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setembro 2001



MIGRAÇÃO AFRICANA

Os clandestinos do Sahel

Cento e quarenta imigrantes clandestinos africanos encontrados mortos no deserto de Tenerê, ao tentarem chegar à Líbia, de caminhão. Dezenas de milhares atravessam o deserto para chegar à Líbia ou à Argélia, porta para o Ocidente. Muitos perdem a vida


Ali Bensaad

É difícil fazer o relato macabro das partidas sem retorno dos clandestinos, mortos anônimos e ocultos, de quem ninguém falava até o incidente de maio

26 de fevereiro de 2001. Um caminhão parte de Dirkou, no norte do Níger, em direção à Líbia. Tentando evitar o posto de fronteira líbio de Tidjeri, ele se perde com seus passageiros. Três pessoas conseguem dar o alerta. As buscas efetuadas pelo exército líbio permitem resgatar quarenta sobreviventes; a guarda nigerina aponta vinte e três mortos; um motorista fala de vinte e sete corpos enterrados. Não se conseguiria saber quantos passageiros havia na hora da partida. Em geral, são no mínimo umas cem pessoas.

É difícil fazer o relato macabro das partidas sem retorno dos clandestinos do Sahel, mortos anônimos e ocultos, dos quais ninguém falava até o incidente divulgado no mês de maio – cento e quarenta cadáveres encontrados num caminhão1. Nem no Níger, país cruzado por migrantes e que se tornou o centro desse tráfico, legal aos olhos das autoridades, mas, principalmente, vital para um país que está entre os mais pobres do mundo. Nem na Líbia, a vizinha opulenta, que se acomoda perfeitamente com a ambigüidade da situação dessa imigração tolerada, solicitada, mas não legalizada. Trata-se de uma imigração necessária ao projeto ambicioso do coronel Muamar Kadafi de “tornar verde o deserto”, mas que ele gostaria de limitar às províncias do Saara do sul para efetuar obras de valorização em condições extremas. Nem na Argélia, que recebe uma parte substancial dessa imigração, apesar do rigor da repressão, mas que serve, sobretudo, de passagem para a Europa via o Marrocos e o estreito de Gibraltar2. Nem na Europa, que eventualmente descobre o desespero de jovens que vêm morrer a suas portas em frágeis balsas.

As “agências de viagem”

Para muitos dos imigrantes clandestinos, a viagem começa muito além do deserto de Tenerê, em Agadez, no centro do Níger

Para muitos imigrantes, a viagem começou muito além do deserto de Tenerê, em Agadez, no centro do Níger. A cidade tornou-se a nova encruzilhada migratória para onde convergem quase todos os fluxos provenientes da África ocidental, inclusive da Nigéria e Gana anglófonos3. No hospital em que são acolhidos os sobreviventes, só se pode lamentar: “Os imigrantes vêm de lugares cada vez mais ao sul e não têm a menor idéia do que é o deserto e quais são seus perigos”.

É da estação rodoviária que partem, na frente de todo mundo, com controle policial, caminhões superlotados com mais de cem pessoas, com a aprovação de “agências de viagem” que têm lojas comerciais e estão devidamente registradas como transportadoras de migrantes para os países do norte da África, inclusive para a Argélia, apesar de considerada perigosa. Aliás, as viagens para esse país não são feitas em caminhões, mas em caminhonetes Toyota, que permitem escapar ao controle. Mas tão superlotadas quanto os caminhões: chegam a levar 25 a 30 passageiros, num inacreditável exercício de equilíbrio!

Para o Níger, um país pobre, o transporte desses migrantes representa uma fonte de renda e uma dinamização bastante apreciáveis, na medida em que dizem respeito à região norte, a mais deserdada, palco da rebelião tuaregue da qual o fator explicativo menos importante não é a miséria. Em dois anos, desde a volta da paz à região4, cinco “agências de viagem”, com destino à Líbia, surgiram e prosperam. Os transportadores “piratas” proliferam e conseguem lucros substanciais. Os comerciantes, que não querem ficar atrás, além da mercadoria, transportam migrantes para cobrir seus custos. Adam, o chofer de nosso caminhão – um tuaregue negro que trabalha para um nigerino árabe – conta como, durante 15 anos, seu caminhão transportou milho para Bilma e Dirkou, trazendo sal na volta. A partir da década de 90, seu patrão, como muitos outros, direcionou os negócios para o comércio com a Líbia e o transporte de migrantes. “Em 15 anos”, garante Adam, “transportei mais homens do que grãos de sal em meu caminhão.”

