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março 2003



LIVROS

A Internacional dos movimentos sociais

Livro lançado no fim do ano passado na Espanha faz um apanhando das trilhas abertas pelo Fórum Social Mundial para construir a globalização alternativa, propondo um debate sobre os instrumentos para concretizá-la.


Rafael Diaz-Salazar

Uma das senhas de identidade da rede internacional de movimentos é sua pretensão de conectar unidade e diversidade. Trata-se de uma proposta inovadora

Já são numerosas as propostas para construir uma globalização alternativa. No Fórum de Porto Alegre foram dadas as condições para que surja uma rede internacional de movimentos que as articule. Chegou o momento de debater os instrumentos para a execução destas alternativas1.

Uma das senhas de identidade da rede internacional de movimentos é sua pretensão de conectar unidade e diversidade. Trata-se de uma proposta inovadora que terá que superar grandes dificuldades para que seja concretizada. A grande diversidade de movimentos é muito enriquecedora pela complementariedade que oferece. Os problemas podem surgir pelas inevitáveis divergências na hora de adotar propostas muito concretas, de passar dos objetivos gerais às estratégias para viabilizá-los, estabelecer modalidades de ação e coordenação, marcar um tipo ou outro de prioridade etc. E além disso os problemas de cunho pessoal e psicológico que existem em todas as organizações.

A questão que inevitavelmente convém colocar é se a rede internacional de movimentos deve se reduzir à celebração anual do Fórum Mundial e dos Fóruns continentais ou tem que ir além disso. Fazer uma ou outra opção tem vantagens e inconvenientes, mas tem-se que enfrentar esta questão se verdadeiramente desejamos criar algo além de um ponto de encontro e debate; ou seja, se queremos ir além de uma confluência e superposição das múltiplas alternativas e promoção de campanhas e mobilizações nos cinco continentes. Como analista deste processo, atrevo-me a colocar um conjunto de sugestões que nem sequer chegam a ser propostas, pois não disponho de elementos suficientes para avaliar os debates internos no Conselho Internacional do Fórum Social de Porto Alegre e, muito menos, sobre as repercussões finais resultantes da adoção de uma das opções que vou colocar. Recordemos as reflexões de Max Weber sobre as “conseqüências não desejadas da ação”.

Parece-me que o FSM deve continuar fiel às suas senhas de identidade do seu nascimento. Tem que ser nada mais e nada menos que um “espaço” mundial onde se encontram, pensam e propõem alternativas todos os movimentos sociais, ONGs, sindicatos, centros de pesquisas e ação etc. que assumem sua Carta de Princípios. Quanto mais plurais sejam os movimentos que participem dele, dentro da identidade marcada pela Carta, melhor. Deve manter-se um estrito apartidarismo e não se deve forçar consensos, unanimidade e declarações vinculantes para todos e cada um de seus membros. Caso caminhe para uma uniformização o FSM acabará se rompendo. Se suprime a diversidade mediante a obrigação de assumir um programa de ação muito concreto, não será possível manter a unidade necessária para criar uma nova opinião pública sobre a globalização. Dito de maneira clara, o FSM de Porto Alegre não deve se converter em uma V Internacional.

Mas, na verdade, creio que necessitamos de uma nova Internacional radicalmente distinta das quatro anteriormente existentes. Isto é óbvio porque sugiro uma Internacional de movimentos, não de partidos políticos. E mais ainda: é preciso ser absolutamente intransigente ante a possível utilização desta Internacional por partidos comunistas ou social-democratas para fazer ressurgir seus projetos. Os partidos das esquerdas que se dediquem a voltar a fundar suas internacionais, que grande falta faz a eles e a nós também. A sugestão de criar uma Internacional de movimentos não a formulo para substituir o FSM e muito menos de suprimi-lo. Ambos seriam compatíveis pois teriam objetivos e finalidades diversas mas seriam complementes. Esta nova Internacional de Movimentos pela Justiça Global pode se construir com muitos setores do FSM e, se vier a se constituir, há de estar presente nele sem vocação de dominar e nem de dirigir, demonstrando uma nova cultura política sobre as relações de poder dentro das organizações e a conexão entre unidade e diversidade. E mais, creio que esta Internacional é inviável sem o fundamento de uma cultura moral e política distinta das Internacionais históricas.

