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setembro 2001



DOSSIÊ RIQUEZA

Na pista dos bem-nascidos

Malditas as tradições sindicais e a memória coletiva! Criticando a nostalgia do passado de seus empregados, que colocava em risco a empresa, o duque de Brissac escreveu: “Eles são sedentários e ficam grudados no lugar, como o marisco na pedra...”


Michel Pinçon , Monique Pinçon-Charlot

Quando fala sobre a sociedade, a burguesia defende um individualismo enfurecido, principalmente com relação aos assalariados, acusados de arcaísmo sem personalidade e de uma tímida pusilanimidade; mas quando o assunto é a sua vida, ela organiza sua auto-proteção, cria sistemas fechados de regulamentação coletiva, sem medo de utilizar esse Estado de bem-estar tantas vezes denunciado. A burguesia se comporta como uma classe que assume suas alianças, seu modo de vida, a educação dos futuros herdeiros e que expressa sua “coletividade”, gerenciando-a com uma sociabilidade constante. Trata-se de um grupo consciente de si mesmo, a ponto de definir suas fronteiras de maneira controlada pela técnica da cooptação.

Portes-en-Ré, uma ilha na ilha. Cercada de mar e de brejos salinos, no extremo da Ilha de Ré, esse povoado pouco freqüentado por turistas comuns tornou-se um dos lugares de encontro das famílias burguesas. Seduzidas pelo clima e pelo charme das habitações baixas, com pátios e jardins secretos, elas compram as casas do velho vilarejo. Uma tal concentração numa cidade tão pequena nota-se: no sábado pela manhã, no mercado, e principalmente no domingo, quando se sucedem duas missas em que a igreja fica lotada. Vinda dos bairros chiques de Paris, Bordeaux e Lyon, essa sociedade mostra um grande prazer em estar reunida. Uma grande homogeneidade de hexis corporais, ou seja, da maneira de mover o corpo e de apresentá-lo, chama a atenção imediatamente. Corpos bronzeados, eretos, magros e bem-postos, das crianças aos velhos.Roupas de verão, claro, mas sempre sóbrias.

Pragmatismo ideológico

A burguesia constitui um grupo consciente de si mesmo, a ponto de definir suas fronteiras de maneira controlada pela técnica da cooptação

As pessoas se conhecem. Cumprimentam-se, conversam longamente sobre o estado de conservação da igreja à saída da missa, formam-se grupos no terraço do café Bazenne para o aperitivo dominical. Uma sociedade bem-humorada, feliz de estar reunida e de poder ser ela mesma, ao abrigo de olhares inoportunos.

Numa convivência sempre cuidadosamente controlada, os membros da alta burguesia freqüentam os mesmos lugares, num vaivém que segue um ritmo variável, segundo a estação do ano, a idade e as obrigações profissionais. Isso acontece de tal maneira que os salões parisienses, as mansões à beira-mar, os chalés na montanha e os castelos constituem um vasto espaço, quase público, para a alta sociedade, que vive por ali, entre si mesma, exibindo o mesmo prazer e desenvoltura que demonstra quando está nos seus clubes.

Ao mesmo tempo em que manifesta esse coletivismo prático, a alta burguesia prega a ideologia do individualismo. Referências ao mercado, à concorrência e à competição prevalecem nos discursos da classe dominante, mesmo que sua prática esteja bem distante disso. Símbolo dessa linguagem dupla, o barão Ernest-Antoine Seillière, criador da refundação social pregada pelo Movimento das Empresas da França (Medef, sindicato patronal) é um perfeito representante da velha burguesia abastada (leia, nesta edição, o artigo “A família Seillière”).

Lentidão e ineficiência do Estado

No centro da lógica patronal, a vontade de individualizar as relações entre empregado e empresa é evidente. As relações trabalhistas não devem ser prejudicadas pela presença do Estado ou por leis e regulamentos que impediriam a livre expressão dos interesses de cada pessoa. Trata-se de um velho chavão revestido de modernidade e mudança. Vitoriosa em 1789, a burguesia não se enganou ao votar, já em 14 de junho de 1791, a Lei Le Chapelier, que proibia não só as corporações, como também as organizações operárias.

Atualmente, já não se trata de proibir sindicatos operários e outros tipos de organização, inclusive patronais. Mas, de modo abafado, são as formas de diálogo social que são visadas. A mudança de nome do Centro Nacional do Patronato Francês (CNPF) para Medef não é ingênua. O patronato, um pronome no singular que designa um conjunto de agentes sociais a respeito dos quais se pode pressupor uma certa unidade de opiniões, foi substituído por as empresas, um plural formado por entidades individualizadas. Prevalece, portanto, o dinamismo dos empresários e de seus “colaboradores”, em oposição à lentidão e à ineficiência constantemente denunciadas pelo Medef, das intervenções e ações das instâncias públicas.

