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fevereiro 2003



DOSSIÊ IRAQUE

Djibuti, uma base estratégica

Promovido ao status de grande base permanente norte-americana, dada a sua posição privilegiada, o pequeno estado do Djibuti passa agora a correr o risco de ser alvo de um atentado terrorista, mas ainda não recebeu nenhuma ajuda para a sua população


Philippe Leymarie

Dez anos depois de sua desastrosa aventura na Somália, no âmbito da operação “Restore Hope1”, os norte-americanos estão de volta ao Chifre da África em razão da guerra mundial contra o terrorismo. Mil e trezentos soldados estão estacionados no Djibuti, no acampamento Lemonnier, próximo ao aeroporto originariamente ocupado pela Legião Estrangeira francesa. A base não parou de se expandir desde sua inauguração, em setembro de 2002. A 24a Marine Expeditionary Unit (Unidade Expedicionária dos Fuzileiros Navais), vinculada ao navio anfíbio Nassau que navega na zona do Golfo, efetuou, no ano passado, três exercícios de desembarque com blindados, com munição real, na costa de Obock, ao norte do país. Um novo “Estado-Maior combinado para o Chifre da África”, comandado pelo general dos fuzileiros navais John Statter, inicialmente baseado na enseada de Djibuti, a bordo do “Mount Whitney”, uma das naus capitânias da Marinha norte-americana, vai ser transferido para terra.

“Prevejo que dentro de dois, três ou quatro anos, estas instalações norte-americanas continuarão aqui”: a frase curta do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, em visita ao acampamento Lemonnier, em dezembro de 2002, assinalou o fim de uma era – um século de conversações entre o exército francês e o Djibuti. A ex-Costa Francesa dos Somalis, que se tornou Território Francês dos Afars e dos Issas antes de chegar à independência em 1977, abriga tradicionalmente a principal base francesa ultramarina2: é um dos campos de treinamento favoritos, uma “escola do deserto” como não há muitos equivalentes.

Uma “coabitação” difícil

A 24a Marine Expeditionary Unit efetuou, em 2002, três exercícios de desembarque com blindados, com munição real, na costa de Obock, ao norte do país

Em troca da proteção exterior concedida – no âmbito de um acordo de defesa – ao jovem Estado, alvo das ambições territoriais de seus vizinhos etíopes e somalis, a França dispunha com exclusividade de alguns trunfos: um ponto de apoio significativo num setor sensível, por onde transita um quarto do tráfico mundial de petróleo; uma condição de “padrinho” regional; um campo de treinamento em condições reais, e sem restrições; facilidades para as forças marítimas francesas do Oceano Índico; e uma escala aérea para as ilhas de língua francesa do sudoeste (Madagascar, Ilhas Comores, Reunião, Maurício, Mayotte).

Atualmente, Paris teme ficar fora do jogo no Chifre da África, já que a utilidade de sua presença parece cada vez menos evidente. Além disso, dizem que o Djibuti, por sua vez, corre o risco de se tornar um alvo potencial para um atentado terrorista antiamericano3. Ainda que uma célula “aliada” de partilha de informações tenha finalmente sido criada, os primeiros meses de coabitação foram difíceis: as informações eram mal transmitidas entre os estados-maiores francês e norte-americano; as respectivas tropas se viram, por vezes, face a face, por ocasião de manobras que se tornaram perigosas. “Ninguém contesta nossa presença antes, durante ou depois. Os outros estão de passagem, devido a circunstâncias atuais”, consola-se o general Bévillard, comandante das forças francesas do Djibuti (FFDJ).

Uma base permanente norte-americana

“Prevejo que dentro de dois, três ou quatro anos, estas instalações norte-americanas continuarão aqui”, disse o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld

Os norte-americanos guardam a lembrança dolorosa do atentado mortífero, há dois anos, contra um dos navios da Marinha, o destróier USS Cole, na enseada de Aden, em frente de Djibuti. Em 6 de outubro de 2002, novamente em Aden, o ataque contra um petroleiro de bandeira francesa, o Limburg, trouxe de volta o medo de uma “jihad marítima”, capaz de ameaçar o abastecimento ocidental de petróleo4. O Iêmen é considerado pelos norte-americanos como uma base de recuo possível para a rede Al-Qaida, assim como a Somália. Um atentado, em dezembro de 2002, visou interesses israelenses em Mombassa, no Quênia. Explosivos já haviam destruído as embaixadas norte-americanas em Nairobi e em Dar-Es-Salaam (Tanzânia) quatro anos atrás.

Neste contexto, o Djibuti foi promovido ao status de grande base permanente norte-americana – uma espécie de entroncamento militar5, nas proximidades do Mar Vermelho e do Golfo Arábico-Pérsico, na vizinhança de um Sudão recém-saído de seu desvio islamista, de uma Etiópia e de uma Eritréia briguentas e de uma Somália sempre anárquica. O comando da “Força de intervenção aliada - Chifre da África6” dispõe de uma frota composta também por elementos britânicos e espanhóis, assim como uma mini-esquadra alemã (três fragatas, quatro abastecedores, 1.800 marinheiros) que patrulha o Golfo do Aden e as costas somalis e iemenitas. A diplomacia norte-americana obteve também, em dezembro último, facilidades de acesso aos aeroportos etíopes e aos portos da Eritréia.

