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setembro 2003



CHILE, 30 ANOS

A corrida às embaixadas

Quando o palácio La Moneda foi bombardeado, no dia 11 de setembro de 1973, a esquerda chilena estava desprevenida e a tragédia foi total. Foi um salve-se quem puder. Todo mundo correu para as embaixadas. Cadáveres boiavam no rio Mapocho...


Pierre Kalfon

As listas de “procurados”

O governo de Allende utilizara apenas os recursos da legalidade para levar o país a um regime socialista. Sem recorrer aos fuzis, sem armar o povo

No rio Mapocho, no coração de Santiago, os cadáveres daqueles que haviam sido fuzilados durante a noite tornavam-se um espetáculo corriqueiro. Do alto dos cais, ao longo dos rios, os pedestres silenciosos, aterrorizados, olhavam-nos boiarem à deriva. As buscas policiais e as prisões multiplicaram-se. Os principais dirigentes da Unidade Popular estavam com a cabeça a prêmio. Em sua casa em Santiago, saqueada, o poeta Pablo Neruda deixara-se morrer. Rapidamente, o campo de concentração do Estádio Nacional, imenso, ficara lotado de homens e de mulheres quase pasmos por se encontrarem ali. Um sociólogo argentino, de nome irlandês, havia sido preso na clínica onde sua mulher acabara de dar à luz. Estava muito bem vestido e o que tinham contra ele era suficientemente leve para que o soltassem após tê-lo esquecido por três dias, sentado num tamborete. Contou-me ter visto, fixadas na parede e em várias colunas, as listas das pessoas de esquerda procuradas, com a indicação da vinculação política precisa de cada uma. Havia até uma coluna de “estrangeiros” onde, disse-me ele, eu tinha a honra de aparecer em segundo lugar. Os serviços militares de informação não haviam perdido tempo durante o governo Allende.

Foi exatamente minha condição de jornalista estrangeiro, somada à de professor enviado pelo governo francês, que me valeu uma avalanche de pedidos de ajuda: amigos e desconhecidos, amigos de amigos, sempre em situação urgente. Os chilenos de esquerda não eram os únicos em perigo. Muitos latino-americanos tinham sido apanhados na arapuca. Brasileiros, bolivianos, uruguaios, fugindo da repressão em seus países, tinham vindo buscar refúgio no Chile. Tinham à sua frente somente as metralhadoras do exército. Para onde ir?

A solidariedade inesperada da Holanda

Nas paredes, em várias colunas, eram afixadas as listas das pessoas de esquerda procuradas, com a indicação da vinculação política precisa de cada uma

Minha mulher e eu improvisamos como pudemos uma rede de assistência imediata, recorrendo aos diplomatas que conhecíamos, aos franceses dispostos a ajudar. Com Véronique D., uma enviada especial da AFP chamada como reforço, com Jacques d’A., um colega de Valparaíso, com muitos outros, fizemos a lista das embaixadas amigas e das embaixadas “malditas”. Na primeira categoria, distinguiam-se a do México, a da Argentina, a da Suécia (graças a um homem extraordinário, Harald Edelstam) e a embaixada da França sob o comando do embaixador Pierre de Menthon. Ao contrário, as dos países do Leste, da URSS, da Alemanha Federal, da Holanda sobressaíam por sua má vontade e por suas portas trancadas. Contava-se que um embaixador recorrera aos policiais para retirar um homem que, dependurado nos galhos de uma árvore da residência, com um pé ainda do lado de fora, pedia proteção.

Entretanto, de uma maneira espetacular, a Holanda deu uma guinada num domingo de manhã. Nesse dia, bem cedo, um diplomata holandês que eu conhecia apareceu em minha casa. “Acabo de pôr no avião meu embaixador, aquele que me obrigava a lhe dizer não. A partir de agora, eu respondo pela embaixada de meu país. Amanhã mesmo, alugo uma casa, compro colchões, contrato uma cozinheira. Pode colocar nela quem você quiser”. Tive vontade de abraçá-lo. Vidas iam poder ser salvas. Aliás, não esperei o dia seguinte. Em minha lista de espera, três parlamentares comunistas estavam em perigo iminente. Mandei-os imediatamente para a casa amiga.

Artifícios para conseguir asilo

Diante de cada embaixada, havia patrulhas. Se um cidadão parecia suspeito, era imediatamente algemado, com os braços em volta de uma árvore, na calçada

Com freqüência, era menos difícil conseguir uma porta aberta do que chegar fisicamente à dita porta de embaixada. Diante de cada representação diplomática, a Junta havia posto patrulhas que filtravam as entradas. Fulano parecia suspeito? Era imediatamente algemado, às vezes com os braços em volta de uma árvore, na calçada. A viatura da polícia viria cuidar dele. Mas sempre havia alguns artifícios. De tanto observar, havíamos notado, por exemplo, que o acesso à embaixada da Bélgica ficava no fundo de uma rua sem saída, no bairro rico da Providencia. Os policiais tinham, então, que deixar seu posto no momento da troca da guarda para irem esperar a viatura dos substitutos na beira da avenida. Era durante essa brecha de apenas alguns minutos que se podia acompanhar, e sobretudo sem correr, os candidatos ao exílio e se certificar de que, realmente, haviam passado a soleira tão bem defendida um minuto antes.

Depois chegou a hora em que aqueles mesmos que punham os refugiados nas embaixadas tiveram, por sua vez, que nelas buscar proteção e deixar o país. Os chilenos tiveram que aprender a viver com Pinochet, com a repressão, com o toque de recolher, com o ultraliberalismo. Dezessete longos anos...

(Trad.: Iraci D. Poleti)