“Tudo perfeitamente legal”

É da estação rodoviária que eles partem, na frente de todo mundo, com controle policial, os caminhões superlotados com mais de cem pessoas

Tais fluxos têm como efeito desenvolver uma espécie de especialização mecânica e “viageira”; bairros inteiros da cidade de Agadez a ela se dedicam, quer se trate do bairro da rodoviária, da estrada de Arlit (a cidade do urânio, última cidade na estrada argelina de Tamanrasset), ou mesmo do centro da cidade, que, bem no meio do mercado, se empenha quase que exclusivamente no comércio com os candidatos à viagem.

Ao lado dos habitantes de Agadez que mantêm as “agências de viagem”, caminhões de transporte e estabelecimentos de alimentação para o aprovisionamento necessário à travessia, se move uma multidão de migrantes. Fortalecidos por sua própria experiência, tornaram-se especialistas na prestação de serviços aos compatriotas e mantêm botequins, pensões, lojas de acessórios (recipientes para água, lanternas, cobertores...) e cabeleireiros.

Para as autoridades nigerinas, essa atividade “informal” nada tem de anormal. A resposta dada pelo administrador é a mesma dada pelos responsáveis pela polícia e pela guarda civil: “Tudo é perfeitamente legal. Trata-se de cidadãos africanos que têm perfeitamente direito de transitar pelo Níger. O resto é de responsabilidade deles.” Não há, portanto, emigração clandestina! Uma vez no sul da Líbia, os imigrantes podem conseguir no máximo uma “carteira de saúde”, documento obrigatório para trabalhar, dando um “agrado” aos funcionários locais por meio de compatriotas que servem de intermediários e que vivem disso. Alguns conseguem uma carteira consular cuja única utilidade, na prática, é dispor de um documento que transcreve a identidade deles em língua árabe. Hamidou, nigerino de 29 anos, que entrou há quatro anos na Líbia com um visto, parece um privilegiado. No entanto, como milhares de seus compatriotas e de todos os outros africanos que entraram no país com ou sem visto, não tem visto de permanência. Sem a proteção direta de seu patrão, pode ser expulso, como qualquer outro migrante africano.

Rejeição e repressão vigorosas

Para a Argélia, as viagens não são feitas em caminhões, mas em caminhonetes Toyota, que permitem escapar ao controle policial

O aspecto precário dessa imigração é estimulado para permitir sua reversibilidade. A Líbia sempre alternou abertura e fechamento, solicitação e repressão. Conforme as decisões aleatórias dessa política, os controle policiais servem para manter os migrantes no sul do país, ou para expulsá-los maciçamente, como ocorre atualmente.

Kofi, que reina no escritório do Hotel Saara, em Agadez, trabalhou três anos na Líbia. “Os piores anos de minha vida. O racismo é moeda corrente. Um negro não tem nome: é sempre chamado de escravo, até pelas crianças.” Passou pelas patrulhas policiais, pela retenção em campos, mas também a corrupção, para escapar à repressão. No fim de três anos – em que trabalhou como assalariado agrícola e no comércio informal de roupas para uso de seus compatriotas – reuniu meios suficientes para tentar a aventura européia. Para a maioria dos nigerianos, continua sendo um objetivo raramente atingido.

Kofi fez a travessia ilegal para Tunis, de onde embarcou clandestinamente, por 1.500 dólares, para a Itália com outras setenta pessoas. Sua permanência na Europa só iria durar alguns meses, no final dos quais, preso em Bruxelas, foi expulso para Lagos. “Um nigeriano em cada cinco acaba indo para a Europa, sobretudo as pessoas do Sul [da Nigéria], que têm contatos e nada a perder”, explica ele. A rejeição e a repressão vigorosa, do lado líbio, assim como seu corolário de dramas, nada podem, entretanto, contra fluxos que continuam a aumentar, sob uma pressão que surge sempre mais distante, sempre mais ao Sul. “Ser bem sucedido é impossível na África”, diz Kofi. “Tudo está podre e tudo acaba por ruir.”

Migrantes e mercadorias

Os comerciantes, que não querem ficar atrás dos transportadores “piratas”, além da mercadoria, transportam migrantes para cobrir seus custos

Uma agitação tomou conta de Agadez em meados de março, aumentando o frenesi habitual. Todos ficaram atentos à reunião de cúpula africana de Syrte, e principalmente ao discurso do coronel Kadafi. A notícia logo se espalhou: foi proclamada a União Africana!5Os boatos mais otimistas rapidamente juntaram-se a essa notícia (“Kadafi fez um apelo para o retorno dos africanos que foram expulsos”), repercutidos pelos intermediários, muitas vezes ex-migrantes que, mediante uma comissão, conduzem os recém-chegados às agências de viagem. De fato, uma ou duas semanas depois da reunião de Syrte, o fluxo, embora nunca interrompido, aumentou substancialmente, constituído, por um lado, pelos migrantes expulsos da Líbia ou fugidos da violência. Os negócios, portanto, retomam força.

