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outubro 2002



LIVROS

Um olhar sobre a história colonial

Três livros analisam a história colonial francesa. Sem firulas, denunciam os massacres sistemáticos, a violência estúpida e o racismo empedernido – atitudes e comportamentos que repercutem, por concordância ou indiferença, nos dias de hoje


Maurice T. Maschino

O país que é o berço dos direitos humanos reprimiu compulsivamente, da maneira mais sangrenta, os povos que reivindicavam a liberdade

Se “as feridas da dignidade nunca cicatrizam”, aqueles que as causam esquecem-nas muito depressa, evidentemente se as tiverem notado. Ou no caso de não se ter feito tudo para que eles as desconheçam.

Du Bougnoule1 au sauvageon [Do negro ao selvagem], de René Naba, portanto, refresca a memória de forma útil: em 150 páginas, esse ex-jornalista da Agência France Presse e da RMC Oriente Médio traça um quadro impressionante da história colonial francesa. Uma história marcada por massacres: sem falar da codificação, única na Europa, da escravidão (o Código só foi abolido em 1848), o país dos direitos humanos reprimiu compulsivamente, da maneira mais sangrenta, os povos que reivindicavam a liberdade: fornos crematórios artesanais por ocasião da conquista da Argélia (milhares de argelinos “enfumaçados” em grutas, sob o comando do general Bugeaud), 45 mil mortos em Sétif (1945), 90 mil em Madagascar (1947), 60 mil combatentes pró-independência carbonizados nos Camarões (1960).

Mentalidade “pré-lógica”

Os colonizadores franceses “deixariam bem para trás Augusto Pinochet (Chile), Jorge Videla (Argentina) ou Slobodan Milosevic (Iugoslávia)”

“Se fosse possível fazer uma comparação no plano da contabilidade mórbida”, diz René Naba, “o balanço francês justificaria plenamente um comparecimento diante da justiça internacional, e na escala dos derramamentos de sangue humano, os sangradores2 franceses deixariam bem atrás de si Augusto Pinochet (Chile), Jorge Videla (Argentina) ou Slobodan Milosevic”. E Osama bin Laden...

Massacres de ontem, repressão e humilhação contínua atualmente (cf. os vôos charter da vergonha de Charles Pasqua, o ataque com escavadeira contra uma residência com 300 malineses em Vitry, as batidas da polícia nas residências da Sonacotra): tal política só é possível, por muito tempo, com a concordância – ou com a indiferença – da maioria da população. Uma população completamente anestesiada e mistificada pela ideologia produzida pela colonização, que lhe serve de justificativa.

Historiador e doutor em Letras, Alain Ruscio apresenta um quadro extremamente rico em Le Credo de l’homme blanc (O Credo do homem branco). Um credo cujo postulado foi enunciado por Jean-Jacques Rousseau: “Estou persuadido de que não conhecemos outros homens a não ser os europeus”. Os outros, portanto, não são homens, ou melhor, são sub-homens, ou quase animais: têm cérebro mais leve do que o dos “civilizados” (Broca), “nariz achatado semelhante a rabos de aves”, mentalidade “pré-lógica” (Lévy-Bruhl) e vários defeitos: preguiça, violência, antropofagia...

Um tipo de apartheid light

“Estou persuadido de que não conhecemos outros homens a não ser os europeus” (J.-J.Rousseau). Os outros, portanto, seriam sub-homens, quase animais

Até os espíritos mais lúcidos são contaminados: os muçulmanos são “fanáticos” (Zola), o islã condena-os à “ignorância” (Chateaubriand) – mas, graças à França, escreve Arthur Rimbaud, a Argélia vai se tornar “próspera” e se civilizar. Esses “selvagens”, evidentemente, são desprovidos de qualquer sentido estético – não cantam, gritam; não dançam, contorcem-se... Há relativamente pouco tempo, em 1947, o diretor do Museu de Constantina declarou que a arquitetura árabe é de inspiração européia: seria na Espanha que teria nascido – Toledo não é a grande cidade do islã medieval? – e seria por imitação que se desenvolveu no Magrebe, que nunca teve, ao que parece, grandes pensadores, poetas, filósofos, matemáticos...

Os tempos mudaram, as ex-colônias tornaram-se países independentes? Ao que tudo indica. Na própria Europa, magrebinos e africanos distinguem-se como professores universitários, artistas, estilistas, médicos, e o Larousse já não define os árabes como uma “raça batalhadora, supersticiosa e malandra” (edição de 1948)... Ao que tudo indica também. Mas o apartheid – uma espécie de apartheid light – subsiste: os descendentes dos colonizados são mantidos, por exemplo, nos bastidores da mídia (quando se verá um francês de origem africana apresentar, na televisão, o noticiário das 20 horas?), e estão ausentes dos círculos de decisão política (nenhum deputado, nenhum senador é de origem africana). Será que é preciso se surpreender com o fato de as mentalidades não terem evoluído muito? Segundo o relatório da Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos (2000), 69% dos franceses declaram-se mais ou menos racistas e 63% consideram que há árabes demais.

(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - N.T.: Na origem, era como os brancos do Senegal chamavam os negros (bougnoule = negro, no dialeto local). Depois, ganhou uma conotação de injúria dirigida pelos europeus da África do Norte aos norte-africanos.
2 - N.T.: Há um trocadilho que se perdeu na tradução entre saigneur (de emprego pouco freqüente, justamente por causa da homonímia), que significa “o que tira o sangue”, “sangrador”, e seigneur, que significa “senhor”.