Malditas tradições sindicais!

Os burgueses se conhecem. Conversam sobre a conservação da igreja à saída da missa, formam grupos no terraço do café para o aperitivo dominical

Portanto, é preciso “revitalizar o diálogo o mais próximo possível do real, ou seja, das empresas”, como declarou o próprio presidente do Medef diante da Academia das Ciências Morais e Políticas no dia 4 de dezembro de 2000. Segundo a organização patronal, “a empresa deveria tornar-se o principal lugar de negociação, sobrepondo-se, portanto, ao do setor e, a fortiori, aos níveis interprofissional e legislativo, com o indivíduo exercendo um papel importante, como assalariado1”. Essa orientação nega o próprio fundamento do progresso social, ou seja, a dimensão coletiva de direitos e propriedades (equipamentos sociais, auxílios a aluguéis etc.), que garante a proteção do indivíduo que apenas dispõe de sua força de trabalho. Como disse Robert Castel, há mais ou menos 25 anos que se assiste ao “desenvolvimento de um novo processo de individualização que recoloca em questão a parcela coletiva dos indivíduos. É a própria condição do indivíduo – ou, pelo menos, dos indivíduos que conquistaram sua consistência graças à propriedade social – que corre o risco de ser questionada2”.

A imposição da individualização – aos outros – é acompanhada pela imposição da modernidade. Malditas as tradições sindicais e a memória coletiva! À maneira do duque de Brissac, que criticava a nostalgia do passado dos empregados e suas posturas caseiras estéreis, colocando em perigo a empresa: “Eles são sedentários e ficam grudados no lugar, como o marisco na pedra”, escreveu, em 1986, talvez confortavelmente instalado na biblioteca de seu castelo de Brissac, propriedade da família há várias gerações3.

A multiterritorialidade da burguesia

Nestes tempos de reestruturação, de não-localização e de globalização, os capitalistas querem empregados dispostos a acompanhar as vagabundagens do capital. Pelo menos nos limites territoriais franceses, para os menos qualificados, e bem mais além para os qualificados. É claro que a mobilidade é diferente, caso seja compulsória ou voluntária, caso seja uma condição de sobrevivência ou faça parte de um modo de vida e de uma identidade.

Uma das características recorrentes das famílias da alta burguesia é a multiterritorialidade: a vida delas se dá em várias residências (apartamento em Paris, casa da família, ou castelo, no interior, e outras mansões de veraneio). O duque de Brissac, grande viajante, dispunha, entretanto, de uma casa da família onde se refugiar. Formado na Escola Politécnica, casado com May Schneider, herdeira do grupo do mesmo nome, onde ele foi diretor-presidente, ficou extremamente irritado com os desempregados que se recusaram a trabalhar como interinos em outras províncias, quando ele não hesitava em percorrer a França e o mundo para caçar e participar de cruzeiros marítimos, lugares adequados para a gestão do capital social4.

Homogeneidade social garantida

Salões parisienses, mansões à beira-mar, chalés e castelos constituem um espaço quase público para a alta sociedade, que vive por ali, entre si mesma

Essa gestão do capital social, que caracteriza essa classe, constitui uma de suas riquezas. O inventário dos participantes de enterros, casamentos, conselhos de administração, jantares e outras festividades evidencia uma acumulação faustuosa de poder e de prestígio. Os 387 convidados da festa dada por Ernest-Antoine Seillière por ocasião de seu 50o aniversário, nos salões do museu Grévin, são um perfeito exemplo disso. Sem querer ser muito exaustivo, poderia ser citada a presença de Michel David-Weill (banco Lazard), André Bettencourt (ex-ministro, cuja mulher, Liliane Bettencourt, da família Schueller, é herdeira do fundador da L`Oréal, detendo a maior fortuna da França), Philippe Bouriez (grupo Cora-Revillon), Jean-François Lemoine (proprietário do jornal Sud-Ouest), Edouard de Ribes (grupo Rivaud, genro de Jean de Beaumont, presidente e vice-presidente do Cercle de l’Union Interalliée), Guy e David de Rothschild, Jean-Pierre Soisson (ex-ministro), Pierre-Christian Taittinger (prefeito do 16o arrondissement de Paris, proprietário de um império vinícola e do hotel Crillon e da cadeia hoteleira Campanile) 5.

