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setembro 2002



DOSSIÊ 11 DE SETEMBRO

Sombria tentação imperial

Logo, como todos os impérios anteriores, Washington, verdadeiro Extremo Ocidente, só poderá se ocupar, na expressão do escritor sul-africano John Michael Coezee, “de um único pensamento: como não acabar, como não morrer, como prolongar sua era”


Philip S.Golub

Sob George W. Bush, uma nova gramática imperial começa a nascer. Ela se parece com a do final do século XIX, quando os EUA se lançaram à competição colonial

Alguns meses antes dos atentados de 11 de setembro, o historiador norte-americano Arthur Schlesinger Jr. conjeturava que, “apesar da tentação de superpotência” advinda da unipolaridade, os Estados Unidos não se inclinariam repentinamente para o imperialismo, visto que nenhuma nação estaria em condições de “assumir o papel de árbitro ou polícia mundial” e de enfrentar, sozinha, os desafios globais ambientais, demográficos e políticos do século XXI1. Como muitos intelectuais, Schlesinger continuava confiante na “capacidade de auto-regulação da democracia” norte-americana e na racionalidade de seus dirigentes.

Com o mesmo espírito, Charles William Maynes, voz influente no cenário norte-americano de política externa, afirmava que “os Estados Unidos são um país dotado de capacidades imperiais, porém destituído de vocação imperialista2”. Hoje, é preciso aceitar as evidências: sob George W. Bush, uma nova gramática imperial começa a nascer. Ela se parece com a do final do século XIX, quando os Estados Unidos se lançaram na competição colonial, dando seus primeiros grandes passos rumo à expansão mundial no Caribe, na Ásia e no Pacífico. Na época, um prodigioso fervor imperialista dominou o país de Jefferson e Lincoln. Jornalistas, homens de negócios, banqueiros e políticos competiam veementemente na promoção de uma política forte de conquista do mundo.

A vocação imperialista, uma aberração

Os políticos do final do século XIX queriam uma “esplêndida guerrinha” - expressão de Theodore Roosevelt - que servisse para justificar o expansionismo

Os “olhos dos dirigentes econômicos estavam fixos na supremacia da indústria mundial3” e os políticos sonhavam com uma “esplêndida guerrinha” - famosa expressão de Theodore Roosevelt - que serviria para justificar a expansão internacional. “Nenhum povo no século XIX igualou nossas conquistas, nossa colonização e nossa expansão [...]; agora, nada nos deterá”, afirmava o senador Henry Cabot Lodge, líder do grupo imperialista, em 18954. Para Theodore Roosevelt, admirador eventual do poeta imperial inglês Rudyard Kipling, a questão já estava definida. Dizia: “Quero que os Estados Unidos se tornem uma potência dominante no Pacífico.” E acrescentava: “O povo norte-americano deseja fazer as grandes obras de uma grande potência5.”

Resumindo essa onda imperialista da década de 1890, certo jornalista, Marse Henry Watterson, escrevia com orgulho e de forma curiosamente premonitória em 1896: “Somos uma grande República imperial destinada a exercer uma influência determinante sobre a humanidade e a moldar o futuro do mundo como jamais outra nação o fez, inclusive o império romano6.”

A historiografia tradicional norte-americana considerou por muito tempo esse Sturm und Drang imperialista como uma aberração no percurso democrático, aliás, bastante uniforme. Nascidos e forjados na luta anticolonialista contra o império britânico e as monarquias absolutistas européias, não seria de esperar que os Estados Unidos estivessem vacinados para sempre contra o vírus imperialista?

“Desde que Roma destruiu Cartago...”

A historiografia tradicional norte-americana considerou por muito tempo essa turbulência imperialista como uma aberração no percurso democrático

Porém, um século mais tarde, quando começa um novo período de expansão e de formalização do império norte-americano, Roma volta a ser o espelho longínquo, mas inevitável, das elites norte-americanas. Do alto da unipolaridade obtida em 1991 – e reforçada depois de 11 de setembro de 2001 por meio de uma mobilização militar de excepcional amplitude – os Estados Unidos, fascinados por sua própria força, afirmam-se e exibem-se hoje, abertamente, como uma potência imperial. Pela primeira vez, desde o final do século XIX, a propagação da força é acompanhada por um discurso explícito de legitimação do império.

Charles Krauthammer, editorialista do Washington Post e um dos ideólogos mais destacados da nova direita norte-americana, afirma: “O fato é que, desde Roma, nenhum país foi cultural, econômica, técnica e militarmente tão dominante7.” “Os Estados Unidos”, já escrevia ele em 1999, “assenhoreiam-se do mundo como um colosso [...]. Desde que Roma destruiu Cartago, nenhuma outra grande potência chegou tão alto como nós.” Para Robert Kaplan, ensaísta e um dos mentores de George W. Bush em política internacional, “a vitória dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, tanto quanto a de Roma na Segunda Guerra Púnica, os transformou em potência universal8”.

