jornadas de iniciação

As crianças aprendem que a cultura é um elemento inseparável de suas vidas, que perpassa as relações de amizade, que suas famílias são sempre acolhidas com a maior deferência, que existe uma afinidade profunda entre o seu dia-a-dia e o da cultura


Michel Pinçon , Monique Pinçon-Charlot

Os rallyes1 existem desde o início da década de 50. Após a II Guerra Mundial, tornou-se cada vez mais difícil a imposição de casamentos excessivamente “arrumados”. Essas jornadas de iniciação, terceira instância da socialização – após a família e a escola – atenuam essa dificuldade. Grupos de jovens, cuidadosamente selecionados, cooptados pelas mães, começam, dos 10 aos 13 anos, por incursões culturais, para terminar em soirées dançantes. Esses passeios culturais são um exemplo perfeito de como se ajustam as diversas formas de capitais. O grupo de crianças pode, por exemplo, ser levado por algumas mães à embaixada da Grã-Bretanha. Recebidos pessoalmente pelo embaixador, que tem vínculos de amizade ou de parentesco com as famílias do rallye, as crianças serão então guiadas por ele próprio para conhecerem as dependências daquele monumento histórico, tombado. Em alguns casos, o curador ou o padre, também próximos das famílias do rallye, conduzem a visita a um museu ou uma igreja.

A economia afetiva da burguesia

O objetivo é claro: orientar os jovens para que não arruínem um futuro brilhante através de uma aliança que possa romper o fio da dinastia

As crianças aprendem, por exemplo, que a cultura é um elemento inseparável de suas vidas, que ela perpassa suas relações de amizade, que suas famílias se sentem em casa em qualquer lugar, sempre acolhidas com a maior deferência, que existe uma afinidade profunda entre o seu dia-a-dia e o dos museus, dos monumentos, das salas de espetáculos. Para essas crianças, a cultura é a vida.

Tanto isso é assim que o rallye atinge quase sempre o seu objetivo: orientar os jovens para que não arruínem um futuro brilhante, um destino fora do comum, através de uma aliança desastrada que possa romper o fio da dinastia – nobre ou burguesa. Não existe livre iniciativa na economia afetiva da grande burguesia.
(Trad.: Jô Amado)