Ibrahim, proprietário de uma das agências de viagem, não consegue mais encontrar caminhões, alugados muitas vezes pelo dobro do preço – o equivalente a 15 mil francos franceses, ou 5.300 reais – por traficantes de cigarros (cuja prosperidade seria explicada pelo envolvimento de elementos próximos ao círculo do coronel Kadafi). Finalmente, Ibrahim consegue encontrar um lugar para mim num “caminhão clandestino”, ou seja, num veículo que não pertence a uma agência autorizada, mas fretado por um comerciante tubu (a etnia que tem mais facilidade de circulação na Líbia e da qual muitos membros conseguiram a nacionalidade líbia). Os migrantes são embarcados por cima das mercadorias, para melhor rentabilizar a viagem. “Só” seremos, portanto, vinte e quatro passageiros: apressado, o comerciante não quer correr riscos sobrecarregando o caminhão.

Policiais “humanitários”

“Em 15 anos”, garante Adam, nosso motorista, um tuaregue negro, “transportei mais homens do que grãos de sal em meu caminhão.”

O embarque sempre propicia grandes discussões e dura horas. É dominado pela angústia de não poder embarcar, mas também pela preocupação com o lugar a ser ocupado nesses “caminhões catedrais” sobrecarregados de mercadorias e de homens. Por mais “clandestino” que seja, nosso embarque é feito na presença da polícia. Mais para receber a parte dela do que para manter a ordem. Enquanto a agência registra os que viajam e paga uma taxa por cada um deles, a polícia vai multiplicar as barreiras onde, sob o pretexto de controle, os estrangeiros serão assaltados. A quantia varia entre 10 mil e 20 mil francos CFA (entre 3,50 e 7 reais). Só para sair dos limites de Agadez, vamos passar por quatro “barreiras”.

Irritado com o fato de haver uma a mais do que havia em sua última viagem, o chofer toma uma estrada diferente. Logo somos alcançados por policiais enfurecidos, que fazem descer prioritariamente os nigerianos e abrem a bagagem deles gritando “droga”. Exibindo cédulas de dinheiro para deixar claro que é preciso pagar, um policial passa no meio dos passageiros – liberados, à medida que põem a mão no bolso. Intercedo em favor de um jovem nigeriano que os policiais não querem deixar subir porque só tem 500 francos CFA (1,70 real) para oferecer. “Fazemos isto por humanidade”, me diz um policial. “Sabemos que todos eles têm documentos falsos, mas não queremos detê-los. Então, eles pagam e passam.”

“Sorte”, a palavra-chave

Quanto à atitude da população, ela é bem diferente. Quando nosso caminhão deixa Agadez, é saudado por muitos habitantes presentes nas ruas nesse final de tarde, momento habitual da partida dos caminhões. A população olha seus migrantes com muita simpatia. Eles lhes permitiram retomar o papel de encruzilhada, que foi o dessa cidade no tempo em que (por volta do século XVI) tinha muito prestígio, com seus 50 mil habitantes, e ocupava um lugar de articulação nas trocas através do Saara, na intersecção das grandes rotas das caravanas que ligavam o Mediterrâneo à região hauçá e o Mali ao Egito. Ironia da história: ao lado do ouro, o tráfico consistia essencialmente no comércio de escravos. Proporcionalmente, transportavam-se, na época, tantos escravos para a Líbia e Argélia quantos são hoje os migrantes africanos levados para esses países6. Seria esse passado de cidade rota das caravanas, tendo justaposto diferentes comunidades, a razão para essa simpatia excepcional? Não se percebe praticamente nenhum vestígio de intolerância. No entanto, sem dinheiro, muitos migrantes têm de prolongar a permanência em Agadez e, para tentar conseguir um pecúlio, dedicam-se a pequenas tarefas. Para financiar o prosseguimento da viagem, muitas mulheres praticam a prostituição ocasional. Bastante numerosas nessa cidade de passagem, as casas de tolerância têm tantas pensionistas estrangeiras quanto nativas.