A súplica por “um governo esclarecido”

Um século depois, quando começa uma nova era do império norte-americano, Roma volta a ser o espelho longínquo, mas inevitável, das elites norte-americanas

Roma também passou a ser referência obrigatória de autores situados mais no centro do jogo político. Joseph S. Nye Jr., reitor da Kennedy School of Government, na Universidade de Harvard, e secretário da Defesa do governo de William Clinton, começa seu último livro assim: “Desde Roma, nunca houve uma nação que tanto tenha eclipsado as outras9.” Paul Kennedy, historiador de renome, conhecido pela tese que desenvolveu na década de 80 sobre a “superextensão imperial” dos Estados Unidos, vai mais longe ainda: “Nem a Pax Britannica [...], nem a França napoleônica [...], nem a Espanha de Filipe II, nem o Império de Carlos Magno, nem mesmo o Império Romano se podem comparar” à atual dominação norte-americana10. “Jamais se conheceu”, acrescenta ele mais friamente, “uma tal disparidade de poder” no sistema mundial.

Em resumo, os meios mais ou menos ligados ao poder concordam, nos EUA com o fato de que o país goza, hoje, de “uma preeminência incomparável com a dos impérios do passado, inclusive os maiores11”. Além de seu aspecto descritivo, a recorrência à analogia romana, assim como a ubiqüidade da palavra “império” na imprensa e nas revistas especializadas norte-americanas, comprovam a construção de uma nova ideologia imperial.

“Argumento em favor de um império americano”: esse é o título límpido de um artigo de Max Boot, editorialista no Wall Street Journal, em que se lê: “Não é por acaso que os Estados Unidos [estariam hoje comprometidos com] ações militares em inúmeros países em que gerações de soldados coloniais britânicos fizeram campanha (...), em regiões onde foi necessária a intervenção de exércitos ocidentais para reprimir a desordem”. Segundo Boot, “o Afeganistão e outros lugares problemáticos imploram hoje [ao Ocidente] que instale um governo estrangeiro esclarecido, como o que foi oferecido antigamente por esses ingleses confiáveis, usando jodhpurs12 e capacetes coloniais13”.

A ordem jurídica do império

Para Robert Kaplan, um dos mentores de George W. Bush, “a vitória dos Estados Unidos na II Guerra Mundial os transformou em potência universal”

Outro ideólogo de direita, Dinesh D’Souza, pesquisador na Hoover Institution, que há alguns anos se fez notar ao defender teorias sobre a inferioridade “natural” dos afro-americanos, afirma, num artigo intitulado “Elogio do império norte-americano”, que os norte-americanos devem, finalmente, reconhecer que seu país “tornou-se um império [...], o mais magnânimo dos impérios que o mundo já conheceu14”.

Às vozes desses diabólicos arautos da nova direita, juntam-se as de professores universitários, como Stephen Peter Rosen, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos Olin, da Universidade de Harvard. Ele afirma, com um soberbo desprendimento científico, que uma “entidade política que dispõe de um poder militar esmagador e utiliza esse poder para influir sobre o comportamento dos outros Estados chama-se, realmente, um império [...]. Nosso objetivo”, continua ele, “não é combater um rival, pois este não existe, mas conservar nossa posição imperial e manter a ordem imperial15”. Uma ordem, como enfatiza um outro professor de Harvard, inteiramente “moldada em proveito [exclusivo] de objetivos imperiais norte-americanos”, na qual “o império aprova os elementos da ordem jurídica internacional que lhe convêm (a OMC, por exemplo), ignorando ou sabotando aqueles que não lhe convêm (o Protocolo de Kyoto, o Tribunal Penal Internacional, o Tratado ABM) 16”.

A lógica irresistível do neo-imperialismo

Para Boot, editorialista do Wall Street Journal, “o Afeganistão e outros lugares problemáticos imploram [ao Ocidente] que instale um governo esclarecido”

O fato de a própria idéia de império ser um desvio radical da idéia toquevilliana que, tradicionalmente, os norte-americanos têm de si mesmos - como exceção democrática entre as nações modernas - não parece representar um problema insuperável. Para quem ainda tenha escrúpulos – e são cada vez menos – basta acrescentar os adjetivos “benevolente” e “doce” às palavras “império” e “hegemonia”. Robert Kagan, do Carnegie Endowment, por exemplo, escreve: “a verdade é que a hegemonia benevolente (benevolent hegemony) exercida pelos Estados Unidos é boa para uma grande parte da população mundial. Ela é, sem dúvida alguma, um arranjo melhor que qualquer outra alternativa realista17”.