Além disso, esse capital social – ou, dito de outra maneira, o sistema de relações sociais – estende-se muito além das fronteiras nacionais, por meio de casamentos, estudos em estabelecimentos internacionais (principalmente colégios suíços), relações de negócios, cruzeiros marítimos ou safaris. Um modo de vida que se expande num imenso espaço, mas com a capacidade de inscrever essa mobilidade (que pode ser de longa duração, como no caso de estudos no exterior...) em espaços onde a homogeneidade social é garantida. Os palácios reconstituem, em todos os lugares, nichos de paz e convivência, como La Mamounia, longe do calor e da confusão de Marrakech.

“Nichos” no Bois de Boulogne

O discurso sobre vantagens adquiridas e o questionamento das formas sociais de proteção ou de propriedade entra em contradição com o verdadeiro uso que as classes mais favorecidas fazem dele. As declarações sobre “o mínimo de Estado” são pouco coerentes com as práticas que florescem na intervenção pública, que se servem à vontade dos bens públicos.

A busca por um emprego, por exemplo, permite o acesso à seguridade social, para si e para sua família. Encontram-se descendentes de grandes famílias na imprensa, ou em escritórios de consultoria, que conseguem dessa forma obter uma cobertura social das mais generosas.

Vitoriosa em 1789, a burguesia não se enganou ao votar, em 1791, a lei que proibia não só as corporações, como também as organizações operárias

A utilização de recursos coletivos segue a mesma lógica, ainda mais porque não pressupõe contrapartida. Grandes viajantes, os burgueses são assíduos usuários das infraestruturas públicas ligadas ao transporte: aeroportos, portos e estradas. Nota-se também o uso dos estabelecimentos escolares mais prestigiados. A admissão ao Instituto de Estudos Políticos de Paris, à Escola Nacional de Administração (ENA), à Politécnica, à Central ou à Escola de Altos Estudos Comerciais (HEC) está longe de ser democrática. Em 1993, por exemplo, apenas 7% dos estudantes dessas grandes escolas era de origem popular, enquanto 74% de jovens entre 20 e 24 anos eram de origem burguesa6. Os grandes espaços públicos sócio-culturais – museus, teatros, óperas – são amplamente utilizados por essas famílias, que mantêm uma relação privilegiada com esse tipo de cultura. E são as únicas a poder arranjar para si nichos reservados nos espaços coletivos, como acontece com as concessões – vários hectares do Bois de Boulogne, por exemplo – que conseguem para seus clubes de uso exclusivo.

Trampolins para a empresa familiar

A ocupação dos espaços públicos é reveladora das profundas desigualdades nas condições de vida produzidas pela intervenção dos administradores locais. Em Paris, por exemplo, o anel rodoviário, com seu barulho ensurdecedor, é coberto nos bairros a oeste, que são os da burguesia, e a céu aberto em inúmeros outros setores. A limpeza das ruas é diferente nos bairros chiques e nos pobres. As avenidas largas e arejadas da região oeste da cidade contrastam com as ruas estreitas e escuras dos setores onde a população imigrante é particularmente numerosa.

Em tempos de reestruturação, de não-localização e de globalização, os capitalistas querem empregados dispostos a acompanhar as vagabundagens do capital

No entanto, sob alguns aspectos, a alta burguesia parece bastante heterogênea. Fazem sentir-se desigualdades em todas as formas de capitais que contribuem para criar vínculos objetivos com um grupo, quer se trate de riquezas materiais, culturais, sociais ou simbólicas (leia, nesta edição, o artigo “Quem são eles?”, de Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot). No campo do capital acadêmico, alguns grandes burgueses são ex-alunos de escolas de prestígio, como a Politécnica ou a ENA. O duque de Brissac era politécnico e diretor-presidente do grupo Schneider. Ernest-Antoine Seillière veio da ENA. Outros, menos brilhantes, fizeram carreiras medíocres e estudaram em modestas escolas de comércio, o que lhes permitiu, mesmo assim, ocupar um trampolim em direção à empresa familiar.

Burgueses e “novos ricos”

O capital social é o aspecto em que se revela a menor tolerância às disparidades. Na realidade, essa forma de riqueza é vital ao grupo. Sua ausência significa ser marginalizado, assim como o fato de ter uma fortuna recém-adquirida. O acesso à burguesia se dá pelo enriquecimento, mas isso não basta: é preciso tempo para acumular a rede de relacionamentos que será a garantia da honorabilidade.

Para ser um grande burguês é preciso merecê-lo e prová-lo, e quem confere essa chancela é o próprio grupo, que coopta seus membros constantemente. Não se trata de um diploma expedido e autenticado pelo Estado, garantido para sempre. O grande burguês deve sempre esforçar-se, freqüentar os lugares certos, os coquetéis, as tribunas dos grandes prêmios hípicos, as estréias das óperas ou vernissages de exposições.

