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setembro 2001



DOSSIÊ RIQUEZA

A cor do dinheiro

Uma família afro-americana média, com uma renda anual de até 15 mil dólares, dispõe de uma riqueza líquida de zero, enquanto uma família branca que percebe os mesmos rendimentos detém uma riqueza líquida da ordem de 10 mil dólares


Dalton Conley

As famílias negras norte-americanas possuem, em média, um patrimônio dez vezes inferior ao das famílias brancas

Se há um dado codificado que permite explicar a persistência da desigualdade racial nos Estados Unidos mais de 30 anos após as conquistas do movimento de direitos civis, é o da fortuna líquida. Seu cálculo é simples: é o saldo de tudo o que possui uma pessoa (imóveis, carro, equipamento doméstico, obras de arte, ações e títulos, poupança etc.) menos o total de suas dívidas. Entre as famílias negras e as famílias brancas, as diferenças são consideráveis: as primeiras possuem, em média, dez vezes menos que as segundas. Essa diferença acentuou-se depois do fim oficial da discriminação nos Estados do Sul1.

A diferença de rendas não explica tudo. Mesmo comparando famílias negras e brancas que dispõem de um mesmo nível de rendimentos, permanecem as distâncias entre as fortunas: na base da escala, a família afro-americana média, com uma renda anual de até 15 mil dólares, dispõe de uma riqueza líquida de zero, enquanto a família branca que percebe os mesmos rendimentos detém uma riqueza líquida da ordem de 10 mil dólares.

Ou escola, ou moradia

A ausência de riqueza obriga a uma luta diária, a ficar preso a um emprego medíocre e a não poder matricular os filhos em uma universidade de prestígio

A situação é apenas ligeiramente melhor entre as classes médias negras, que seriam o símbolo do “sonho americano” de mobilidade social: para uma renda anual de 40 mil dólares, uma fortuna líquida de menos de 40 mil dólares para os negros e de mais do dobro para os brancos2.

Um grande número das diferenças persistentes entre negros e brancos se explica por essas diferenças na fortuna. Considerados como um todo, os afro-americanos têm menos oportunidades de obter um diploma universitário que os brancos, de ganhar tanto quanto eles ou de não depender da assistência social. No entanto, considerando aqueles que têm idêntico padrão de rendimentos e de fortuna, os negros têm um maior número de diplomas do ensino secundário e igual número de possibilidades de sair da universidade com um licenciamento ou um mestrado.

Afro-americana de classe média, com diploma universitário, Stacey Jones explica: “Tenho grande dificuldade em encontrar, em Atlanta, uma escola satisfatória para os meus filhos, a menos que recorrendo a uma instituição religiosa. Por quê? Porque o meu patrimônio não me permite comprar uma casa num bairro que tenha escolas de boa qualidade. Ocorre, então, um círculo vicioso: com o dinheiro que gasto para pagar uma escola particular, não tenho condições de gastar mais em moradia3.”

Uma iniciativa filantrópica

Sem qualquer pecúlio de proteção, a população negra leva a pior em qualquer situação adversa. E é mais dependente da ajuda pública

A ausência de riqueza – que não permite o risco financeiro que implica a busca por outra situação profissional – obriga a lutar pelo dia-a-dia, a ficar preso a um emprego ou um bairro medíocre, e a não poder matricular os filhos em uma universidade de prestígio. Num país onde o ensino depende, em grande parte, do setor privado, a fortuna é o instrumento que permite aspirar à mobilidade social. O salário permite apenas enfrentar o essencial.

Para os negros que são pobres, a situação é ainda pior. Em caso de uma dificuldade imprevisível (demissão ou doença, num país em que 43 milhões de pessoas não têm seguro-saúde), os 10 mil dólares amealhados de que dispõe uma família branca pobre seriam bastante úteis. Sem qualquer pecúlio de proteção, os negros levam a pior em qualquer situação adversa. E são mais dependentes da ajuda pública. Porém, desde 1996, a assistência federal aos pobres foi abolida e, no plano local, a ajuda não pode ultrapassar um prazo total de cinco anos em uma vida4.