Cem anos antes, Theodore Roosevelt utilizava quase as mesmas palavras. Rejeitando qualquer comparação entre os Estados Unidos e os predadores coloniais europeus da época, dizia: “A verdade pura e simples é que nossa política de expansão, inscrita em toda a história norte-americana [...], em nada se parece com o imperialismo [...]. Até hoje, nunca encontrei um único imperialista em todo o país18.”

Mais direto, Sebastian Mallaby se define como “imperialista hesitante”. Editorialista do Washington Post (jornal que se tornou célebre pelo escândalo de Watergate e sua oposição, ainda que tardia, à guerra do Vietnã, mas que, a partir de 11 de setembro, passou a ser militante do império), sugeriu, em abril de 2002, na sisuda revista Foreign Affairs, que a desordem mundial atual exige dos Estados Unidos uma política imperial. Esboçando um quadro apocalíptico dos países do Terceiro Mundo – em que se combinariam a falência dos Estados, o crescimento demográfico descontrolado, uma violência endêmica e a desintegração social – ele considera que a única opção racional seria a volta ao imperialismo, ou seja, colocar sob tutela direta os países do Terceiro Mundo que ameaçam a segurança do Ocidente. Para Mallaby, “uma vez que as opções não-imperialistas demonstraram ser ineficazes [...], a lógica do neo-imperialismo é forte demais para que o governo Bush lhe possa resistir19”.

A prosperidade pela guerra

Mallaby, do Washington Post, considera que a única opção racional seria colocar sob tutela direta os países do Sul que ameaçam a segurança do Ocidente

Na verdade, Bush não parece resistir muito à “lógica” neo-imperial. Evidentemente, resiste em investir dólares para reconstruir países “falidos” ou engajar seu país em intervenções humanitárias. Mas não hesita um instante em espalhar as forças armadas norte-americanas pelos quatro cantos do mundo para esmagar “os inimigos da civilização” e as “forças do mal”. Aliás, sua semântica – suas referências constantes à luta entre a “civilização” e a “barbárie”, e à “pacificação” dos bárbaros – revela um pensamento imperial bastante clássico.

Não se sabe exatamente o que Bush teria retido da pródiga educação que lhe foi dada por Yale e Harvard, instituições de prestígio. Todavia, a partir de 11 de setembro, ele passou, sem dúvida, a ser o César do novo campo imperial norte-americano. Como César, que, segundo Cícero, “teve êxitos absolutos em campanhas muito importantes contra povos muito belicosos [...] e conseguiu amedrontá-los, afastá-los, domá-los, habituá-los a obedecer à autoridade do povo romano20”, Bush e a nova direita norte-americana pensam, a partir de agora, garantir a segurança e a prosperidade do império pela guerra, subjugando os povos indóceis do Terceiro Mundo, derrubando os “Estados delinqüentes” e, talvez, colocando sob sua tutela os “países falidos” pós-coloniais.

Em busca de uma segurança que esperam obter mais pela força das armas do que pela cooperação, os Estados Unidos agem sozinhos ou com coalizões circunstanciais, de forma unilateral e em função de interesses nacionais estritamente definidos. Ao invés de atacar as causas econômicas e sociais que incentivam a reprodução constante da violência nos países do hemisfério Sul, estão em via de desestabilizá-los ainda mais ao estabelecerem ali suas forças armadas. O fato de o objetivo dos Estados Unidos não ser a aquisição territorial direta, mas o controle, não muda em nada a questão: os imperialistas “benevolentes” ou “hesitantes” não são menos imperialistas.

A Europa, um vazio inexistente

“Os EUA ganharam a guerra fria, puseram Polônia e a República Checa no bolso, pulverizaram Sérvia e Afeganistão. De passagem, demonstraram a inexistência da Europa.”, diz Krauthammer

Se os países do Terceiro Mundo devem submeter-se e conhecer uma nova era de colonização e semi-soberania, a Europa deveria contentar-se com a condição de subordinada nesse sistema imperial. Na visão norte-americana, nascida da unipolaridade adquirida em 1991 e reforçada a partir do 11 de setembro, a Europa, longe de ser uma potência estratégica autônoma, seria uma região dependente sem “vontade nem capacidade para defender seu paraíso [...]; [sua proteção] depende da vontade norte-americana” de fazer a guerra21. Ela estaria inserida na nova divisão vertical do trabalho imperial, onde “os norte-americanos fazem a guerra enquanto os franceses, os ingleses e os alemães garantem as zonas de fronteira e os holandeses, os suíços e os escandinavos são auxiliares humanitários”. Atualmente, os “norte-americanos têm tão pouca confiança em seus aliados [...], com exceção dos britânicos, que os excluem de qualquer atividade que não seja o trabalho policial subalterno22”. Zbigniew Brzezinski, ideólogo do jihad anti-soviético no Afeganistão, já havia articulado uma idéia semelhante há alguns anos. Segundo ele, e inúmeros outros estrategistas norte-americanos, o objetivo dos Estados Unidos “deve ser manter nossos vassalos em estado de dependência, assegurar a docilidade e a proteção de nossos contribuintes e evitar a unificação dos bárbaros23”. Como de hábito, Charles Krauthammer diz as coisas de forma ainda mais crua: “Os Estados Unidos ganharam a guerra fria, puseram a Polônia e a República Checa no bolso, depois pulverizaram a Sérvia e o Afeganistão. E, de passagem, demonstraram a inexistência da Europa24.” Esse desprezo está muito presente nas fortes tensões que abalam as relações transatlânticas desde o 11 de setembro.