Ofertas indecorosas de dólares

O Iêmen (em frente de Djibuti, do outro lado do estreito) é considerado pelos norte-americanos como uma base de recuo possível para a rede Al-Qaida

Por sua vez, o pequeno Estado do Djibuti tornou-se, para Washington, um ponto de apoio útil, com capacidades de treinamento e os serviços de um porto e de um aeroporto modernos. A Marinha norte-americana pôde se exercitar, em campo livre, em “mini-guerras”, como preliminar à ofensiva contra o Iraque, e organizar um sistema regional de vigilância marítima e aérea para tentar impedir a infiltração de elementos da rede Al-Qaida nas costas iemenita, somali e queniana. Um míssil lançado por um dos aviões teleguiados Predator, lançados pela Central Intelligence Agency (CIA), permitiu eliminar seis supostos membros da rede Al-Qaida, com um de seus líderes, na província de Marib, no Iêmen, do outro lado do estreito. O aparelho, lançado a partir do Djibuti, estava diretamente conectado ao posto de comando da CIA, em Langley (Virgínia): bastou pressionar uma tecla do teclado do computador, a 15 mil quilômetros dali, para que o objetivo fosse pulverizado.

“Desde 11 de setembro de 2001, imediatamente nos engajamos nessa guerra mundial contra o terrorismo e demos aos norte-americanos tudo o que queriam. Mas, até agora, nada recebemos em troca”, explicava, há algumas semanas, Mahmoud Ali Youssouf, ministro da Cooperação Internacional do pequeno Estado7. Disse ter rejeitado, “como um insulto”, a oferta de parlamentares norte-americanos de um auxílio de 4 milhões de dólares, dos quais três quartos deveriam ser destinados... a um reforço da segurança no aeroporto. As autoridades de Djibuti explicam que têm “reais necessidades básicas”: alimentação, escolas, estradas, saúde. Antes da negociação, durante o mês de janeiro, de um “acordo de sítio”, que comportaria compensações financeiras, o governo norte-americano alocou meio milhão de dólares para o financiamento das eleições legislativas de 10 de janeiro último 8, e já conseguiu que a rádio Voz da América pudesse transmitir, a partir do Djibuti, para o Iêmen e a Somália.

America, America, we want a job!” (“América, América, queremos emprego!”): centenas de jovens comparecem ao escritório de recrutamento de mão-de-obra do exército norte-americano, quase sempre sem resultado. Milhares de cidadãos de Djibuti se instalam também nos arredores do acampamento Lemonnier, na esperança de conseguir alguma coisa. Mas, protegidos por muralhas de terra e de dispositivos de detecção, os militares norte-americanos são invisíveis: saem pouco de seu “bairro” Lemonnier e de suas tendas com ar condicionado – atitude que contrasta com a convivência que durante muito tempo foi praticada pelas forças francesas...

(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - Em outubro de 1993, uma missão de rotina dos Rangers e do Comando Delta, forças especiais norte-americanas encarregadas de capturar chefes de guerra num bairro de Mogadíscio, resultou num desastre: dois helicópteros pesados foram abatidos e dezessete soldados foram mortos, sendo o corpo de um deles arrastado pelas ruas por um veículo dos milicianos. Esse episódio foi tema do filme La Chute du Faucon Noir. Ler o depoimento da embaixador Alain Deschamps, Somalie 1993: première offensive humanitaire, ed. L’Harmattan, 2000, e, de Stephen Smith, Somalie: la guerre perdue de l’humanitaire, ed. Calmann-Levy, 1993.
2 - A base, cujos efetivos foram reduzidos nos últimos anos devido à profissionalização do exército francês, conta atualmente com 2.800 homens: a base aérea 188 (com um esquadrão de Mirages 2000), o 5o Regimento inter-exército de ultramar e a 13a Brigada da Legião Estrangeira. Cerca de um terço dos efetivos são temporários, para missões de curta duração.
3 - La Lettre de l’Océan Indien, Paris, 30 de novembro de 2002.
4 - A partir do atentado contra o Limburg, as indenizações de seguro dos navios que transitam pelo Iêmen foram multiplicadas por cinco.
5 - Ler “Us practice in a new hub”, International Herald Tribune, 18 de novembro de 2002.
6 - Control Joint Task Force - Horn of Africa (CJTF-HOA).
7 - Ler “Impoverished Djiboutians see no payoff for US presence”, Los Angeles Times, 23 de dezembro de 2002.
8 - Organizadas pela primeira vez no âmbito de um multipartidarismo integral, foram vencidas pela União pró-Maioria Presidencial, reunida em torno de Ismael Omar Guelleh, enquanto a oposição, dirigida pelo ex-primeiro-ministro e chefe rebelde afar Ahmed Dini, as denunciava como fraudulentas.