Para as autoridades nigerinas, “tudo é perfeitamente legal. São africanos que têm o direito de transitar pelo Níger. O resto é responsabilidade deles”

Aclamado pela multidão, nosso caminhão deixa Agadez sacolejando suavemente sob o peso dos passageiros empoleirados em equilíbrio precário sobre as mercadorias. A carroceria do veículo está mergulhada numa enorme quantidade de recipientes de plástico, recobertos de lona de juta, que transportam a reserva de água dos passageiros, amplamente superior aos quatro dias normalmente necessários para chegar a Dirkou. O que faz lembrar a dificuldade da viagem. E não parece preocupar ninguém. Aqui, a palavra mais importante é “sorte”. Referem-se a ela para o percurso e para o que os espera na chegada.

Racismo e xenofobia

Muitos, no entanto, não passam pela primeira experiência. Há Seydou, o homem do milagre, cuja história é conhecida por todos. De volta da Líbia em 1996, com 16 outros migrantes, seu veículo teve uma pane quando não faltavam senão 300 quilômetros para Agadez. Seydou e um outro tuaregue decidiram continuar a pé: conheciam muitas histórias em que a espera teve conseqüências funestas. Durante dois dias, fizeram cerca de 90 quilômetros, antes de serem resgatados por uma patrulha militar nos arredores do poço da Árvore de Tenerê, um dos raros pontos de água nesse imenso deserto. Os outros morreriam de sede. “Era bom ver a morte se aproximar; isso me fez compreender que a Líbia havia feito de mim um morto-vivo. Eu não era nada na Líbia, um escravo, como dizem eles.” Seydou não quer mais ouvir falar desse país. Só irá até Dirkou onde, aproveitando o desenvolvimento excepcional do tráfico, abriu um comércio de peças de reposição.

Embora também tenham estado perto da morte, Khodjo, o ganense, e Rabie, o nigerino, voltam para a Líbia. Não para o deserto, mas para Trípoli e seus arredores, para Ezzaouia, onde fica uma importante comunidade africana. Eles já passaram pelas extorsões do cotidiano. “O racismo não são somente as implicâncias dos patrões e dos policiais.” Em setembro e outubro de 2000, num acesso de xenofobia, líbios massacraram de 100 a 500 africanos7. Todos os relatos convergem sobre o horror e a violência dos ataques, que tomaram a forma de pogroms, com sevícias e linchamentos de todos os tipos. Mas os depoimentos sobre a vida diária se mostram tão edificantes quanto esse caso. Intolerância e xenofobia incidem particularmente sobre as mulheres, duplamente portadoras de uma alteridade que perturba a austeridade líbia. “Para eles, quando se é mulher e africana, se é forçosamente uma prostituta.”

Denúncias de campos clandestinos

Seremos, portanto, “somente” vinte e quatro passageiros: apressado, o comerciante não quer correr riscos, sobrecarregando o caminhão

A “caça às prostitutas”, as “portadoras de Aids”, é feita com tal assiduidade que se torna perseguição. Representando 15% a 20% dos fluxos migratórios, as mulheres são ainda mais “clandestinas” do que os homens. Mesmo solteiras, o que é o caso freqüentemente, elas falsificam seus documentos e se declaram casadas. O mínimo para se proteger da acusação de “prostituição”.

Os depoimentos mais impressionantes referem-se à existência de múltiplos campos de retenção no sul da Líbia. Reunimos vários sobre permanências que datam – um dos casos é de 1996 – bem antes dos massacres de setembro de 2000. Mais recente, é o de quatro jovens nigerianos que chegaram em 27 de março a Dirkou. Afirmam ter fugido de um campo militar chamado de “Kara”, situado 80 quilômetros ao sul de Gatrone, onde teriam ficado presos por quatro meses em companhia de milhares de outros africanos seqüestrados. Vários nomes de campos e de oficiais se repetem na fala das testemunhas. A multiplicidade dos relatos, feitos na maioria das vezes coletivamente, sua coerência e sua concordância tendem a corroborar a existência desses campos. Em todo caso, são numerosas as denúncias sobre sevícias, condições carcerárias de outras épocas, detentos que morrem vítimas das más condições de vida, os “esquecidos”, e mesmo os que teriam sido executados por tentativa de fuga ou de rebelião.