A opção imperial condenará os Estados Unidos a dedicarem o tempo hegemônico que lhes resta – seja ele qual for – à construção de muros em volta da cidadela ocidental. Em resumo, como todos os impérios que os precederam, os Estados Unidos, verdadeiro “extremo-ocidente”, só poderão se ocupar, segundo a expressão do escritor sul-africano John Michael Coetzee, “por um único pensamento: como não acabar, como não morrer, como prolongar sua era25”.

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Ler, de Arthur Schlesinger Jr., “Unilateralism in Historic Perspective”, in Understanding Unilateralism in US foreign Policy, RIIA, Londres, 2000, p. 18-28.
2 - Ler, de Charles William Maynes, “Two blasts against unilateralism”, in Understanding Unilateralism…, p. 30-48.
3 - Citações extraídas de William Appleman Williams, The Tragedy of American Diplomacy, ed. Dell, Nova York, 1962, p. 26.
4 - Citação extraída de K. Beale, Theodore Roosevelt and the Rise of American to World Power, ed. John Hopkins University Press, Baltimore e Londres, 1989, capítulo 1.
5 - Ler, de Howard K. Bearle, op.cit. p 38 e 39 e 70-78.
6 - Citado por David Healy em US Expansionism, the Imperialist Urge in the 1980’s, ed. The University of Wisconsin Press, Madison, Wisconsin, 1970, p. 46.
7 - Citado em “It takes an empire say several US thinker”, New York Times, 1º de abril de 2002. A citação de 1999 encontra-se em “The Second American Century”, Time Magazine, 27 de dezembro de 1999. Ler também, de C. Krauthammer, “The Unipolar Moment”, Foreign Affairs, Nova York, 1990.
8 - Citado em “It takes an empire...”, op. cit.
9 - Ler, de Joseph S. Nye Jr., The Paradox of American Power, ed. Oxford University Press, Nova York, 2002, p. 1
10 - Ler, de Paul Kennedy, “The Greatest Superpower Ever”, New Perspectives Quarterly, Washington, inverno de 2002.
11 - Ler, de Henry Kissinger, Does America Need a Foreign Policy, ed. Simon & Schuster, Nova York, 2001, p. 19.
12 - N.T.: Jodhpurs são calças de montaria batizadas com o nome de um estado colonial indiano.
13 - Ler, de Max Boot, “The Case for American Empire”, Weekly Standard, Washington, 15 de outubro de 2001, Vol. 7, n°5.
14 - Ler Christian Science Monitor, Boston, 26 de abril de 2002. Em seu livro The End of Racism, publicado em 1995, D’Souza afirma “que há uma hierarquia natural das capacidades raciais” que explicaria as taxas de criminalidade na comunidade afro-americana dos Estados Unidos.
15 - “The Future of War and the American Military”, Harvard Review, maio-junho 2002, Volume 104, n° 5, p. 29.
16 - Ler, de Michael Ignatieff, “Barbarians at the Gate?”, New York Reviewof Books, 28 de fevereiro de 2002, p.4.
17 - Ler, de Robert Kagan, “The Benevolent Empire”, Foreign Policy, Washington, verão de 1998.
18 - Ler, de Howard K. Bearle, op.cit., p. 68.
19 - Ler, de Sebastian Mallaby, “The Reluctant Imperialist, Terrorism, Failed States, and the Case for American Empire”, Foreign Affairs, Nova York, março-abril de 2002, pp. 2 a 7.
20 - Ler, de Cícero, Sur les provinces consulaires, séc. XIII, 32-35 et passim.
21 - Ler, de Robert Kagan, “Power and Weakness, Why Europe and the US see the world differently”, Policy Review, Washington, junho-julho 2002, n° 113.
22 - Ler, de Michael Ignatieff, op.cit, p.4.
23 - Citado por Charles William Maynes, op. Cit, p. 46.
24 - Ler The Washington Post, 20 de fevereiro de 2002.
25 - Extraído de seu grande romance En attendant les barbares, ed. Le Seuil, Paris, 1987, p. 216.