Se suprime a diversidade mediante a obrigação de assumir um programa de ação muito concreto, não será possível manter a unidade necessária

Porque creio que a dinâmica aberta pelo FSM de Porto Alegre há de desembocar em uma Internacional de novo tipo? Fundamentalmente, porque o poder articulado ao qual as redes internacionais de movimentos enfrentam e o objetivo básico pelo qual lutam requer uma concentração organizada e sistemática de esforços. Naomi Klein caracterizou estas redes como uma “nuvem de mosquitos”. O diagnóstico me parece acertado e até positivo que estas nuvens se reproduzam e cresçam. Entretanto, não se pode criar uma globalização alternativa somente com “mosquitos ”, contra-cúpulas, manifestações de ruas, lutas nacionais, informes separados sobre alternativas, campanhas paralelas, equipes de pressão política desconectadas entre si. No máximo consegue-se alguns objetivos que minoraram problemas pontuais mas que manterão intactas as fábricas de produção de pobreza e sofrimento humano.

Sobre que bases sociais e organizativas construir esta Internacional? A dificuldade do tema e o espaço reduzido disponível me obrigam a ser breve e esquemático. As bases sociais são muito amplas e já estão dentro do FSM. Creio que há um grande consenso sobre os problemas a serem abordados e as medidas mais urgentes a serem tomadas, principalmente para resolver as necessidades básicas dos pobres do Sul. Um decálogo dos problemas mundiais prioritários e das ações urgentes a serem empreendidas seria relativamente fácil de serem elaborado se forem assumidos por muitos integrantes do atual FSM desde que se concentre em temas bastante básicos: alimentação, água, educação, saúde etc. Este seria o programa mínimo para criar alianças cidadãs bastante amplas que são absolutamente imprescindíveis. Com respeito à organização interna seria necessário estabelecer sistemas de trabalho que permitissem a reprodução da identidade de movimentos diversos com a disposição de eliminar as iniciativas particulares, quando necessário, e conectá-las com programas comuns. Não se trata de decretar a abolição de todos os movimentos para criar uma única organização mundial centralizada mas também não se pode continuar com a multiplicidade de propostas, campanhas, projetos, mobilizações etc. que se superpõem umas às outras, são paralelas ou têm uma confluência muito débil e pontual. A Internacional que sugiro só poderá existir se conseguirmos enfrentar com êxito esta dificílima tarefa de preservação da identidade e relegar iniciativas autônomas ao refúgio de um trabalho comum. Para abordar este objetivo é necessário pelo menos, seis instrumentos de trabalho:

Creio que necessitamos de uma nova Internacional radicalmente distinta das quatro anteriores; uma Internacional de movimentos, não de partidos políticos

a) Um âmbito permanente de debate sobre os problemas de fundo: diagnóstico, objetivos, propostas, estratégias etc. François Houtart se referiu no La tirania del mercado y sus alternativas [ A tirania do mercado e suas alternativas] à existência de duas correntes intelectuais que convergem e divergem no FSM: keynesianos e pós capitalistas. Ainda que haja muitas correntes, as posições destas duas famílias ideológicas que, sem dúvida, são as mais fortes, chega a hora de realizar um tipo ou outro de propostas, objetivos e estratégias. É necessário um debate com tempo suficiente e uma nova cultura do diálogo, o consenso e a as contradições internas. b) Uma rede de centros de pesquisa e ação conectados entre si e com os movimentos de base para elaborar um sólido programa internacional de políticas de justiça global. Creio que chegou a hora de economizar os esforços de muitos grupos de elaboração de propostas e alternativas com o fim de oferecer à comunidade internacional um programa de políticas para outro tipo de globalização. Algo parecido, ainda que distinto, às propostas programáticas contidas no “Nuevo Orden Economico Internacional” [ Nova Ordem Econômica Internacional] e a “Carta de Derechos y Deberes Econômicos de los Estados”[ Carta de Direitos e Deveres Econômicos dos Estados”] formulada nos primeiros cinco anos dos anos 70. c) Um âmbito de planificação e coordenação de campanhas e mobilizações de pressão política de alcance mundial, ainda que adaptadas às especificidades de áreas continentais ou regionais. d) Uma rede articulada de meios de comunicação dedicada a tarefas de informação interna e externa, criação de opinião pública mundial em todo tipo de cidadãos, e incidência nos grandes meios de comunicação de massas. Seu objetivo final seria gerar uma nova mentalidade e sensibilidade coletiva sobre a justiça global. Dada a importância dos meios de comunicação na criação da opinião pública, os jornalistas são aliados fundamentais para os movimentos. Nesta linha, é fundamental o trabalho com os diretores de opinião dos meios de comunicação mais importantes. e) Um grupo internacional de avaliação e acompanhamento dos objetivos propostos, dos meios adotados e dos tempos estabelecidos para alcançá-los. f) Um Conselho Internacional estável e permanente, dedicado exclusivamente à tarefa de impulsionar estes trabalhos.

Estes são alguns dos meios que seria conveniente levar em conta, caso se estime que a sugestão formulada merece ser levada em consideração.

(Trad.: Celeste Marcondes)