Barrado no aeroporto de Paris

Um paradoxo para a Líbia que aspira à liderança africana: todos os migrantes da África negra a vêem como um país “racista”, e até “escravagista”! Entretanto, como Rabie e Khodjo, muitos tentam voltar, apesar dos horrores vivenciados. “Quando se passou pela estrada uma vez, não se tem mais medo.” Aliás, o que se pode fazer quando todas as outras saídas estão bloqueadas? Boubakar, outro passageiro, confirma isso duplamente. Em primeiro lugar, concluiu o ensino médio. Os migrantes que dispõem de um bom nível de instrução são cada vez mais numerosos (um quinto das pessoas que entrevistamos). E depois, Boubakar nunca teve a intenção de emigrar para a Líbia. Foi por causa da proximidade de Paris que esse destino se impôs a ele. Apesar da surpresa, não hesitou nem um instante, logo após ser barrado no aeroporto Charles De Gaulle-Roissy: retomar o caminho, por outra via. Precisará, apesar de tudo, de um pouco mais de um mês para reunir uma outra quantia (menor desta vez) e se pôr a caminho.

Nos antípodas de Paris, na direção da província de Fezzan, na Líbia, o transporte mudou bastante: Boubakar está empoleirado em nosso caminhão, onde se amontoam dezenas de outros passageiros. Ele ainda não digeriu essa rejeição. Era dia 20 de fevereiro. Estava com tudo certo, com o visto de entrada necessário. Além dos viajantes europeus e dos comerciantes africanos em trânsito para Dubai, doze malineses e três nigerinos desciam desse vôo da Air Algérie proveniente de Niamey com escala em Bamako. Todos seriam barrados com exceção de um nigerino, recebido pelo cônsul de seu país. Motivo: Boubakar não tinha reserva de hotel. Só pode esperar reconstituir um pecúlio na Líbia, uma vez que o objetivo final não mudou: a Europa, desta vez clandestinamente e por navio.

Cresce o número de migrantes

Sem dinheiro, alguns migrantes têm que ficar em Agadez. Para financiar o prosseguimento da viagem, muitas mulheres praticam a prostituição ocasional

Abdullah, um senegalês também expulso, mas da Argélia, tem o mesmo objetivo. Ele tinha conseguido chegar clandestinamente até o norte do Saara, em Ghardaia. Escondido com outros compatriotas, esperando chegar a Maghnia e o Rif marroquino, seria apanhado por uma patrulha e conduzido de prisão em prisão até Tamanrasset, de onde seria expulso para Assamaka, o posto fronteiriço nigerino. Mas não estaria esse itinerário, em que Abdullah não teve sucesso, se tornando uma passagem valorizada? Praticamente no mesmo momento, a imprensa argelina revelava que as organizações paquistanesas que faziam seus candidatos à emigração clandestina transitar na Europa pelos países do leste, começavam a utilizar o território argelino, via Agadez, para escapar à vigilância do itinerário inicial, já muito conhecido e controlado8.

Cinco dias para achegar a Dirkou, marcados pelas queimaduras do sol e, ainda mais insuportável, pelo frio intenso da noite, que só a promiscuidade ajuda a atenuar. Ao longo de suas ruas ortogonais, cujas fachadas são todas de casas de comércio, uma forte densidade de homens jovens percorre Dirkou. Semelhante a essas cidades de mineração pioneiras surgidas como cogumelos no deserto, ela se expandiu, proporcionalmente ao desenvolvimento do filão migratório, sobretudo nos últimos cinco anos. Mas a euforia difundida em Agadez pelos intermediários das “agências de viagem” é logo desmentida aqui. Os migrantes se amontoam. Aos que esperam passar a fronteira, se acrescentam os barrados ou expulsos. A partir daí, são geralmente transportadores líbios que se encarregam dos migrantes. Tornam-se cada vez mais escassos e duplica o preço das tarifas. O número de passageiros por caminhão nunca é menor do que 160 e os desvios se multiplicam para escapar aos controles.

Os lugares mais procurados são os dos Toyotas de ex-militares das legiões islâmicas, originários do Chade, e que adquiriram a nacionalidade líbia. Seu conhecimento da região e a cumplicidade com os militares líbios de que se beneficiam fazem deles transportadores de elite. Mas nem eles aparecem. O controle líbio é máximo. Mesmo os caminhões de cigarros, habitualmente pouco incomodados pelos controles, continuam bloqueados. No coração social de Dirkou – policiais, comerciantes e transportadores – repercute a notícia do roubo de armas num acampamento militar líbio. Um guarda me diz que, segundo o guia do quartel - um ex-rebelde tubu integrado às estruturas mistas de segurança - os Toyotas dos ladrões tomaram a direção do Chade. Seria a oposição chadiana sendo armada. Em todo caso, há um alerta máximo do lado líbio, já que então ocorrem eleições no Chade9. Mas para os migrantes, essas disputas ocorrem num outro planeta: “Quanto a nós, mesmo se houver a terceira guerra mundial, temos que passar a fronteira”.
(Trad.: Regina Salgado Campos)