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outubro 2003



IMIGRAÇÃO

“Condenados da terra”

No final do século XIX e início do século XX, os estrangeiros que emigravam para a França foram vítimas de uma discriminação – principalmente, devido à escassez de emprego – que muitas vezes resultava em violência e mortes


Emmanuelle Fleury

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Em Marselha, em 1881, cerca de 300 operários franceses atacaram imigrantes italianos. O balanço foi trágico: 50 mortos e 150 feridos

Muitos jovens franco-magrebinos se consideram como os principais “condenados da terra”. Por mais duro que seja seu destino, não é análogo ao calvário vivido por tantos estrangeiros que foram morar na França nos séculos XIX e XX. A ponto de, como destaca o historiador Gerard Noiriel2 , a maioria ter preferido migrar para regiões mais acolhedoras, mostrando assim seu ressentimento.

Marselha, 1881: os trabalhadores italianos são alvo de verdadeiros tumultos. A violência atinge o paroxismo em 1893, em Aigues-Mortes, local em que cerca de 300 operários franceses atacaram os imigrantes transalpinos. Balanço, segundo o Times: 50 mortos e 150 feridos.

Nesse meio tempo, em 1892, mineiros da região Nord-Pas-de-Calais atacam seus colegas belgas, que representam 75% da mão-de-obra. Muitos deles são obrigados a fugir da terra que os acolheu.

Continua hostilidade contra imigrantes

No final da década de 30, a França “acolheu” meio milhão de espanhóis anti-franquistas: foram amontoados em campos de concentração no sul do país

Paris, 1894: começa o caso Dreyfus. Nessa França, que foi a primeira emancipar os judeus, cortejos iriam percorrer as cidades, beirando freqüentemente o pogrom, conta Pierre Birnbaum no livro Le Moment antisémite. Meio século mais tarde, os judeus iriam sofrer o anti-semitismo de Estado: mais de 75 mil deles (num total de 330 mil) seriam deportados e somente 2.500 voltariam...

Anteriormente, a França “acolheu” cerca de meio milhão de republicanos espanhóis que fogem dos exércitos franquistas vitoriosos. A metade ficaria amontoada atrás do arame farpado dos campos de concentração do sul da França, antes de ser reunida nos grupos de trabalhadores estrangeiros (GTE), implementados em 1940 – “uma versão moderna da escravidão organizada3 ”.

Se a hostilidade contra os imigrantes e seus descendentes já não tem o caráter funesto do passado, nem por isso ela desapareceu. E, como por um revide da guerra da Argélia, os árabes são, na França, suas primeiras vítimas. Mas não são as únicas: além da violência contra os judeus provocada pela segunda Intifada, também os ciganos pagam o preço: o ministro da Habitação ainda lhes está prometendo, 13 anos depois, a aplicação da lei que deveria lhes garantir albergues de recepção4 ...

(Trad.: Regina Salgado Campos)

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1 - Fleury faz uma alusão ao livro de Frantz Fanon, Les damnés de la terre, traduzido por Condenados da terra.
2 - Gérard Noiriel, « Petite histoire da l’intégration à la française », Le monde diplomatique, fevereiro de 2002.
3 - Ler, de Louis Stein, Par delà l’exil et la mort. Les républicains espagnols en France, ed. Mazarine, Paris, 1981
4 - Discurso de Gilles de Robien em 27 de agosto de 2003.