O capital social estende-se muito além-fronteiras, por meio de casamentos, estudo em escolas internacionais, relações de negócios, cruzeiros e safáris

É preciso tempo para acumular esse capital simbólico, para essa mágica social que transforma em qualidade pessoal ou familiar as riquezas socialmente acumuladas. Um sobrenome pode, na realidade, ter mais ou menos prestígio, e os sobrenomes nobres ainda detêm certa vantagem, dois séculos depois da Revolução. Quanto mais alto se sobe na escala social, menos a riqueza parece ter importância. O burguês (antigamente, o nobre, mas o que se trata é justamente da criação de uma nobreza do dinheiro) é o que é porque é um ser superior, e se é rico, isso se deve apenas ao caráter excepcional de sua pessoa. Assim transfiguradas, as qualidades dos membros do grupo aparecem independentes do nível de sua fortuna. No fundo, é graças à credibilidade e legitimidade da grande burguesia como classe dominante que sua posição não é medida pela riqueza material. As estatísticas do imposto de solidariedade sobre as grandes fortunas (ISF) mostram claramente que as diferenças de patrimônio são enormes (leia, nesta edição, o artigo “Quem são eles?”, de Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot) e que a relativa independência da burguesia em relação ao dinheiro é constitutiva de sua força simbólica como classe dominante. Ao contrário, a posição ainda instável dos novos ricos remete à unidimensionalidade de sua riqueza.

A manutenção da linhagem

Construção permanente dos agentes que a compõem, a burguesia consolida-se graças a uma técnica social garantida, a cooptação. Seja admitindo novos membros nos clubes, acolhendo novos adolescentes em um ou outro encontro ou substituindo um membro de um conselho de administração, tudo se passa como no caso dos imortais da Academia de Letras: por votação, elege-se o seu semelhante, que terá assim a garantia de atingir essa mobilidade simbólica que é um dos grandes privilégios do grupo.

O individualismo não tem lugar nesse meio e o indivíduo é, antes de tudo, o representante de uma família e de uma linhagem. A rigor, é possível construir um nome, mas o sobrenome é uma herança, o que implica muitos encargos para o beneficiário. O grande burguês é o elo de uma linhagem, ou melhor, a malha de uma rede, sustentado pela solidariedade das gerações e a de seus contemporâneos.

Ao mesmo tempo em que se desagregam os sentimentos de classe na sociedade, a grande burguesia continua altamente consciente de seus interesses

A importância da família nesse sistema é primordial. Ela condiciona as modalidades da transmissão e, portanto, da reprodução. Porém as heranças importantes são exigentes: é preciso haver herdeiros aptos a recebê-las. Ligado por um sistema escolar ad hoc, o meio familiar tem um papel de primeiro plano na formação do herdeiro. É compreensível a vigilância das alianças e da preservação da estrutura familiar. Divórcios, concubinatos, famílias mono-parentais devem ser evitados a qualquer preço e a grande burguesia deve manter-se distante do processo de desagregação da célula familiar. Se os casamentos parecem menos arranjados do que eram antigamente, eles continuam sendo uma peça-chave para a manutenção da linhagem. As jornadas para jovens constituem uma instância particularmente eficaz, permitindo a socialização dos adolescentes de acordo com as normas do grupo. Os futuros herdeiros aprendem a reconhecer instintivamente seus iguais enquanto parceiros possíveis para sua vida afetiva, sexual e, principalmente, matrimonial (leia, nesta edição o artigo “As jornadas de iniciação”).

Consciência de classe

Se a consciência do coletivo faz parte do aprendizado de base nas altas esferas, o avanço dos individualismos mina as antigas solidariedades nos meios populares e os engajamentos militantes das classes médias. Ao mesmo tempo em que se desagregam os sentimentos de classe na sociedade, a grande burguesia continua altamente consciente de seus interesses e preocupada com sua coesão.

Sob o caldo ideológico do individualismo triunfante, do mercado e da concorrência, os grandes burgueses preparam seu último privilégio: o senso de coletividade, dos interesses de classe. Não só as instituições formais ou informais de sua sociedade conhecem uma vitalidade inigualável, como os interesses que estão em jogo, onde eles estabelecem estruturas próprias que regulam contradições secundárias e podem eliminar eventuais rivalidades comerciais. Esse mundinho, consciente de sua unidade, pacientemente construída ao longo de várias gerações, reativa constantemente essa consciência de classe, na saudável emulação de uma concorrência que não iria até a destruição do outro, pois estaria realizando uma espécie de autodestruição.
(Trad.: Denise Lotito)