A riqueza tem outras vantagens além das financeiras. Em 1980, o filantropo Eugene Lang voltou ao bairro do Bronx, onde nasceu e cresceu, para fazer uma palestra para estudantes. Assustado com o estado de decomposição desse bairro nova-iorquino, decidiu romper com o discurso que preparara, sobre a importância da educação e do trabalho. Em vez disso, prometeu a cada aluno pagar pessoalmente suas despesas com a universidade se conseguissem terminar seus estudos do secundário. Não alterou o nível de renda dos pais dos alunos, nem suas condições de moradia: apenas ofereceu aos seus filhos uma garantia material que os pudesse manter alguns anos mais tarde – e, se necessário, cobrir os custos de aulas de reposição.

A nova roupagem da escravatura

No plano local, a assistência à população pobre não pode, por lei, ultrapassar um prazo total de cinco anos em uma vida

Resultado: num bairro onde a maioria dos alunos abandonava o colégio antes do término das aulas e onde quase ninguém tinha acesso à universidade, 54 dos 61 alunos concluíram o secundário e mais da metade entrou para a universidade5.

Para ganhar dinheiro, é preferível já o ter. Os brancos, que têm muito mais que os negros, também ganham mais. De acordo com a maioria dos economistas, entre 50% e 80% das fortunas acumuladas ao longo de uma vida decorrem, na realidade, de donativos deixados, de uma ou de outra forma, pelas gerações precedentes: despesas com universidade, entrada para a compra de uma casa ou apartamento, herança. E, como se isso não bastasse, cláusulas específicas tornaram muito mais difícil, durante muito tempo, a aquisição de um imóvel por um negro.

Após a emancipação dos escravos, no final do século XIX, a repartição encarregada de os integrar ao universo do trabalho remunerado prometia-lhes “quinze hectares e uma mula”. No entanto, a parte do leão referente às plantações confiscadas destinou-se a homens brancos, vindos do Norte, que empregavam os ex-escravos como meeiros, garantindo, dessa forma, que continuassem pobres. Os negros que tentaram escapar da escravatura enfrentaram outros tipos de dificuldade. Em boa parte dos Estados do Sul, algumas normas impõe-lhes – e apenas a eles – o pagamento exorbitante de alvarás, proibindo-os de adquirir um estabelecimento comercial.

Casa própria é o capital

Segundo economistas, entre 50% e 80% das fortunas acumuladas ao longo da vida de um branco decorrem de donativos deixados pelas gerações precedentes

Mesmo no século XX, os empecilhos à aquisição de propriedades pelos negros não desapareceram. A Home Owners’ Loan Corporation, criada pelo governo federal por ocasião da crise de 1929 para ajudar, via empréstimos subsidiados, proprietários a evitarem a falência, atendeu, quase exclusivamente, a brancos. Foi até mais longe: instituiu a prática (conhecida por redlining) que exigia condições de empréstimo proibitivas a quem morava nos chamados bairros “de risco”, quase sempre negros. O mesmo fizeram os bancos6. Ao mesmo tempo, o sistema de aposentadoria pública, que, inicialmente, não abrangia o setor agrícola nem o de serviços, excluiu a maioria dos trabalhadores negros. Uma parte de seus rendimentos – que poderia, pela poupança, ter sido transmitida a seus descendentes – teve que ser repassada a parentes vivos.

Após a II Guerra Mundial, um programa federal de ajuda à propriedade permitiu a milhões de norte-americanos comprarem casa própria. Beneficiaria principalmente os novos moradores de subúrbios, embora os negros continuassem, majoritariamente, morando nas cidades.

Com início na década de 60, os esforços destinados a aumentar o número de propriedades das minorias não resultaram em grande coisa. Pois, apesar da explosão das cotações da Bolsa em Wall Street, a posse da casa onde se vive continua constituindo o principal meio de disposição de um capital.

Desvalorização de zonas “negras”

Com início na década de 60, os esforços destinados a aumentar o número de propriedades das minorias não resultaram em grande coisa

Ora, não só os negros têm maior dificuldade do que os outros em tornar-se proprietários, como, ainda que o fossem, as residências situadas em bairros “negros” têm a evolução de seu valor venal bem mais lenta que as outras. A propriedade obriga a quantificar o valor social de idéias e objetos: um selo raro ou um quadro de Van Gogh têm, respectivamente, os valores que as pessoas estiverem dispostas a pagar para ficar com eles. Um pouco da mesma forma, quando o preço de um imóvel cai devido ao afluxo de negros para um bairro, a alteração do preço determina o valor que a sociedade atribui ao fato de ser negro7.

