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outubro 2001



ERA DAS GUERRAS ASSIMÉTRICAS

Vozes discordantes

“Sempre nos contentamos em denunciar os terroristas como bad boys, sem nos interessarmos em compreender os seus motivos”, avalia, criticamente, James Schlesinger, ex-diretor da CIA e do Ministério da Defesa norte-americano


Philip S.Golub

Em plena histeria de guerra, é difícil chamar os Estados Unidos à razão. E, no entanto, algumas vozes discordantes se fazem ouvir. Robert Reich, ex-ministro do Trabalho, afirma: “Talvez os Estados Unidos estejam em guerra, mas se o castigo e os nossos discursos forem entendidos como ações dirigidas contra a totalidade do mundo árabe, então os terroristas terão conseguido o que queriam1.” O diretor do jornal International Herald Tribune, David Ignatius, escreveu: “É muito fácil começar uma guerra, mas é difícil terminá-la. Essa é uma regra que os terroristas foram inteligentes em não esquecer e que deveria orientar os dirigentes norte-americanos2.” William Pfaff, editorialista do Los Angeles Times, salienta que, há mais de trinta anos “os Estados Unidos vêm se recusando a fazer um esforço realmente imparcial para encontrar uma solução para o conflito [entre israelenses e palestinos]. Envolveram-se de mil maneiras no Oriente Médio, mas nunca agiram de forma justa3”.

Um governo autista e obcecado

O que acontecerá quando começarem as operações de guerra? Quando a guerra do Vietnã começou, também havia um clima de euforia...

James R. Schlesinger, ex-diretor da CIA e do Ministério da Defesa, pensa da mesma forma: “Estamos colhendo os frutos de um problema que nunca chegou a ser identificado, pois sempre nos contentamos em denunciar os terroristas como bad boys, sem nos interessarmos em compreender os seus motivos. E a política externa norte-americana corre o sério risco de alimentar a cólera no mundo árabe4.” Para a escritora Susan Sontag, “os Estados Unidos nunca pareceram estar tão distantes de compreender a realidade5”. Já o general Anthony Zinni, ex-comandante-em-chefe do Estado-Maior das forças armadas norte-americanas, adverte: “Não podemos simplesmente chegar lá e arrasar um país; uma ação militar que não leve em conta a integração dos fatores econômicos e políticos regionais somente iria perpetuar o problema6.”

De momento, essas vozes não alcançam os ouvidos de um governo autista e obcecado pela guerra, nem os de um país pronto para os mais pesados sacrifícios. O que acontecerá quando começarem as operações? Quando a guerra do Vietnã começou, também havia um clima de euforia...
(Trad.: Jô Amado)

1 - Declaração à rádio pública PBS, em 13 de setembro de 2001.
2 - IHT, 12 de setembro de 2001.
3 - IHT, 12 de setembro de 2001.
4 - Le Figaro, 17 de setembro de 2001.
5 - International Herald Tribune, Paris, 17 de setembro de 2001.
6 - The Washington Post, 14 de setembro de 2001.