A desvalorização das zonas residenciais onde moram famílias negras decorre, em parte, das apreensões dos brancos com relação ao futuro preço de sua casa, apreensões que eles expressam mudando-se o mais rapidamente possível. Mas, também aí há um ciclo infernal: enquanto os brancos, que constituem a maioria da população, puderem escolher um lugar para viver, terão a justificativa para se afastar dos bairros racialmente integrados. Mais do que por opção pessoal, trata-se, na verdade, de seu interesse enquanto proprietários. Se não venderem no momento em que o seu bairro “muda de perfil” 8, outros o farão antes deles, precipitando o colapso do valor venal fundiário e imobiliário de todas as moradias. Numa hipótese dessas, os “retardatários” saem perdendo.

Corrida à competitividade

Tanto negros quanto brancos são, portanto, quase forçados a reproduzir os comportamentos produzidos pelas hierarquias de caráter étnico-racial. Uma das soluções propostas – um “seguro integração” que protegeria os proprietários contra uma eventual queda do valor venal de suas moradias em decorrência de uma “mudança de perfil” – implicaria, como salientam certas pessoas negras, em admitir a idéia de que se devem fazer seguros contra o “risco” de sua presença ou de sua chegada a um bairro.

Além dos efeitos da riqueza, a engrenagem da moradia e da raça afeta a identidade de classe, a realidade associativa e a exclusão social. Se, durante muito tempo, as categorias profissionais determinaram os grupos econômicos, sociais e políticos dos norte-americanos, isso ocorre cada vez menos. As convenções coletivas associam o destino dos trabalhadores entre si: um torneiro ganha o mesmo que qualquer outro, e todos eles têm direito, assim como um operário de qualquer outra especialidade, às conquistas obtidas por seu sindicato. Porém, com o atual índice de sindicalização de apenas 10%, os assalariados tendem a concorrer entre si, numa economia que apela cada vez mais para o trabalho temporário e para os não-sindicalizados.

Isenção de impostos para ricos

Se o preço de um imóvel cai devido ao afluxo de negros a um bairro, a alteração do preço determina o valor que a sociedade atribui ao fato de ser negro

Paralelamente, a taxa de acesso à propriedade imobiliária progrediu, e as associações de bairro superaram os sindicatos enquanto principal instrumento de agregação dos interesses econômicos9. Saber como o vizinho irá fazer a fachada externa de sua propriedade é quase mais importante do que se preocupar em saber quanto ele ganha. O valor da casa ao lado, na realidade, afeta de forma direta o da sua própria residência. Uma opção de reforma de uma casa considerada de mau gosto – determinada pela opinião de uma maioria, a qual, por sua vez, é determinada pelo veredicto do mercado – ou, pior ainda, de negligência com relação ao seu habitat, não só provoca a queda do valor do imóvel do “culpado”, como dos de todos os seus vizinhos. De repente, o bairro torna-se, por inteiro, menos desejável.

Uma das conseqüências dessa prioridade da propriedade residencial é a de estimular a ação local – mais do que nacional ou social – quando, por exemplo, se trata de fazer oposição à instalação, no bairro, de instituições consideradas indesejáveis: centros de reabilitação, usinas de lixo etc. É a síndrome atualmente denominada “No meu jardim, não!” (Not In My Backyard!, mais conhecido por Nimby). Mas outra conseqüência desse processo é a de perpetuar a discriminação racial, dando-lhe uma base racional, na medida em que uma proporção amplamente majoritária de brancos em um bairro se reflete na valorização dos bens imobiliários ali existentes. Inclusive para os eventuais negros que morarem nesse bairro...

Ao invés de incentivarem financeiramente a poupança por parte dos mais pobres – o que ajudaria, prioritariamente, os negros a tornarem-se proprietários – as políticas do governo Bush prometem isentar do pagamento de imposto sucessório os 1,4% de norte-americanos mais ricos. Na lista das 400 pessoas mais ricas publicada pela revista Forbes, encontram-se apenas os nomes de dois negros.
(Trad.: Jô Amado)